Discurso de Trump foi o requiem da velha ordem mundial

Principais pontos do discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, em Davos 2026 (Créditos da imagem: Reuters)

Acabou, porra.

“A soberba precede a ruína, e a arrogância do espírito precede a queda” (Provérbios 16:18).

O discurso de Donald Trump em Davos é a encarnação perfeita desse aviso bíblico e, de certa forma, coloca um ponto final na velha ordem mundial.

Não há como a OTAN continuar existindo como projeto político e ideológico coerente depois das ameaças, insultos e humilhações públicas dirigidas pelo presidente dos Estados Unidos contra seus próprios aliados. A aliança pode sobreviver formalmente, nos rituais burocráticos e nas estruturas institucionais, mas sua substância política desapareceu.

A OTAN perdeu a alma que um dia fingiu ter.

Será extremamente difícil convencer os povos europeus a apoiar qualquer guerra ou aventura militar ao lado da aliança depois desse espetáculo de arrogância. Trump não falou como um aliado em desacordo, mas como um poder imperial dirigindo-se a subordinados.

O presidente dos Estados Unidos usou linguagem de gangster, reafirmou o tempo todo a superioridade americana e deixou claro que, para ele, a relação transatlântica é uma relação de submissão.

O que se revela é uma crise terminal da Aliança Atlântica. Uma crise, aliás, bem-vinda. Está na hora de pôr fim a esse preconceito e a essa soberba que sempre caracterizou a liderança dos Estados Unidos — a pretensão de ser uma espécie de xerife do mundo, guardião da paz internacional, quando o contrário é mais verdadeiro.

A OTAN é há muito um agente de desestabilização mundial. Não gera paz, gera conflito. Não previne guerras, ajuda a produzi-las.

A guerra na Ucrânia não teria ocorrido não fosse a obsessão americana de expandir a aliança até as fronteiras da Rússia. Em vez de fortalecer mecanismos universais de segurança coletiva, como a ONU, a OTAN tornou-se um inimigo estrutural da estabilidade global.

O contraste com os pronunciamentos dos dias anteriores não poderia ser maior. A fala de Mark Carney foi histórica ao reconhecer explicitamente o fim da velha ordem internacional e a necessidade de uma nova arquitetura global. No mesmo registro estiveram Emmanuel Macron, Ursula von der Leyen e Kaja Kallas — todos conscientes da ruptura em curso.

Trump seguiu o caminho oposto. Seu pronunciamento foi uma sucessão de arrogância, ostentação e mentira — jactância em estado bruto.

Nenhum insight estratégico relevante, nenhuma proposta real para reorganizar o sistema internacional. Apenas bravatas.

O discurso foi também excessivamente longo. Durou cerca de uma hora e meia, um desrespeito explícito ao tempo dos demais participantes. Em Davos, as falas costumam durar entre 20 e 30 minutos. Trump forçou a barra — como já havia feito na ONU — tratando o fórum como um palco pessoal.

O ponto mais grave veio no final, quando falou da Groenlândia. Não houve ambiguidade.

Os termos foram inequivocamente ameaçadores. Trump deixou claro que vê a soberania europeia como algo negociável e que o poder americano se sobrepõe a qualquer regra, tratado ou aliança.

Trump também escancarou um racismo estrutural que trata como se fosse herança legítima do Ocidente. Ao atacar imigrantes da Somália, acusou os somalis de desviar bilhões de dólares, associou o país à pirataria e à criminalidade, e contrastou essa imigração com a europeia ao afirmar que “nós, americanos, somos iguais a vocês”, deixando implícita uma identidade branca compartilhada.

A mensagem foi cristalina: há imigrantes aceitáveis e inaceitáveis, definidos por origem racial e cultural.

Talvez o racismo, o colonialismo e o genocídio façam parte da história real do Ocidente. Mas não fazem parte de suas aspirações normativas nem de seus valores fundadores.

A tradição ocidental também produziu valores universais de igualdade, justiça, dignidade humana, hospitalidade e paz — muitos deles de matriz cristã. Esses valores não são o que Trump representa. Ao contrário, ele encarna a ruptura do país mais rico do Ocidente — ou, ao menos, da elite política de Washington — com aquilo que antes fingia ou simulava como seu ideal.

Trump mentiu ainda ao afirmar que os europeus “nunca deram nada” à OTAN. Países europeus abrigam bases militares americanas há décadas, compram armas da indústria dos Estados Unidos e sustentam parte central do complexo militar-industrial americano.

Mentiu também ao dizer que os Estados Unidos “sustentam o mundo”. O oposto é mais próximo da verdade.

O mundo sustenta os Estados Unidos há décadas por meio da centralidade do dólar, das reservas internacionais, da compra de títulos da dívida americana e da aceitação de déficits crônicos. Esse privilégio não é força produtiva, mas arquitetura financeira herdada do pós-guerra — a mesma arquitetura que Trump agora esvazia.

Para citar T. S. Eliot, é assim que a OTAN e toda a ordem mundial liderada por Washington, se acaba. Não com um estrondo, mas com um gemido.

 

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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