MPF aponta vínculos obscuros com crime organizado em fundos ligados a fraude bilionária no Master

O Ministério Público Federal (MPF) encaminhou ao Banco Central (BC) uma denúncia que atribui a quatro fundos de investimento investigados ligações com o crime organizado. A comunicação integra o inquérito que apura um esquema de fraudes financeiras estimadas em até R$ 12 bilhões envolvendo o Banco Master, instituição que teve sua liquidação extrajudicial decretada em novembro.

As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (9) pelo G1. Segundo a apuração, os fundos citados fariam parte de uma cadeia complexa de transações estruturadas, utilizada para inflar artificialmente ativos financeiros e permitir que os recursos retornassem, direta ou indiretamente, ao controle do proprietário do banco, Daniel Vorcaro, e de diretores da instituição.

De acordo com o material analisado pelo MPF e por técnicos do Banco Central, o esquema teria como objetivo criar uma aparência de solidez financeira do Banco Master nos meses que antecederam sua liquidação. Para isso, os fundos teriam sido utilizados para simular aportes de capital, sugerindo que a instituição possuía recursos suficientes para manter suas operações regulares.

Na prática, porém, os valores registrados nessas operações estariam lastreados em ativos de baixa liquidez e com preços artificialmente elevados. Investigadores explicam que, em alguns casos, títulos avaliados internamente em valores muito superiores ao de mercado eram usados para compor o patrimônio do banco, mascarando sua real situação financeira.

Um exemplo citado por técnicos envolvidos na investigação ilustra o mecanismo: um ativo com valor real estimado em R$ 100 poderia ser negociado dentro da estrutura por R$ 1.000, elevando de forma fictícia o patrimônio contabilizado. Esse tipo de operação, segundo o Banco Central, distorce balanços e compromete a transparência exigida das instituições financeiras reguladas.

O Banco Central informou ao MPF que as operações suspeitas envolvem fundos administrados pela Reag DTVM, empresa do setor financeiro que já havia sido alvo da Operação Carbono Oculto. Essa operação foi deflagrada para investigar esquemas de lavagem de dinheiro ligados à máfia dos combustíveis e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a denúncia, a possível conexão entre os fundos e organizações criminosas reforça a gravidade do caso e amplia o alcance das investigações, que deixaram de se restringir a irregularidades administrativas ou contábeis e passaram a considerar a hipótese de crimes financeiros associados ao crime organizado.

A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro, atingindo tanto o Banco Master S/A quanto o Banco Master de Investimento S/A. A decisão foi fundamentada nas fraudes identificadas no âmbito da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, e também na rejeição, pelo próprio BC, da proposta de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).

Na avaliação do regulador, as irregularidades comprometeram de forma irreversível a situação econômico-financeira do banco, colocando em risco clientes, investidores e a estabilidade do sistema financeiro. O BC apontou ainda falhas graves de governança, insuficiência de capital e uso de estruturas financeiras para ocultar prejuízos e distorcer a real condição da instituição.

Com a liquidação, as atividades do Banco Master foram interrompidas, e um liquidante foi nomeado para conduzir o processo de apuração de ativos e passivos, além de colaborar com as autoridades nas investigações em curso. Paralelamente, o MPF e a Polícia Federal seguem colhendo depoimentos, analisando documentos e rastreando fluxos financeiros para identificar responsabilidades individuais e eventuais crimes conexos.

A defesa de Daniel Vorcaro e dos demais investigados tem negado irregularidades e afirma que as operações realizadas pelo banco e pelos fundos seguiram práticas de mercado. Os advogados sustentam que não houve intenção de fraude e que eventuais divergências decorrem de interpretações técnicas sobre a avaliação de ativos. As autoridades, por sua vez, afirmam que os indícios reunidos até o momento apontam para um esquema estruturado e reiterado, voltado a enganar reguladores e investidores.

O caso do Banco Master tornou-se um dos episódios mais relevantes recentes do sistema financeiro brasileiro, tanto pelo volume de recursos envolvidos quanto pelas suspeitas de conexão com organizações criminosas. Especialistas avaliam que o desfecho das investigações poderá ter impacto significativo sobre a regulação de fundos de investimento, a supervisão bancária e os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

Enquanto as apurações avançam, o Banco Central e o Ministério Público Federal reforçam que a prioridade é preservar a integridade do sistema financeiro nacional, responsabilizar eventuais envolvidos e evitar que estruturas semelhantes voltem a ser utilizadas para fraudes de grande escala.

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