Suíça testa painéis solares entre trilhos de trem em projeto pioneiro com alcance global

A startup Sun-Ways instalou painéis solares entre os trilhos de uma linha férrea perto de Buttes, no oeste da Suíça. Keystone / Jean-Christophe Bott

Enquanto esperava um trem em Renens, perto de Lausanne, em 2020, Joseph Scuderi teve uma ideia simples, mas transformadora: por que não aproveitar o espaço vazio entre os trilhos ferroviários para gerar energia solar? Cinco anos depois, sua startup Sun-Ways concretizou esse conceito com a instalação de 100 metros de painéis solares removíveis nos trilhos da pequena vila de Buttes, no cantão de Neuchâtel, na Suíça ocidental.

O projeto, inaugurado em 24 de abril de 2025 sob uma leve chuva, representa mais do que uma curiosidade tecnológica: é o primeiro sistema do mundo capaz de instalar e remover painéis fotovoltaicos rapidamente em linhas férreas ativas, sem interromper o tráfego de trens. “Instalamos os painéis como se estivéssemos colocando em um telhado”, diz Scuderi. “Chegar até aqui foi quase um milagre.”

Tecnologia inovadora com foco em manutenção e escalabilidade

Os 48 módulos solares do trecho-piloto foram fixados diretamente sobre os dormentes — as peças que sustentam os trilhos — e podem ser colocados manualmente ou por uma máquina desenvolvida pela empresa suíça Scheuchzer, especializada em manutenção ferroviária. Esse equipamento é capaz de instalar ou remover quase 1.000 m² de painéis em poucas horas, garantindo agilidade em caso de reparos na via.

Além disso, a limpeza dos painéis é feita de forma inteligente: escovas cilíndricas fixadas na traseira dos trens passam sobre os módulos durante as viagens regulares, evitando acúmulo de poeira e mantendo a eficiência energética.

A eletricidade gerada — cerca de 16.000 kWh por ano — é injetada na rede local, suficiente para abastecer de quatro a seis residências. Mas o potencial vai muito além: segundo a Sun-Ways, dos 5.320 km da malha ferroviária suíça, mesmo descontando túneis e trechos sombreados, seria possível gerar 1 bilhão de kWh anuais, o equivalente ao consumo de 300 mil lares — ou 2% da demanda total de eletricidade do país.

Apoio institucional e cautela regulatória

O projeto contou com financiamento de 585 mil francos suíços (cerca de US$ 705 mil), apoiado pela Agência Suíça de Promoção à Inovação (Innosuisse) e uma rede de uma dezena de parceiros industriais. A iniciativa também recebeu o aval do Escritório Federal de Transportes (FOT), embora com ressalvas.

Como os trens em Buttes circulam a no máximo 70 km/h, o FOT autorizou o teste — mas exigiu que a fase experimental dure três anos, bem mais do que os seis meses inicialmente propostos pela startup. “É essencial observar o sistema em todas as estações e condições reais”, explica Florence Pictet, porta-voz do órgão. “Precisamos entender o impacto a longo prazo na infraestrutura ferroviária, especialmente em termos de desgaste e manutenção.”

Apesar da cautela, o FOT reconhece o valor da inovação: “É positivo que empresas de transporte público estejam explorando formas de produzir energia renovável em seus próprios ativos.”

Interesse internacional cresce

A abordagem da Sun-Ways já atrai atenção global. A startup está em negociações com parceiros na Coreia do Sul, Espanha, Romênia, China e Estados Unidos. Na Coreia, onde a rede ferroviária tem cerca de 6.600 km, o CEO da KRSPGPC, Taebon Park, esteve presente na inauguração em Buttes e planeja lançar um piloto ainda em 2025. “Escolhemos a Sun-Ways por sua tecnologia avançada, compatível com operações ferroviárias reais”, afirmou.

No Japão, o Ministério da Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo (MLIT) monitora o projeto de perto, embora ainda busque respostas sobre segurança operacional. Já na Indonésia, a empresa Mutitron Automa pretende implementar a solução primeiro em Bogor, na ilha de Java, com expansão futura para toda a região.

Desafios e debates técnicos

Nem todos os especialistas concordam com a estratégia de painéis removíveis. Martin Heinrich, pesquisador do Instituto Fraunhofer de Sistemas de Energia Solar — o maior centro europeu de pesquisa em fotovoltaica — elogia a ideia de usar infraestrutura existente, mas questiona a necessidade de remoção frequente. “Módulos solares devem durar 20 a 30 anos sem intervenção. Cada remoção aumenta custos e riscos de danos”, argumenta.

Ainda assim, ele reconhece o mérito do conceito: “Explorar áreas urbanas e infraestruturas, em vez de ocupar novos terrenos naturais, é essencial para uma transição energética sustentável.”

Um futuro sobre trilhos

Com a Suíça precisando multiplicar por sete sua produção solar até 2035 para cumprir suas metas climáticas, soluções como a da Sun-Ways ganham relevância estratégica. Ao transformar ferrovias — símbolo da mobilidade do século XIX — em usinas de energia limpa do século XXI, o projeto de Scuderi pode inspirar uma nova era de infraestrutura multifuncional.

Nos próximos três anos, o mundo observará se trilhos e painéis solares podem coexistir com segurança, eficiência e rentabilidade. Se a resposta for sim, aquela ideia nascida em uma plataforma de trem poderá, de fato, revolucionar a forma como produzimos energia solar — sem precisar de um único metro quadrado novo de terra.

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