Será que agora a valsa vai ser outra?
Um conflito sem precedentes entre os Estados Unidos e a Europa eclodiu, tendo como epicentro a remota Groenlândia.
No domingo, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, declarou categoricamente: “Acredito que os europeus entenderão que o melhor resultado é os EUA manterem ou obterem o controle da Groenlândia”.
No mesmo dia, embaixadores dos 27 países da UE reuniam-se em Bruxelas para discutir tarifas de retaliação no valor de 108 bilhões de dólares ou a restrição da entrada de empresas americanas no mercado do bloco, além de possíveis restrições à entrada de empresas americanas no mercado do bloco.
A reunião ocorreu após os EUA anunciarem novas tarifas de 10% sobre a Dinamarca e sete outros países europeus, a vigorarem a partir de 1º de fevereiro, até que “um acordo seja alcançado para a compra da Groenlândia”.
Entre retórica e ação
Superficialmente, a resposta europeia sugere uma transição da defesa passiva para a retaliação ativa. Contudo, a realidade é mais complexa. As tarifas de retaliação ainda não foram implementadas, e as medidas em discussão – incluindo o instrumento anti-coerção (ACI) – estão sendo elaboradas para “dar aos líderes europeus poder de barganha” nas reuniões do Fórum Econômico Mundial em Davos.
Segundo fontes europeias, o bloco aguardará até 1º de fevereiro para ver se os EUA concretizam suas ameaças antes de decidir sobre contramedidas.
Sinais de fragilidade
Um episódio revelador ocorreu logo após o anúncio das tarifas americanas: a equipe alemã de reconhecimento, composta por 15 militares, retirou-se da Operação Arctic Endurance – exercício militar liderado pela Dinamarca e previsto para 2026 na Groenlândia. Berlim não ofereceu explicações públicas, mas analistas atribuem a decisão à pressão tarifária.
Originalmente, sete países europeus (Reino Unido, Alemanha, Suécia, França, Noruega, Holanda e Finlândia) haviam enviado 37 militares para participar do exercício.
Dependência e vulnerabilidade
Os EUA transformaram uma proposta outrora considerada absurda – a compra da Groenlândia – em pressão concreta, em parte porque avaliaram corretamente a fragilidade da resposta europeia. Anos de dependência estratégica dos Estados Unidos, combinados com o afastamento de outros parceiros como China e Rússia, tornaram a Europa particularmente vulnerável à coerção americana.
Este padrão repete-se em outros contextos. Durante o conflito Rússia-Ucrânia, a Europa impôs cortes radicais ao gás russo sem avaliar plenamente as consequências econômicas e sociais. De forma similar, as relações sino-europeias – outrora prósperas – deterioraram-se à medida que a Europa adotou a retórica ideológica americana em detrimento do pragmatismo.
O preço do apaziguamento
Nas relações com Washington, a Europa frequentemente opta pelo apaziguamento. Na guerra comercial anterior, a rendição europeia sem luta pode ter pavimentado o caminho para que os EUA agora reivindiquem abertamente território europeu.
“Quem são nossos inimigos? Quem são nossos amigos? Esta é uma questão de suma importância para a revolução” – este ensinamento bem conhecido na China parece fazer falta à Europa contemporânea. Nas relações internacionais, não existem aliados ou adversários permanentes, mas a Europa parece ter dificuldade em aplicar este realismo à sua própria situação.
Apesar das bases militares americanas já existentes na Groenlândia e da ausência de evidências sobre presença militar russa ou chinesa significativa na região, os EUA agora deixam claro que buscam não apenas cooperação, mas soberania sobre o território. E calculam, com base em precedentes, que a Europa dificilmente oferecerá resistência significativa.
As ações americanas transmitem uma mensagem inequívoca: para Washington, a Groenlândia é indispensável. A verdadeira questão é se a Europa conseguirá demonstrar que está igualmente empenhada em defender a soberania territorial de seus Estados-membros.
Com informações da Global Times