Dinamarca reage a impulsos expansionistas e expõe fissuras no jogo de poder global
Há momentos em que a história parece dar um passo atrás, como se insistisse em testar a memória coletiva. A recente tensão envolvendo a Groenlândia e os Estados Unidos soa exatamente assim. Um déjà-vu perigoso, embalado por discursos antigos, agora reciclados em timelines digitais e declarações públicas sem pudor. No centro desse episódio está Donald Trump — ou melhor, o trumpismo — e uma ideia que se recusa a morrer: a de que territórios podem ser cobiçados, pressionados e, quem sabe, incorporados.
Do outro lado do tabuleiro, a Dinamarca decidiu não sussurrar. Falou alto, claro e com firmeza. A primeira-ministra Mette Frederiksen assumiu a linha de frente e deixou explícito que soberania não entra em negociação, nem mesmo quando o interlocutor é um aliado histórico.
Quando aliados começam a falar línguas diferentes
À primeira vista, pode parecer exagero tratar um post em rede social como crise diplomática. No entanto, a política do século XXI já mostrou que símbolos importam — e muito. Foi assim que um simples mapa da Groenlândia com a bandeira dos Estados Unidos, acompanhado da legenda “em breve”, virou estopim de um mal-estar profundo.
A publicação, feita por Katie Miller, esposa de um conselheiro influente de Trump, não surgiu no vácuo. Pelo contrário. Ela dialoga diretamente com declarações anteriores do ex-presidente, que já afirmou, sem rodeios: “Precisamos da Groenlândia”. Quando palavras e imagens se encontram, a mensagem deixa de ser ambígua.
Assim, o alerta soou imediatamente no Ártico.
Leia também: O desejo expansionista de Trump sobre a Groenlândia
Nuuk responde antes que o silêncio vire consentimento
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, reagiu com rapidez e contundência. Ele não tratou o episódio como brincadeira ou ruído digital. Classificou a postagem como “desrespeitosa” e “totalmente inaceitável”. Mais do que isso, exigiu que Washington abandonasse de vez suas “fantasias de anexação”.
A fala carrega um peso político claro. A Groenlândia, embora faça parte do Reino da Dinamarca, possui ampla autonomia. Seu povo não é figurante em decisões estratégicas. Tem voz, história e direito à autodeterminação. Ignorar isso significa tratar habitantes reais como peças abstratas de um jogo geopolítico.
Copenhague endurece o tom e chama o debate pelo nome
Se Nuuk acendeu o sinal vermelho, Copenhague levantou a cancela. Em entrevista à revista The Atlantic, Mette Frederiksen foi direta, quase didática, como quem se recusa a normalizar o absurdo.
“Tenho que dizer isso muito diretamente aos Estados Unidos: não faz absolutamente nenhum sentido falar sobre a necessidade de os EUA assumirem o controle da Groenlândia… Portanto, eu exorto veementemente os EUA a cessarem as ameaças contra um aliado histórico”.
Não há rodeios na declaração. Frederiksen lembra que a Groenlândia integra o Reino da Dinamarca e, portanto, está sob o guarda-chuva da OTAN. Ao flertar com a ideia de controle ou anexação, os Estados Unidos não afrontam apenas um país aliado, mas também o próprio pacto militar que dizem liderar.
A velha desculpa da segurança reaparece no Ártico
Por trás do discurso expansionista, analistas identificam um argumento recorrente: o da chamada “defesa hemisférica”. Trump e seu entorno, incluindo o vice JD Vance, evocam essa lógica para justificar influência ampliada. O problema é que esse raciocínio ignora fronteiras políticas reais e interesses legítimos de outros países.
No caso da Groenlândia, o erro se duplica. Primeiro, porque a ilha é politicamente europeia. Segundo, porque a Dinamarca não negligenciou sua responsabilidade no Ártico. Recentemente, Copenhague anunciou investimentos superiores a US$ 4 bilhões em segurança regional. Ou seja, não se trata de vazio estratégico, mas de presença ativa.
Ainda assim, a retórica insiste em pintar o território como espaço disponível.
Cooperação não é sinônimo de posse
Os Estados Unidos já atuam militarmente na Groenlândia. Isso não é novidade. A diferença é que essa presença sempre se deu por meio de acordos bilaterais. Hoje, menos de 200 soldados americanos permanecem na região, número muito distante do auge da Guerra Fria, quando a base de Thule abrigava mais de 10 mil militares.
Esses acordos funcionam. Garantem cooperação e estabilidade. No entanto, para o trumpismo, parceria parece pouco. A ambição vai além do uso estratégico. Busca controle, domínio e autoridade final.
O embaixador dinamarquês em Washington, Jesper Møller Sørensen, reforçou o óbvio que precisou ser dito: a Dinamarca espera “total respeito pela integridade territorial”. O reino, lembrou ele, é soberano e indivisível, formado por Dinamarca, Groenlândia e Ilhas Faroé.
Quando a geopolítica ignora pessoas reais
No fim das contas, essa crise não gira apenas em torno de bases militares, rotas marítimas ou minerais raros. Ela expõe algo mais profundo: o desprezo crescente pelo Direito Internacional quando ele atrapalha ambições de potências.
Transformar a Groenlândia em ativo estratégico desconsidera seu povo, sua cultura e seu direito de decidir o próprio futuro. A reação firme de Frederiksen e Nielsen envia um recado necessário ao mundo: países menores não precisam aceitar o papel de figurantes.
Talvez o maior teste deste episódio seja simples e brutal. Saber se, em pleno século XXI, a soberania ainda vale mais do que o desejo dos mais fortes. O mundo observa. E a resposta importa.