A Polícia Federal (PF) identificou indícios de que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria determinado pessoalmente a execução de ações coordenadas nas redes sociais com três objetivos principais: promover a imagem da instituição financeira, atacar autoridades públicas e desqualificar jornalistas. As suspeitas surgiram a partir da análise inicial do telefone celular do empresário, apreendido no momento de sua prisão durante a Operação Compliance Zero.
Segundo investigadores, diálogos localizados no aparelho indicam que Vorcaro repassava ordens diretas para a implementação dessas estratégias digitais. O conteúdo está sendo examinado para a elaboração de um relatório preliminar, que poderá fundamentar a abertura de um novo inquérito policial, caso sejam confirmados indícios da prática de crimes.
As informações foram reveladas pelo O Estado de S. Paulo, que teve acesso a dados da investigação. De acordo com fontes ouvidas pelo jornal, o banqueiro não mantinha contato direto com influenciadores digitais, mas transmitia orientações a intermediários externos ao quadro formal do Banco Master, responsáveis por operacionalizar as ações nas plataformas digitais. Procurada, a defesa de Vorcaro não se manifestou até a publicação da reportagem.
Ordens para conteúdos positivos e ataques virtuais
Conforme a apuração, Vorcaro solicitava a produção e disseminação de conteúdos positivos sobre o banco, ao mesmo tempo em que determinava ataques virtuais contra pessoas públicas que, em sua avaliação, estariam atuando contra os interesses da instituição. Entre os alvos, segundo os investigadores, estariam autoridades e entidades ligadas ao sistema financeiro e à regulação bancária, além de jornalistas que publicaram reportagens críticas ao banco.
As mensagens analisadas pela PF são anteriores à decretação da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, decisão tomada após a apreensão do celular do empresário. Ainda assim, para os investigadores, o padrão descrito nos diálogos é semelhante às ofensivas digitais que voltaram a ocorrer após a liquidação, especialmente no período da virada do ano.
À época, já havia registros de ataques coordenados nas redes sociais contra o Banco Central, motivados pela demora na análise da operação de venda do Master ao Banco de Brasília. O negócio acabou vetado pelo regulador no início de setembro, o que ampliou o desgaste entre o banco privado e as autoridades monetárias.
Contratos milionários e “Projeto DV”
As investigações também dialogam com informações divulgadas anteriormente pelo O Globo, segundo as quais contratos firmados com influenciadores digitais previam pagamentos que poderiam chegar a R$ 2 milhões. O Estadão revelou ainda a existência de um contrato identificado como “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, que incluía uma cláusula de multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo.
Um dos envolvidos na estrutura contratual seria um administrador de empresas ligado ao jornalista de celebridades Leo Dias, segundo as reportagens. Os documentos previam confidencialidade sobre “estratégias de comunicação, narrativas, reputação, posicionamento e influência” relacionadas à defesa do banco e à contestação da atuação das autoridades.
Ataques concentrados e questionamentos institucionais
Como já havia sido divulgado pelo Estadão/Broadcast, instituições e autoridades relacionadas ao processo de liquidação do Banco Master foram alvo de ataques coordenados nas redes sociais em uma ofensiva concentrada em cerca de 36 horas. Essas ações utilizaram perfis conhecidos por promover celebridades para questionar a credibilidade de órgãos como o Banco Central e a Federação Brasileira de Bancos, no contexto da liquidação da instituição financeira.
A Febraban chegou a informar, em nota, que identificou um “volume atípico” de postagens com menções à entidade e a seus representantes no período, e que passou a analisar se o movimento poderia caracterizar um ataque coordenado. A federação destacou que seus monitoramentos são periódicos e realizados com apoio de empresas especializadas.
Próximos passos da investigação
No momento, a Polícia Federal concentra esforços na consolidação das informações extraídas do telefone apreendido e de outros elementos já coletados. O objetivo é avaliar se há material suficiente para justificar a abertura formal de um novo inquérito, além das investigações já em curso relacionadas à Operação Compliance Zero e à liquidação do banco.
Segundo investigadores, mesmo que não se comprove prejuízo financeiro direto decorrente das campanhas digitais, a eventual comprovação de ações coordenadas para atacar autoridades públicas, manipular o debate público ou desinformar pode configurar crimes, a depender da conduta individualizada e do enquadramento jurídico.
O caso segue sob análise também no Tribunal de Contas da União, que avalia aspectos da atuação do Banco Central no processo de liquidação do Master. Em paralelo, o avanço das apurações da PF amplia o foco do caso para além da esfera financeira, alcançando a dimensão da atuação digital e da possível tentativa de influenciar a opinião pública e desgastar instituições do sistema financeiro nacional.