Petro: ameaça dos EUA contra Colômbia reflete política “imperial”

BBC

Presidente colombiano, Gustavo Petro, disse que EUA estão tratando outras nações como parte de um ‘império’ americano

O presidente colombiano, Gustavo Petro, disse que o seu país enfrenta uma “ameaça real” de ação militar por parte dos Estados Unidos. A declaração à BBC News ocorre em meio a uma escalada histórica de tensões entre os dois presidentes, marcada por ameaças mútuas, sanções econômicas e o temor de uma intervenção semelhante à que resultou na captura de Nicolás Maduro na Venezuela.

Petro acusou os Estados Unidos de tratarem outras nações, particularmente na América Latina, como parte de um “império” americano, agindo “independentemente da lei”. Ele também fez duras críticas ao Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), comparando seus agentes a “brigadas nazistas”. Procurada pela BBC, a Casa Branca não comentou as declarações até o momento.

Ameaça real

Petro afirmou que a postura dos EUA corre o risco de transformar o país de uma potência que “domina o mundo” para uma que ficará “isolada do mundo”.

“O presidente Trump me disse na chamada que estava pensando em fazer coisas ruins na Colômbia. A mensagem era que já estavam preparando algo, planejando — uma operação militar”, revelou Petro ao jornal El País.

Após os ataques à Venezuela, Trump afirmou publicamente que uma operação militar na Colômbia “soa bem” e repetidamente disse a Petro para “cuidar do seu traseiro”. “Sinto que é uma ameaça real”, disse Petro à BBC, citando a perda histórica do Panamá no século XX como exemplo da vulnerabilidade colombiana. A perspectiva de remover essa ameaça, segundo ele, “depende das conversas em andamento”.

Críticas à política de imigração dos EUA

As tensões também se estendem à política doméstica americana. Petro criticou veementemente a expansão das operações do ICE sob o governo Trump, parte de uma campanha de combate à imigração irregular e ao crime. O governo Trump alega ter deportado 605.000 pessoas e afirma que 1,9 milhão de imigrantes “se autodeportaram voluntariamente” em 2025.

“O ICE chegou a um ponto em que já não apenas persegue latino-americanos nas ruas, o que para nós é uma afronta, mas também mata cidadãos dos EUA”, declarou Petro, em referência ao tiroteio fatal de uma cidadã americana por um agente do ICE em Minneapolis esta semana.

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Conciliação temporária

Apesar da retórica inflamada, os dois presidentes protagonizaram uma virada diplomática surpreendente na noite de quarta-feira (7), com uma conversa telefônica de quase uma hora. Após a ligação, Trump publicou em sua rede social que foi uma “grande honra” conversar com Petro e que eles se reunirão na Casa Branca em um “futuro próximo”. Um funcionário colombiano descreveu o diálogo como uma mudança de 180 graus na retórica “de ambos os lados”.

No entanto, o tom de Petro um dia depois sugere que o desentendimento fundamental permanece. Ele confirmou que falou a maior parte do tempo, abordando o tráfico de drogas e a visão colombiana sobre a Venezuela e as relações dos EUA com a América Latina.

“A questão venezuelana é sobre isso”, disse Petro, argumentando que se os EUA não tivessem abandonado o Acordo de Paris e sua dependência de petróleo e carvão, “não haveria guerras, haveria uma relação muito mais democrática e pacífica com o mundo”.

Como a Colômbia se defenderia?

Questionado sobre como seu país reagiria a um ataque militar americano, Petro afirmou preferir o diálogo, mas traçou um cenário de resistência popular.

“Não se trata de enfrentar um grande exército com armas que não temos. Nós nem sequer temos defesas antiaéreas. Em vez disso, contamos com as massas, com nossas montanhas e nossas selvas, como sempre fizemos”, disse ele, evocando a longa história de conflito interno da Colômbia.

Petro confirmou ter conversado com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, e a convidou para visitar a Colômbia. Ele também expressou preocupação com operações de inteligência estrangeiras na região, afirmando que a Venezuela “há muito tempo é alvo de interferência”. A captura de Maduro, que contou com um informante da CIA dentro de seu governo, elevou os temores em Bogotá.

O cerne da disputa: narcotráfico ou recursos naturais?

A relação conflituosa entre os líderes tem suas raízes na política de drogas e em acusações pessoais.

A bordo do Air Force One, Trump descreveu Petro como um “homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos EUA”, afirmando que ele “não vai continuar fazendo isso por muito tempo”. O governo Trump impôs sanções a Petro, sua esposa e seu filho, incluindo-os na chamada “lista Clinton” por supostos vínculos com o narcotráfico.

O presidente colombiano negou veementemente as acusações, afirmando que sua vida financeira é frugal e transparente e que luta contra os cartéis há 20 anos. Ele defende sua estratégia de “paz total”, que combina diálogo com grupos armados e ofensivas militares contra aqueles que se recusam a negociar, argumentando que isso visa “desescalar a violência”.

Paradoxalmente, enquanto os presidentes trocam acusações, a cooperação operacional antinarcóticos entre agências dos dois países permanece sólida. A Polícia Nacional da Colômbia e a DEA dos EUA mantêm uma relação de trabalho estreita, com recordes de apreensões de drogas.

Apesar do tom conciliatório da recente ligação telefônica, as declarações de Petro à BBC deixam claro que a crise diplomática está longe de ser resolvida. A sombra da intervenção americana na Venezuela paira sobre a região, e a retórica de confronto pode rapidamente substituir as promessas de diálogo, mantendo a América Latina em um estado de alerta elevado.

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