Lula acena com nova pasta enquanto o Congresso empurra a PEC para a gaveta
Há movimentos em Brasília que não fazem barulho, mas mudam o ar. Nos corredores do poder, onde cochichos valem mais que discursos, cresce uma aposta que mistura cálculo político, urgência social e disputa de narrativa: a criação de um Ministério da Segurança Pública separado da Justiça. No centro dessa engrenagem, surge um nome conhecido — e estratégico — da Polícia Federal.
O presidente Lula já avisou ministros mais próximos que pretende dividir a atual superpasta ainda neste ano. Contudo, colocou uma condição clara sobre a mesa: a aprovação da PEC da Segurança Pública. O problema é simples e conhecido. O texto, de autoria do próprio Executivo, segue parado no Congresso, sem data, sem relator engajado e sem clima político favorável.
Ainda assim, o governo se mexe. E se mexe porque sabe que segurança pública deixou de ser tema apenas da direita. Hoje, é uma angústia diária da população trabalhadora, especialmente nas periferias.
Um nome que circula com força nos bastidores
Entre secretários do Ministério da Justiça, o nome de Andrei Rodrigues aparece com frequência. Sempre em tom reservado, mas com convicção. Diretor-geral da Polícia Federal, ele ganhou prestígio interno após ações contra o crime organizado no último ano. Além disso, construiu algo raro em Brasília: confiança política e técnica ao mesmo tempo.
Andrei não é um estranho ao presidente. Pelo contrário. Foi chefe da segurança de Lula durante a campanha vitoriosa de 2022. Antes disso, ocupou cargos de liderança na Olimpíada do Rio de Janeiro. Soma currículo, lealdade e trânsito em uma ala influente do PT. Em política, essa combinação costuma pesar mais que discursos inflamados.
Se o novo ministério sair do papel, a PF também mudaria de comando. Nesse cenário, o delegado William Murad, atual número dois da corporação, assumiria a direção-geral. Uma troca calculada, sem rupturas bruscas.
Segurança pública como bandeira eleitoral
Nada disso acontece por acaso. Lula sabe que 2026 começou mais cedo. A violência urbana, explorada à exaustão por discursos punitivistas no passado, hoje exige respostas concretas. Criar uma pasta exclusiva para segurança pública funcionaria como símbolo e sinal político. Mostraria prioridade, foco e ação.
Ao mesmo tempo, o governo tenta escapar da armadilha do encarceramento em massa. A ideia não é repetir fórmulas falidas, mas organizar dados, integrar sistemas e melhorar a investigação. É aí que a experiência da PF entra como trunfo.
Separar Justiça de Segurança também atende a uma lógica administrativa. Uma pasta cuida de leis, direitos e garantias. A outra enfrenta o crime organizado, as facções e o tráfico de armas. Em tese, cada uma faria melhor o seu trabalho.
A saída de Lewandowski e o gesto final
Enquanto o debate ferve, uma despedida acelera o clima de transição. Nesta segunda-feira (5), Ricardo Lewandowski comunicou aos secretários que deixará o comando do ministério ainda nesta semana. Antes de sair, assinou duas portarias importantes.
A primeira cria um protocolo nacional de reconhecimento de presos. A segunda institui um sistema unificado de informações de antecedentes criminais. Ambas eram demandas antigas e apareciam no texto da PEC da Segurança. Sem a PEC, vieram por portaria.
Lewandowski quer sair com a “sensação de dever cumprido”. As medidas já estão em vigor. De forma interina, Manoel Almeida, atual secretário-executivo, deve assumir até a escolha de um substituto definitivo.
Entre o Congresso travado e a rua inquieta
O governo corre contra o tempo. De um lado, enfrenta um Congresso resistente a mudanças estruturais. Do outro, encara uma população cansada da violência cotidiana. A possível nomeação de Andrei Rodrigues simboliza essa encruzilhada: técnica policial aliada a projeto político.
Resta saber se a PEC sairá da gaveta ou se a segurança pública continuará refém de disputas eleitorais. Enquanto isso, Brasília cochicha. E, como quase sempre, os cochichos anunciam tempestade.


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