O debate sobre a redução da dependência do dólar no comércio internacional ganhou novo impulso no âmbito do BRICS, bloco que reúne Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul e países recentemente incorporados. As discussões envolvem propostas de sistemas de pagamento alternativos, críticas ao modelo do petrodólar e análises sobre o papel do ouro, do yuan e de tecnologias como blockchain, em um contexto de queda da participação da moeda norte-americana nas reservas globais.
As avaliações foram apresentadas pelo jornalista Pepe Escobar em artigo publicado no portal Brasil 247, no qual analisa o atual cenário financeiro internacional como um movimento estrutural que desafia a hegemonia do dólar. Segundo o autor, o processo não se limita a ajustes técnicos, mas reflete mudanças geopolíticas e econômicas em curso, impulsionadas por tensões entre grandes potências e pelo uso de instrumentos financeiros como ferramenta de pressão política.
De acordo com Escobar, o petrodólar constitui um dos pilares centrais da ordem econômica liderada pelos Estados Unidos desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Nesse modelo, o comércio internacional de energia é majoritariamente precificado em dólares, o que sustenta a demanda global pela moeda e por títulos do Tesouro norte-americano, permitindo a manutenção de déficits elevados. Conforme o articulista, tentativas de romper esse circuito historicamente resultaram em sanções, congelamento de ativos ou exclusão de sistemas de pagamento dominantes.
Segundo o jornalista, esse arranjo enfrenta atualmente limitações crescentes. A combinação de gastos militares elevados e a necessidade de manter o controle do sistema financeiro internacional impõe custos cada vez mais difíceis de sustentar. Escobar cita propostas de orçamentos trilionários para a área de defesa nos Estados Unidos como exemplo da pressão exercida sobre a própria estabilidade do sistema.
Um ponto de inflexão citado no artigo é o congelamento de reservas russas no exterior após o início da guerra na Ucrânia. Para Escobar, a exclusão da Rússia do sistema SWIFT evidenciou para diversos países que reservas denominadas em dólar podem se tornar vulneráveis em cenários de tensão geopolítica. A reação, segundo ele, incluiu o aumento da compra de ouro por bancos centrais, a ampliação de acordos bilaterais em moedas locais e o interesse crescente por sistemas de pagamento alternativos.
No texto, o jornalista afirma que o objetivo dessas iniciativas não seria substituir abruptamente a ordem vigente, mas criar caminhos paralelos capazes de reduzir riscos. Nesse contexto, o BRICS aparece como um espaço de coordenação dessas propostas, especialmente entre países do chamado Sul Global. Escobar descreve o bloco como um “laboratório” de testes financeiros, no qual diferentes modelos são avaliados para viabilizar o comércio internacional sem a intermediação do dólar.
Entre as propostas mencionadas está a criação de uma unidade de conta não soberana, baseada em blockchain, conhecida como Unidade. Segundo Escobar, o instrumento não teria caráter de moeda tradicional, mas funcionaria como mecanismo de liquidação comercial, inspirado em modelos como os Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional, porém restrito ao ecossistema do BRICS. A Unidade poderia ser lastreada em uma cesta de commodities ou moedas, com o objetivo de reduzir a influência de um único país.
O artigo também cita o mBridge, projeto de moeda digital compartilhada entre bancos centrais, liderado por instituições asiáticas, que teria inspirado o chamado BRICS Bridge. Conforme a análise, o objetivo é permitir transações diretas entre moedas nacionais, sem a necessidade de conversão prévia em dólares. Outro eixo mencionado é o BRICS Pay, descrito como uma infraestrutura de pagamentos voltada inicialmente para transações de menor valor, como turismo e operações cotidianas, embora ainda existam desafios para sua aplicação em grandes volumes financeiros.
Escobar argumenta que o contexto atual favorece essas iniciativas. Segundo ele, a participação do dólar nas reservas cambiais globais teria caído para menos de 40%, o menor nível em pelo menos duas décadas. O ouro, de acordo com a análise, teria superado moedas como euro, iene e libra esterlina quando consideradas em conjunto. Para o jornalista, esses dados reforçam a percepção de que o sistema financeiro internacional perdeu neutralidade e passou a ser visto como instrumento de pressão política.
O texto também recorre às análises do economista Michael Hudson, que defende a ampliação do uso do yuan e do sistema chinês de pagamentos internacionais, o CIPS, como caminhos de menor resistência. Segundo Escobar, o CIPS já opera em mais de uma centena de países, o que lhe confere alcance prático. Hudson, no entanto, avalia que uma nova instituição internacional, inspirada no Bancor proposto por John Maynard Keynes em 1944, poderia oferecer maior equilíbrio no longo prazo.
Outra proposta citada é a do economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento. De acordo com Escobar, Batista Jr. defende a criação de uma nova moeda internacional restrita a transações externas, lastreada em uma cesta ponderada das moedas dos países participantes, com pesos definidos pelo PIB em paridade de poder de compra. O autor observa que o peso da economia chinesa seria determinante para a credibilidade do arranjo.
Por fim, Escobar destaca que os próprios defensores dessas alternativas reconhecem o risco de retaliações por parte do Ocidente, incluindo sanções e pressões diplomáticas. Ainda assim, segundo o jornalista, o custo de não agir tende a aumentar à medida que a ordem financeira atual se torna mais instável. O BRICS, conclui o texto, chega às próximas cúpulas anuais diante de um cenário que pode representar uma inflexão no sistema financeiro internacional, dependendo da capacidade de coordenação política e econômica entre seus membros.