Após mais de 25 anos de negociações, União Europeia e Mercosul concluíram o maior acordo de livre-comércio já firmado no mundo em termos de população e PIB combinados. Juntos, os dois blocos formam um mercado de mais de 722 milhões de pessoas e cerca de US$ 22 trilhões em PIB.
O acordo representa uma vitória política para o presidente Lula, que poderá apresentá-lo à sociedade brasileira como um triunfo diplomático em ano eleitoral. O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, celebrou o pacto como um “acordo histórico, não apenas pelo seu significado econômico, mas sobretudo pelo significado geopolítico”, que abre “uma nova avenida de cooperação nesse momento conturbado, mostrando um novo caminho de pluralidade e oportunidade”.
O pacto acontece em um momento de estranhamento diplomático crescente entre Estados Unidos e Europa, sobretudo em função da postura agressiva do presidente Trump, que está ameaçando militarmente anexar a Groenlândia. O distanciamento de Trump em relação à OTAN e suas divergências com a União Europeia sobre o conflito na Ucrânia criam uma janela de oportunidade para que o Brasil atraia investimentos europeus, que tradicionalmente iam para os Estados Unidos.
Considerando apenas o Brasil, a corrente de comércio com a União Europeia atingiu US$ 100,10 bilhões em 2025, com exportações de US$ 49,81 bilhões e importações de US$ 50,29 bilhões. Na última década, o Brasil reduziu substancialmente seu déficit com o bloco europeu: de US$ 5,03 bilhões em 2015 para menos de meio bilhão em 2025, período no qual a corrente de comércio cresceu quase 60%.
Entre os principais produtos exportados pelo Brasil estão petróleo bruto (US$ 9,82 bilhões), café (US$ 7,19 bilhões), farelo de soja (US$ 4,02 bilhões) e minério de cobre (US$ 3,07 bilhões). Do lado das importações, destacam-se medicamentos (US$ 3,77 bilhões), vacinas (US$ 3,59 bilhões), autopeças (US$ 2,52 bilhões) e turbinas a gás (US$ 2,47 bilhões).
Embora o Conselho da União Europeia ainda não tenha anunciado formalmente a assinatura definitiva, um ato político simbólico reuniu em Bruxelas a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e líderes sul-americanos para chancelar o tratado. O acordo prevê a eliminação gradual de tarifas de importação sobre cerca de 91% das mercadorias comercializadas entre os blocos.
A ratificação ocorre em meio a tensões inéditas no hemisfério ocidental, marcada por ações militares dos EUA na Venezuela e ameaças de Trump à Colômbia. Para especialistas como Robert Z. Lawrence, da Universidade Harvard, a política externa americana sob Trump contribui para “criar um mundo sem a América”.
A aprovação não foi unânime dentro da União Europeia. Países como França, Irlanda, Áustria, Hungria e Polônia votaram contra, alegando riscos para seus produtores rurais diante da concorrência de commodities agrícolas sul-americanas. Para viabilizar o pacto, a Comissão Europeia negociou concessões importantes, incluindo a antecipação de 45 bilhões de euros em recursos da Política Agrícola Comum a partir de 2028.
Movimentos sociais e organizações ambientalistas reagiram com dureza ao acordo. A Via Campesina manifestou oposição categórica, enquanto ambientalistas alertam para o risco de expansão da fronteira agrícola e aumento do desmatamento. Na França, a federação de sindicatos agrícolas classificou a aprovação como uma “traição da soberania agrícola europeia”.
Apesar do peso político da assinatura, o acordo ainda precisa superar etapas decisivas para entrar em vigor. O texto deverá ser aprovado pelo Parlamento Europeu, onde enfrenta resistência de mais de 150 eurodeputados, e nos parlamentos nacionais dos países do Mercosul.
O acordo UE-Mercosul surge como uma aposta na cooperação multilateral em um momento de instabilidade global, sinalizando a busca por parcerias baseadas em regras comuns. Se o pacto sobreviverá aos obstáculos políticos que ainda enfrenta é questão em aberto, mas sua aprovação preliminar já marca uma inflexão importante nas relações comerciais globais.


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