Entre ameaças, petróleo e a Groenlândia, a diplomacia vira espetáculo
Não foi em um palanque nem no Salão Oval. Foi a bordo do Air Force One, acima das nuvens, que Donald Trump decidiu falar ao mundo — e falar duro. No trajeto entre Mar-a-Lago e Washington, o presidente dos Estados Unidos transformou o avião presidencial em tribuna geopolítica. O alvo principal foi a Venezuela. Mas, como de costume, sobrou para vizinhos e até para um território gelado do outro lado do Atlântico.
Em poucas frases, Trump deixou claro que a lógica segue a mesma: força primeiro, conversa depois. Ou talvez nem depois.
Após uma operação militar na Venezuela que deixou 80 mortos, entre civis e militares, Trump resolveu enviar um recado direto à nova líder interina do país, Delcy Rodriguez. Sem rodeios, afirmou: “nós é que temos o controle”. Foi além. Disse que os Estados Unidos têm acesso total ao petróleo venezuelano e ameaçou um novo ataque caso Caracas não se comporte “conforme solicitado”.
O tom contrasta, ainda que parcialmente, com a postura do secretário de Estado, Rubio, que havia questionado a legitimidade do governo de Rodriguez. Mesmo assim, a mensagem foi clara: a soberania venezuelana segue tratada como detalhe.
Do lado de Caracas, Delcy Rodriguez tentou baixar a temperatura. Convidou Washington a buscar uma relação mais conciliatória. Ainda assim, quando o império fala em controle, o diálogo costuma entrar mudo.
Maduro no tribunal e o apelo das ruas
Enquanto isso, longe do poder e longe do país, Nicolas Maduro vive outro capítulo dramático. Deposto e detido em Nova Iorque, ele e a esposa comparecem à Justiça dos EUA para responder a acusações de tráfico de drogas.
Em Caracas, o silêncio não foi absoluto. Em áudio divulgado nas redes, o filho do ex-presidente convocou a população. Disse: “eles querem nos fazer parecer fracos, mas não seremos”. O apelo tenta reacender a chama popular em um país exausto por sanções, crises e intervenções externas.
Ainda do avião, Trump ampliou o mapa das ameaças. Falou da Colômbia, que já reforçou tropas na fronteira venezuelana, e citou diretamente o presidente Gustavo Petro. Mencionou a possibilidade de uma ação militar “como na Venezuela”.
Sobre o México, o tom foi de cobrança. Trump afirmou: “temos que fazer algo”, criticando a recusa da presidente Claudia Sheinbaum em aceitar tropas norte-americanas para combater cartéis de drogas. A soberania, mais uma vez, apareceu como obstáculo, não como princípio.
Cuba também entrou na conversa. Trump declarou que o país caminha para um “colapso definitivo”, agora que não recebe mais petróleo venezuelano. Segundo ele, não seria necessária nenhuma operação militar. A crise, na visão da Casa Branca, se resolveria sozinha.
Já sobre o Irã, o alerta foi direto. Trump disse que os EUA estão “monitorando atentamente” os protestos contra o alto custo de vida. A ameaça veio embalada como promessa humanitária: se Teerã reprimir manifestações pacíficas, os Estados Unidos “virão em seu socorro”. A história recente mostra que esse tipo de socorro costuma custar caro.
Groenlândia: quando a geopolítica vira delírio colonial
Como se não bastasse, Trump voltou a falar da Groenlândia. Disse, sem hesitar: “precisamos dela por questões de segurança nacional”. Classificou a ilha como “extremamente estratégica”, alegando presença de navios russos e chineses.
Segundo ele, a Dinamarca não teria condições de garantir a segurança do território. Afirmou ainda que a União Europeia estaria ciente da “necessidade de um controle dos Estados Unidos sobre a ilha”.
A resposta foi imediata. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reagiu com firmeza: “chega de ameaças contra um aliado histórico”. Pesquisas indicam que a maioria dos groenlandeses quer independência da Dinamarca. Mas rejeita, de forma clara, qualquer ideia de anexação aos EUA.
O roteiro se repete. Trump fala em controle, segurança e interesse nacional. No entanto, o subtexto é antigo: poder, recursos e influência. A diferença é o palco. Agora, o mundo assiste em tempo real, sem filtros.
A pergunta que fica não é se essas ameaças terão consequência. É quantas vidas, mais uma vez, pagarão o preço quando a política externa vira espetáculo e o diálogo perde altitude.