A inflação dos alimentos consumidos dentro de casa perdeu força ao longo de 2025 e encerrou o ano com alta acumulada de 1,43% no Brasil. O resultado representa uma desaceleração expressiva em relação a 2024, quando os preços haviam subido 8,23%, e marca o menor patamar desde 2023, ano em que o segmento chegou a registrar deflação. Os dados integram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, indicador oficial da inflação, divulgado nesta sexta-feira (9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
O comportamento mais benigno dos preços da alimentação no domicílio teve papel relevante no resultado geral da inflação de 2025, ajudando a conter pressões sobre o custo de vida das famílias. Após um início de ano marcado por preocupações com a escalada dos alimentos, o cenário mudou ao longo do segundo semestre, quando a maior oferta agrícola e a trégua do câmbio passaram a influenciar os preços no varejo.
Segundo o economista André Braz, do FGV Ibre, a desaceleração está diretamente ligada a fatores do lado da oferta. “Uma delas é a ampliação da oferta de produtos a partir de uma ‘safra muito robusta’”, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo. Em 2025, a produção de grãos no país atingiu níveis recordes, o que contribuiu para aumentar a disponibilidade de alimentos no mercado interno e reduzir pressões inflacionárias.
Além do desempenho da safra, o câmbio também exerceu influência relevante. A valorização do real frente ao dólar ao longo de boa parte do ano reduziu as cotações internacionais das commodities agrícolas e barateou insumos utilizados no campo, como fertilizantes e defensivos. Esse movimento ajudou a aliviar os custos de produção e foi parcialmente repassado aos preços finais pagos pelos consumidores.
Os efeitos combinados da oferta elevada e do câmbio mais favorável ficaram evidentes no comportamento mensal dos preços. Entre junho e novembro, a alimentação no domicílio registrou seis meses consecutivos de queda, acumulando retração significativa no período. Itens básicos, como arroz, feijão, leite longa-vida e algumas hortaliças, apresentaram reduções expressivas, compensando altas pontuais em outros produtos.
A desaceleração da inflação dos alimentos teve impacto direto no debate econômico e político ao longo de 2025. No início do ano, o custo da alimentação figurava entre as principais preocupações do governo do Luiz Inácio Lula da Silva, diante do peso desse grupo no orçamento das famílias de menor renda e da repercussão negativa sobre a avaliação da gestão federal.
Em março, Lula chegou a comentar publicamente a alta do preço do ovo de galinha, atribuindo a disparada, na ocasião, à ação de um “pilantra”. Especialistas, no entanto, apontaram fatores estruturais para a elevação temporária, como o aumento da demanda com a volta às aulas, o crescimento das exportações e os efeitos do calor intenso sobre a produção avícola. Com o avanço do ano, esses fatores perderam força, e o mercado passou a registrar maior equilíbrio entre oferta e demanda.
Apesar do alívio observado em 2025, as projeções para 2026 indicam um cenário menos favorável para os preços dos alimentos. André Braz avalia que a inflação do grupo alimentação deve voltar a ganhar intensidade, embora sem movimentos abruptos. Segundo ele, a alta pode ficar entre 4% e 4,5% no acumulado do próximo ano, ainda distante de uma “explosão” de preços, mas acima do patamar registrado em 2025.
O próprio IBGE já sinaliza um recuo na produção agrícola. A estimativa oficial aponta para uma safra de grãos cerca de 3% menor em 2026, reflexo principalmente da base de comparação elevada deixada pelo desempenho excepcional de 2025. Condições climáticas menos favoráveis e ajustes no ritmo de plantio também podem limitar a expansão da oferta.
Outro ponto de atenção para o próximo ano está no mercado de proteínas animais. Fernando Iglesias, coordenador de mercados da consultoria Safras & Mercado, avalia que a dinâmica da pecuária pode pressionar os preços da carne bovina. “O abate de fêmeas foi ‘muito amplo’ em 2024 e 2025”, explicou. Segundo ele, a tendência agora é de retenção desses animais para recomposição do rebanho, o que reduz a oferta de bovinos para abate e tende a elevar os preços nos meses seguintes.
Mesmo diante desses riscos, analistas destacam que o patamar atual parte de uma base mais confortável do que a observada em anos recentes. A desaceleração de 2025 reduziu o impacto acumulado da inflação dos alimentos sobre os consumidores e ajudou a preservar o poder de compra das famílias, especialmente das camadas de renda mais baixa.
Com a combinação de safra robusta, câmbio mais estável e ajustes graduais no mercado de proteínas, a expectativa predominante é de que a inflação dos alimentos em 2026 permaneça sob controle, ainda que em níveis mais elevados do que os registrados no encerramento de 2025.