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Os vassalos estão irritados

O discurso de Emmanuel Macron em Davos, hoje, 20 de janeiro de 2026, expõe a tensão central da política europeia atual: um diagnóstico lúcido da crise global acompanhado de uma prescrição ainda presa aos vícios do passado. Macron começa denunciando um mundo de instabilidade, onde “a lei do mais forte” parece prevalecer e a “brutalização” […]

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O presidente francês Emmanuel Macron participa da 56ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, Suíça, em 20 de janeiro de 2026. REUTERS/Denis Balibouse.

O discurso de Emmanuel Macron em Davos, hoje, 20 de janeiro de 2026, expõe a tensão central da política europeia atual: um diagnóstico lúcido da crise global acompanhado de uma prescrição ainda presa aos vícios do passado.

Macron começa denunciando um mundo de instabilidade, onde “a lei do mais forte” parece prevalecer e a “brutalização” se normaliza.

No entanto, sua aplicação desses princípios é imediatamente seletiva.

Condena com veemência a guerra russa na Ucrânia, mas silencia sobre o genocídio em Gaza, o sequestro de Maduro ou os bombardeios no Iêmen. Para a liderança europeia, a violência só é inaceitável quando atinge seu próprio continente.

Economicamente, o discurso é marcado por um duplo padrão revelador. Macron atribui os desequilíbrios globais ao “superconsumo americano”, ao “subconsumo e superinvestimento chinês” e à falta de competitividade europeia.

A linguagem usada para descrever esses fenômenos, porém, não é neutra. A produtividade norte-americana é um dado de realidade, ainda que criticável; já o avanço industrial chinês é sistematicamente qualificado como “superprodução” distorciva e alimentada por “capacidades excessivas massivas”.

Há aqui um viés protecionista que se disfarça de tecnicismo: a alta produtividade é legítima quando vem do Ocidente, mas se torna uma ameaça “desleal” quando vem da China. A incoerência atinge o ápice quando, após essa crítica, Macron estende uma mão interesseira: “A China é bem-vinda”, diz ele, para em seguida exigir que Pequim direcione investimentos e tecnologia para a Europa.

É a fórmula clássica do cinismo geopolítico: demoniza-se o outro em público e, em seguida, espera-se que ele venha resgatar o próprio crescimento.

Essa postura ignora as escolhas estruturais que minaram a competitividade europeia, como a ruptura com o gás russo barato — uma medida geopolítica que onerou sua indústria em benefício de fornecedores norte-americanos. Enquanto isso, a China, que mantém laços energéticos com a Rússia, preserva uma vantagem de custo que a Europa voluntariamente abriu mão.

Neste ponto, porém, surge um mérito no discurso de Macron. Pela primeira vez, um líder europeu de seu escalão critica abertamente a lógica dos blocos, alertando contra “aceitar passivamente a lei do mais forte, levando à vassalização e à política de blocos”.

É um reconhecimento tardio, mas crucial, de que a estratégia de dividir o mundo entre aliados e adversários serve apenas aos interesses do hegemon — no caso, os Estados Unidos. Esta é uma evolução conceitual importante, um alinhamento retórico com a visão de um mundo multipolar e interdependente.

No entanto, essa percepção é imediatamente negada pela prática do próprio Macron. Seu discurso continua a depender da vilificação da Rússia e da China, alimentando justamente a narrativa de inimigo que sustenta a lógica bipolar que ele diz rejeitar.

Esse paradoxo foi personificado no episódio constrangedor da carta que escreveu a Donald Trump, bajulando suas guerras no Oriente Médio na esperança de obter concessões. Uma subserviência privada que desmente qualquer postura soberana em público.

A Europa, como mostra Macron, consegue diagnosticar a doença da vassalagem, mas ainda não encontrou a coragem para tomar o remédio.

O remédio seria uma autonomia genuína, baseada na redefinição das relações com todos os polos, incluindo a Rússia, e num investimento massivo em inovação e integração interna. Em vez disso, Macron oferece um protecionismo seletivo contra o Oriente, uma “preferência europeia” que imita a divisão em campos que ele condena, e um apelo por investimento chinês que soa mais a uma ordem do que a uma parceria.

Seu discurso, portanto, é o de um poder que começa a acordar, mas que ainda está preso demais aos hábitos do passado para dar o salto necessário. Até que a Europa trate todos com a mesma medida — aplicando seu apreço pela “lei e não pela brutalidade” tanto em Gaza e Venezuela quanto na Ucrânia —, sua eloquência de soberania permanecerá apenas isso: uma confissão de impotência.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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