Vestir o frio: como o inverno na China muda o armário, o corpo e a política

O segredo do frio chinês: por que Beijing enfrenta o inverno com casacos pesados e aquecimento estatal, enquanto Shanghai acumula camadas para um frio que invade casas e muda o estilo de vida / Reprodução

Iara Vidal mostra como o inverno na China transforma não só o armário, mas o corpo e as políticas públicas

O inverno na China não é vivido da mesma forma em todo o país. Entre Beijing, no norte, e Shanghai, no sul, a diferença não está apenas na temperatura registrada no termômetro, mas na maneira como o frio se infiltra — ou não — no cotidiano: na rua, dentro de casa, no trabalho e no próprio corpo. E isso tem impacto direto no modo de vestir, no conforto diário e nas escolhas políticas que moldam a vida urbana.

Beijing: frio público, calor coletivo

Beijing, capital chinesa no norte do país — e onde eu moro — enfrenta um inverno intenso. Entre dezembro e fevereiro, as temperaturas variam de –10 °C a 5 °C, com vento frequente e ar seco. Para uma brasileira vinda de Brasília, onde o inverno também é seco, mas muito mais ameno, o impacto inicial é grande.

O que muda tudo, no entanto, é o aquecimento central. Em Beijing, casas, escritórios, metrôs e prédios públicos funcionam com calor coletivo. Isso define completamente a lógica do vestir: você se agasalha para enfrentar o frio do lado de fora, não para os ambientes internos.

O armário básico de inverno gira em torno de um casaco pesado — puffer longo, parka ou lã grossa — combinado com segunda pele térmica fina, um suéter leve ou fleece, calça de bom tecido, botas fechadas e acessórios como gorro, cachecol e luvas. Entrou no prédio? O casaco sai. O look “normal” aparece. Aqui, o casaco é a estrela do inverno; o que vai por baixo chega a parecer primavera.

Shanghai: frio doméstico, camadas permanentes

No sul, a experiência é outra. Em Shanghai, as temperaturas de inverno ficam entre 2 °C e 10 °C, mas a alta umidade faz o frio parecer muito mais intenso do que os números sugerem. E há um fator decisivo: não existe aquecimento central estatal.

O frio não fica do lado de fora — ele acompanha você o dia inteiro. Casas e escritórios são frios, muitas vezes gelados. Por isso, a estratégia muda completamente. Em Shanghai, a regra é vestir-se para dentro e para fora ao mesmo tempo.

O armário inclui segunda pele térmica constante, suéteres médios a grossos, casaco de lã ou trench pesado, calças grossas ou forradas, meias térmicas e calçados impermeáveis. Mesmo em ambientes internos, o casaco costuma permanecer. O conforto vem do acúmulo de camadas, não da retirada.

Estilo também é política térmica

Essa diferença diz muito mais do que parece. Em Beijing, o frio é público e o calor é coletivo. Em Shanghai, o frio é doméstico, íntimo e persistente. Isso muda o humor, o ritmo da vida — e o estilo.

No norte, o inverno favorece silhuetas mais limpas, casacos estruturados e visual funcional. A moda aparece sobretudo na peça externa. No sul, há mais camadas visíveis, mistura de tecidos e um estilo mais urbano e fashion, em que o conjunto inteiro comunica inverno.

No fundo, é quase uma equação política do vestir: no norte, o Estado aquece e o indivíduo se protege do frio externo; no sul, o Estado não aquece — e o corpo carrega o inverno.

A Linha Qinling-Huaihe: a fronteira invisível do frio

Essa diferença tem nome e história. A China é cortada por uma linha imaginária chamada Linha Qinling-Huaihe, formada pelo rio Huai e pela cordilheira de Qinling. Ela separa oficialmente o norte e o sul do país e funciona, até hoje, como fronteira climática e administrativa.

Ao norte da linha, o inverno é mais seco e rigoroso; ao sul, mais úmido e aparentemente mais ameno. Beijing fica ao norte dessa fronteira; Shanghai, ao sul. É essa linha que define onde o Estado garante aquecimento central — e onde não.

Uma decisão histórica que virou política pública

A origem dessa divisão remonta aos primeiros anos da República Popular da China, após 1949, sob a liderança de Mao Zedong (1893–1976). Com poucos recursos para reconstruir um país vasto e desigual, o novo Estado fez uma escolha pragmática: garantir aquecimento coletivo apenas nas regiões onde o frio era considerado extremo.

A Linha Qinling-Huaihe virou critério administrativo. Uma decisão técnica e econômica acabou moldando, por décadas, a experiência cotidiana de milhões de pessoas.

Conforto, carvão e problema

Essa política teve efeitos duradouros. No norte, ambientes internos aquecidos mesmo sob temperaturas extremas; no sul, casas frias e úmidas durante o inverno. Estudos indicam que a poluição gerada pelo aquecimento urbano baseado em carvão impactou a saúde dos moradores ao norte da Linha Qinling-Huaihe. O conforto térmico estatal teve um custo ambiental e corporal.

Transição energética e o inverno na China hoje

Esse modelo começou a ser tensionado a partir da década de 2010. Sob a liderança de Xi Jinping, a China passou a tratar o aquecimento urbano como questão ambiental estratégica, ligada à saúde pública e ao futuro climático.

A partir de 2013, com o Plano de Ação para Controle da Poluição do Ar, cidades como Beijing fecharam usinas a carvão, ampliaram o uso de gás e eletricidade, modernizaram sistemas de aquecimento e reduziram drasticamente o smog. Em 2018, o conceito de “Bela China” entrou na Constituição; em 2020, vieram as metas de pico de emissões antes de 2030 e neutralidade de carbono até 2060.

No sul, onde não há aquecimento central estatal, políticas de eficiência energética começaram a influenciar padrões de construção e isolamento térmico, buscando reduzir a desigualdade térmica doméstica.

A Linha Qinling-Huaihe não desapareceu, mas deixou de ser intocável. Ela passou a ser tensionada pela transição energética.

Mais do que clima

A Linha Qinling-Huaihe não separa apenas climas. Ela separa modos de viver o inverno. Onde o frio fica do lado de fora — e onde ele entra em casa.

Com a transição energética, essa experiência começa a mudar — e isso aparece no armário. No norte, aquecimento mais limpo e controlado. No sul, avanços graduais no conforto doméstico.

O resultado é concreto: menos improviso, mais planejamento. Menos excesso de roupa sem função, mais peças pensadas para funcionar. O armário de inverno passa a refletir não só o clima, mas escolhas energéticas e ambientais.

Moda não é detalhe. Ela mostra, no corpo e no cotidiano, como políticas públicas viram experiência vivida — e como até o jeito de enfrentar o frio muda quando o país muda.


Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: GGTN

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