A guerra que ninguém pediu: quando Washington olha para Caracas e o estadunidense vira o rosto
Há decisões que não cabem apenas nos salões do poder. Algumas batem direto na porta de casa, no bolso e na consciência coletiva. A mais recente investida militar ordenada pela Casa Branca contra a Venezuela é uma delas. Vendida oficialmente como vitória diplomática e jurídica, a captura de Nicolás Maduro não caiu bem entre os próprios americanos. Pelo contrário.
Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos, apenas 33% da população dos Estados Unidos aprova a operação. O número é baixo. E diz muito. Enquanto o governo celebra, o país suspira, desconfiado. As ruas de Washington, assim como as cidades do interior, parecem repetir a mesma pergunta incômoda: por quê?
Um velho trauma chamado intervenção
Os Estados Unidos conhecem bem o preço das aventuras militares. Iraque, Afeganistão, Líbia. Os nomes mudam, mas o roteiro costuma ser o mesmo. Promessas de libertação, discursos morais e, no fim, instabilidade, mortes e bilhões queimados.
Por isso, não surpreende que grande parte da população enxergue essa ação como mais um capítulo de uma política externa baseada na força. Embora o discurso oficial fale em combate ao narcotráfico, muitos cidadãos reconhecem os ecos de um passado que ainda dói. A pesquisa não mostra apatia. Mostra resistência.
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Além disso, cresce a percepção de que o papel de “polícia do mundo” já não convence como antes. Em tempos de hospitais lotados, estradas em ruínas e desigualdade crescente, gastar energia — e dinheiro — em conflitos externos soa desconectado da realidade.
A polarização que transforma guerra em palanque
Como quase tudo na política americana atual, a guerra também virou disputa ideológica. Os dados revelam um abismo entre republicanos e democratas. Entre os eleitores do partido do presidente, 65% aprovam a ofensiva. Já no campo democrata, o apoio despenca para apenas 11%.
Os independentes, sempre decisivos, seguem cautelosos. Apenas 23% concordam com a ação militar. Esse grupo, em especial, parece rejeitar a narrativa de “justiça” imposta de cima para baixo. Para eles, autodeterminação e diplomacia ainda importam.
Assim, a guerra deixa de ser uma questão de segurança internacional e passa a funcionar como ferramenta eleitoral. Um risco conhecido. E perigoso.
O medo de mais uma guerra sem fim
Há um sentimento que atravessa partidos e classes sociais: o medo. Segundo o levantamento, 72% dos entrevistados temem que os EUA se envolvam profundamente na Venezuela. Não se trata de solidariedade ideológica com Caracas. Trata-se de sobrevivência política e econômica.
A classe trabalhadora sabe quem paga a conta. São seus filhos enviados ao front. São seus impostos bancando ocupações prolongadas. Enquanto isso, escolas fecham e o sistema de saúde pede socorro.
A prisão de Maduro, realizada em Caracas no último sábado, reacendeu fantasmas conhecidos na América Latina. Intervenções externas raramente terminam como planejado. E o risco de uma guerra civil venezuelana amplia ainda mais o temor coletivo.
Petróleo: o elefante no meio da sala
Nenhuma análise fica completa sem falar de petróleo. No domingo, o presidente afirmou que os Estados Unidos precisam de “acesso total” às reservas venezuelanas. A frase caiu como gasolina no fogo do debate público.
Apenas 30% da população apoia o envio de tropas terrestres. Ainda assim, entre republicanos, 59% defendem que os EUA assumam o controle da produção petrolífera. Para muitos críticos, o discurso humanitário desmorona diante desse interesse econômico explícito.
Não é difícil entender a desconfiança. A história latino-americana está repleta de intervenções justificadas por valores universais e concluídas com exploração de recursos. A memória coletiva não esquece tão fácil.
Nem os aliados dormem tranquilos
Mesmo entre os apoiadores do governo, a preocupação cresce. Cerca de 64% dos republicanos temem pelas vidas dos militares envolvidos. Além disso, 54% se mostram inquietos com o impacto financeiro de uma possível ocupação prolongada.
A Casa Branca tenta acalmar os ânimos. Fala em pressão política, não em ocupação permanente. No entanto, o tom beligerante insiste em aparecer. O presidente declarou: “Se eles não se comportarem, faremos um segundo ataque”.
A frase não tranquiliza. Ao contrário. Mantém o país em estado de alerta e reforça a sensação de que o conflito pode escalar a qualquer momento.
O dado que incomoda o poder
A pesquisa ouviu 1.248 adultos em todo o país. A margem de erro é de três pontos percentuais. Mesmo assim, a mensagem é clara. Embora o índice geral de aprovação do presidente tenha subido para 42%, o apoio à guerra continua baixo.
Agir com força pode mobilizar a base no curto prazo. Porém, ignora um clamor crescente por cautela. Resta saber se o governo ouvirá essa maioria silenciosa ou se insistirá em exercer domínio sobre uma nação soberana, desafiando não apenas a Venezuela, mas a própria vontade do povo americano.
Porque, no fim, toda guerra começa longe. Mas sempre termina em casa.


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