Exclusivo! Soja brasileira já representa 61% das exportações mundiais

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Em 2025, o Brasil exportou US$ 52,89 bilhões (R$ 284,56 bilhões) em produtos do complexo soja, consolidando a oleaginosa como o principal produto da pauta exportadora nacional.

Os dados são do Comexstat, o banco de dados sobre comércio exterior do governo federal, que é atualizado todo dia 5 ou 6 do mês.

Esse valor supera as exportações de petróleo bruto (US$ 44,67 bilhões), minério de ferro (US$ 28,96 bilhões), carnes bovinas (US$ 20,44 bilhões), café (US$ 14,86 bilhões) e açúcar (US$ 14,10 bilhões).

A soja tornou-se um dos eixos estruturais da economia brasileira.

O complexo soja compreende três categorias principais: o grão, o farelo resultante do esmagamento e o óleo vegetal. Em 2025, a soja em grão respondeu por US$ 43,53 bilhões (R$ 234,20 bilhões), valor que supera individualmente o petróleo bruto e faz do grão o principal item de toda a pauta exportadora brasileira. O farelo somou US$ 7,91 bilhões (R$ 42,58 bilhões), enquanto o óleo de soja alcançou US$ 1,45 bilhão (R$ 7,79 bilhões).

No conjunto, o complexo soja representou 15,17% de todas as exportações brasileiras em 2025, num total de US$ 348,68 bilhões. Comparado a 2024, quando o complexo havia somado US$ 53,94 bilhões, o resultado representa queda de 1,9%, mas mantém o patamar elevado conquistado na última década.

Dez anos antes, em 2015, as exportações do complexo totalizavam US$ 27,96 bilhões (R$ 150,41 bilhões). Entre 2015 e 2025, o valor praticamente dobrou, com acréscimo de US$ 24,94 bilhões (R$ 134,15 bilhões), refletindo ganhos de área, produtividade, integração logística e penetração nos mercados asiáticos.

No cenário internacional, a produção de soja está fortemente concentrada. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a safra mundial de 2025/2026 deve alcançar 425,7 milhões de toneladas. O Brasil lidera com 178 milhões de toneladas (41,8% do total), seguido pelos Estados Unidos com 116 milhões (27,2%) e pela Argentina com 48,5 milhões (11,4%). Juntos, os três países produzem 80,5% de toda a soja do planeta.

A China, maior consumidora mundial, produz apenas 20,9 milhões de toneladas (4,9% do total global). Essa produção cobre menos de 20% do consumo interno chinês, que ultrapassa 110 milhões de toneladas anuais.

A liderança brasileira nas exportações é ainda mais pronunciada. O país deve embarcar 114 milhões de toneladas na safra 2025/2026, o que corresponde a 60,8% de todas as exportações mundiais do grão. Os Estados Unidos respondem por 22,9% e a Argentina por apenas 4,4%.

Nos doze meses encerrados em novembro de 2025, o Brasil respondeu por 70,8% de todas as importações chinesas de soja, seguido pelos Estados Unidos (19,4%) e Argentina (5,8%). A variação ao longo do ano reflete a sazonalidade das safras: a soja brasileira é colhida entre fevereiro e maio, e o Brasil domina as exportações para a China de abril a novembro; a safra americana é colhida entre setembro e novembro, e os Estados Unidos concentram suas vendas de dezembro a março.

A dependência chinesa é estrutural. O país responde por 60,2% de todas as importações mundiais de soja e processa 108 milhões de toneladas por ano (29,5% do esmagamento global). A China não tem alternativas: só Brasil e Estados Unidos possuem escala para abastecê-la. A Argentina exporta, mas seus 8 milhões de toneladas anuais não substituem nenhum dos dois. Na prática, nem mesmo os Estados Unidos conseguiriam substituir o Brasil — descontado o consumo interno, a produção exportável americana é de 46 milhões de toneladas, menos de 40% dos 118 milhões de toneladas que o Brasil tem disponíveis para exportação.

A China tem feito investimentos na África em busca de diversificar seu fornecimento de soja. Mas a escala necessária, o expertise científico, a quantidade de terra agricultável com topografia adequada, a tecnologia de produção, o controle de qualidade, a infraestrutura logística de transporte interno, a capacidade portuária e a rapidez na entrega — tudo isso a África ainda está desenvolvendo. Como se trata de segurança alimentar, a China precisa de garantias. Por enquanto, só o Brasil oferece essa segurança.

A soja é, portanto, um produto absolutamente estratégico na relação Brasil-China. Trata-se de um insumo essencial para a segurança alimentar chinesa. A China pode substituir o petróleo importado por energia solar, eólica, carvão ou nuclear — e já está fazendo isso. Mas a soja não tem substituto. Os chineses tentam aumentar a produção local, porém não conseguem alcançar a produtividade brasileira nem dispõem de terras agricultáveis suficientes.

A magnitude dessas trocas revela que Brasil e China se tornaram interdependentes de maneira profunda — um pacto de vida ou morte selado pela soja. Essa realidade deveria interessar aos estrategistas que pensam a reindustrialização brasileira. A China é hoje a maior potência industrial do mundo, líder em robôs industriais, e avança rapidamente em semicondutores e inteligência artificial. A soja brasileira, essencial para a segurança alimentar chinesa, abre a possibilidade de acordos de transferência tecnológica que poderiam transformar a estrutura produtiva do Brasil.

Essa dependência também cria oportunidades que o Brasil ainda não explorou. O setor sojicultor e o governo brasileiro poderiam estabelecer centros de intercâmbio cultural e científico com a China, fortalecendo uma relação que, até agora, limita-se à dimensão comercial.

A base física da liderança brasileira está na escala territorial. Segundo a Conab, a área plantada com soja deve alcançar 48,67 milhões de hectares na safra 2025/2026, com produção de 176,1 milhões de toneladas — novo recorde. Essa área equivale a mais de dez vezes o território do Espírito Santo e representa mais que o dobro da área do milho, segunda maior cultura do país, que ocupa 22,71 milhões de hectares.

Do ponto de vista nutricional, o grão de soja apresenta entre 38% e 40% de proteína bruta em base seca, muito acima do milho (8% a 9%), do trigo (12% a 14%) e do arroz (7% a 8%).

Segundo estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition, a soja produz a maior quantidade de proteína por hectare entre todas as grandes culturas agrícolas do mundo. Os números são eloquentes: enquanto a soja entrega cerca de 1.235 kg de proteína por hectare ao ano, o trigo produz 432 kg, o feijão 494 kg e a ervilha 519 kg. A pecuária bovina extensiva, por sua vez, gera apenas 20 kg de proteína por hectare — mais de 60 vezes menos que a soja.

Cerca de 70% a 75% do farelo de soja produzido globalmente alimenta aves e suínos. A maior parte da proteína animal consumida no mundo passa, direta ou indiretamente, pela soja.

Do ponto de vista ambiental, a soja fixa nitrogênio da atmosfera, reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos — que são fontes importantes de gases de efeito estufa. Isso não isenta a cultura de impactos negativos: sua expansão, especialmente no Cerrado, está associada a desmatamento, pressão hídrica e perda de biodiversidade.

Mantidos os preços internacionais e considerando a produção recorde de 2026, as exportações brasileiras do complexo soja este ano devem permanecer na faixa de US$ 50 bilhões a US$ 55 bilhões.

  • Nota metodológica: Os valores em reais foram calculados com base na cotação do dólar de R$ 5,38, vigente em 16 de janeiro de 2026.

    Fontes: ComexStat/MDIC (exportações), Conab (produção e área), USDA (panorama global). Dados de proteína por hectare: Messina, M. “Perspective: Soybeans Can Help Address the Caloric and Protein Needs of a Growing Global Population”, Frontiers in Nutrition, 2022; Faunalytics, “Alternative Protein Production”, 2023.*

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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