A participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quarta-feira (21), agrava a crise diplomática envolvendo a Groenlândia em rápida escalada entre Washington e seus aliados europeus. Em um discurso que misturou política interna, economia global e segurança internacional, Trump voltou a criticar a Dinamarca, questionou a soberania do território autônomo e afirmou que apenas os Estados Unidos têm capacidade real de garantir a segurança da ilha no Ártico.
Trump chegou à Suíça após um atraso superior a duas horas, causado por um problema técnico em sua aeronave, o que levou ao cancelamento de uma reunião bilateral prevista com o chanceler alemão, Friedrich Merz. Ainda assim, manteve o discurso no horário programado, diante de uma plateia formada por líderes políticos, executivos e representantes de organismos internacionais, em um ambiente já marcado por tensões decorrentes de suas recentes ameaças comerciais e declarações sobre a Groenlândia.
Ao abordar o tema, o presidente afirmou ter “enorme respeito” pelo povo dinamarquês e pela população da Groenlândia, mas disse considerar inadequado que aliados da Otan não sejam capazes de defender seus próprios territórios. Segundo Trump, nenhuma nação europeia ou conjunto de países teria condições de assegurar a proteção da Groenlândia, atribuição que, em sua visão, caberia exclusivamente aos Estados Unidos. O republicano retomou argumentos históricos, afirmando que, durante a Segunda Guerra Mundial, a Dinamarca teria sido rapidamente ocupada pela Alemanha, obrigando os EUA a intervir para proteger a ilha. Ele lamentou a decisão americana de ter devolvido o território após o conflito e classificou a Dinamarca como “ingrata”.
O discurso foi permeado por ironias. Trump disse ter considerado deixar a Groenlândia fora de sua fala, mas avaliou que isso poderia ser interpretado negativamente, provocando risos no auditório. Em outro momento, afirmou que líderes europeus não ofereceriam “muita resistência” à sua intenção de incorporar o território, indicando que o tema estaria em discussão com diferentes atores à margem do fórum.
Antes de entrar no debate internacional, o presidente iniciou sua fala exaltando o que chamou de êxitos de seu primeiro ano de mandato, citando crescimento econômico, recordes nos mercados financeiros e valorização de planos de aposentadoria. Declarou que a inflação teria sido “derrotada” e que a política migratória teria encerrado o que chamou de fronteira “aberta e perigosa”, apesar de dados recentes apontarem inflação anual acima da meta oficial. Trump também atacou a política energética europeia e afirmou que o continente estaria seguindo um caminho equivocado ao priorizar a transição verde.
Na sequência, o republicano defendeu o aumento de tarifas sobre países estrangeiros como forma de compensar danos econômicos que, segundo ele, teriam sido causados aos Estados Unidos, embora economistas ressaltem que os custos dessas tarifas recaem sobre empresas e consumidores americanos. O presidente também mencionou a operação militar conduzida pelos EUA na Venezuela no início de janeiro, que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, e afirmou que, após a ação, os Estados Unidos adquiriram 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, em uma negociação que gerou questionamentos sobre conflitos de interesse.
As declarações de Trump intensificaram reações imediatas entre líderes europeus presentes em Davos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o mundo atravessa uma transformação estrutural na ordem internacional e defendeu que a União Europeia acelere sua busca por autonomia estratégica. Ao comentar as ameaças tarifárias associadas à Groenlândia, disse que justificá-las com argumentos de segurança é inadequado e reiterou que o bloco prefere o diálogo, mas está preparado para agir.
No mesmo sentido, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que as tarifas anunciadas por Washington são incompatíveis com os acordos comerciais existentes e representam uma forma de coerção.
As tensões se intensificaram após Trump anunciar tarifas de 10% sobre exportações de oito países europeus contrários à sua posição sobre a Groenlândia, medida que provocou instabilidade nos mercados e reacendeu temores de uma guerra comercial transatlântica. Em resposta, líderes europeus passaram a discutir a retomada de um plano de tarifas retaliatórias que pode atingir até € 93 bilhões em produtos americanos, além da suspensão de avanços em acordos comerciais com Washington.
Apesar do tom confrontacional, Trump afirmou acreditar que as negociações sobre a Groenlândia “se resolverão muito bem” e disse aguardar reuniões com diversas partes durante o fórum.