Prisão de Maduro não acalma opinião pública americana

Ataque dos EUA à Venezuela enfrenta rejeição interna / Reprodução

O apoio ao ataque varia drasticamente entre partidos, enquanto cresce o temor de uma ocupação prolongada e de novos conflitos na América Latina


A recente investida militar ordenada pela Casa Branca contra o território venezuelano não conquistou o coração da opinião pública nos Estados Unidos. Embora o governo apresente a captura de Nicolás Maduro como um triunfo diplomático e jurídico, as ruas de Washington e do interior do país demonstram um ceticismo profundo. Uma nova pesquisa conduzida pela Reuters/Ipsos revela, de fato, que apenas 33% da população aprova a operação.

Este cenário expõe uma ferida aberta na sociedade americana sobre o papel das potências imperiais em nações soberanas. Enquanto o governo justifica a ação com o combate ao narcotráfico, a maioria dos cidadãos parece enxergar os ecos de intervenções passadas. Frequentemente, tais incursões resultaram em instabilidade e perdas humanas irreparáveis. Portanto, a pesquisa reflete uma resistência clara ao retorno de uma política externa baseada na força bruta.


O abismo ideológico entre democratas e republicanos

Os números revelam que a polarização política continua a ditar o ritmo da aceitação social das guerras modernas. Consequentemente, o apoio à incursão militar fragmenta-se drasticamente entre os partidos. Entre os republicanos, que compõem a base fiel do presidente, a aprovação alcança os 65%. Entretanto, o cenário muda completamente quando observamos o campo progressista e os defensores dos direitos humanos.

No lado democrata, a rejeição é quase absoluta, com apenas 11% de apoio à ação direta. Além disso, os eleitores independentes, muitas vezes o fiel da balança eleitoral, mostram-se cautelosos. Apenas 23% desses eleitores concordam com o ataque realizado. Essa disparidade sugere que a narrativa de “libertação” ou “justiça” não convence quem defende a autodeterminação dos povos e o diálogo multilateral.

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O temor de uma nova aventura militar sem fim

A memória de conflitos prolongados e custosos ainda assombra a mente da classe trabalhadora americana. De acordo com o levantamento, 72% dos entrevistados expressam medo de que os Estados Unidos se envolvam profundamente no país sul-americano. Esse temor atravessa barreiras partidárias de maneira surpreendente. Ele une pessoas que não desejam ver trilhões de dólares investidos em ocupações estrangeiras enquanto a infraestrutura interna e a saúde pública carecem de recursos básicos.

A incursão realizada em Caracas no último sábado, que culminou na prisão de Maduro, evoca fantasmas de invasões históricas na América Latina. Por isso, a promessa de “governar” a Venezuela gera calafrios em quem prioriza a paz. O público demonstra, claramente, que prefere a segurança interna à glória militar em terras distantes. Além disso, o risco de uma guerra civil venezuelana parece iminente aos olhos da população.


O interesse oculto pelas reservas de petróleo

Um dos pontos mais sensíveis da nova estratégia governamental reside na gestão das riquezas naturais da Venezuela. No domingo, o presidente declarou que o país necessita de “acesso total” aos campos de petróleo venezuelanos. No entanto, a opinião pública não endossa totalmente essa ambição energética por meios militares. O povo americano parece identificar o viés extrativista por trás do discurso oficial.

Apenas 30% dos cidadãos apoiam abertamente o envio de tropas terrestres para a região. Por outro lado, a base republicana mostra-se mais ávida pelos recursos, com 59% defendendo o controle da produção petrolífera. Esse posicionamento gera críticas severas de diversos setores sociais. Muitos especialistas veem na ação uma tentativa de pilhagem econômica disfarçada de missão humanitária, ferindo a ética internacional.


Riscos humanos e financeiros preocupam a base aliada

Mesmo entre aqueles que apoiam o governo, existe uma apreensão genuína sobre o custo humano da operação. Cerca de 64% dos republicanos temem que a incursão coloque em risco as vidas dos militares destacados. Além disso, 54% dos partidários do governo demonstram preocupação com os impactos financeiros de uma eventual ocupação prolongada. Assim, o peso econômico da guerra assusta até os setores mais conservadores.

O governo tenta amenizar esses receios sugerindo que a administração da Venezuela ocorreria via pressão política. Contudo, a retórica agressiva permanece firme e assustadora. Em tom de ameaça, o presidente declarou: “Se eles não se comportarem, faremos um segundo ataque”. Essa postura beligerante mantém o país em alerta máximo sobre os próximos passos da Casa Branca no Hemisfério Ocidental.


Metodologia e o futuro do cenário político

A pesquisa Reuters/Ipsos ouviu 1.248 adultos em todo o território nacional. Os dados indicam que o índice de aprovação geral do presidente subiu para 42%. Embora o apoio à guerra seja baixo, o uso da força parece ter mobilizado parte da base eleitoral de curto prazo. Todavia, esse ganho de popularidade pode ser efêmero se o conflito se arrastar.

A margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais, o que confirma a solidez da rejeição popular. Resta saber se o governo ignorará o clamor popular por cautela e diplomacia. O destino da nação vizinha e a estabilidade regional dependem dessa decisão. Caso o plano de domínio total prossiga, Washington desafiará abertamente a vontade da maioria de seu próprio povo.

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista, escreve sobre política, economia, é apaixonado por samba e faz a cobertura do carnaval carioca. Instagram: @rhyandemeira
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