Parlamento Europeu paralisa acordo UE-Mercosul

Yves Herman/Reuters

Deputados votam a favor de pedido para que Tribunal de Justiça da União Europeia avalie bases legais do acordo de livre comércio com o Mercosul, o que deve atrasar ratificação.

Os parlamentares da União Europeia aprovaram nesta quarta-feira (21/01) uma moção para contestar o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul junto ao Tribunal de Justiça (TJUE) do bloco.

A determinação de uma revisão pelo tribunal superior europeu deve atrasar em até dois anos a ratificação do tratado, assinado no último sábado (17/01), no Paraguai, após mais de duas décadas de negociações.

Segundo o TJUE, este tipo de parecer demora, em média, entre 18 e 24 meses para ser proferido, embora a corte “tenha o controle total” sobre os procedimentos e “possa, quando as circunstâncias exigirem, dar prioridade a um pedido de parecer”.

Teoricamente, o acordo poderia entrar em vigor provisoriamente mais cedo, caso a Comissão Europeia tome uma decisão nesse sentido. O Comissário Europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, esclareceu antes da votação que ainda não havia sido tomada nenhuma decisão sobre a aplicação provisória e que o foco era obter o apoio do Parlamento Europeu.

A proposta foi aprovada por 334 eurodeputados e rejeitada por 324, com 11 abstenções. No dia anterior, milhares de agricultores europeus protestaram contra o acordo comercial em frente à sede do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França.

Os apoiadores do acordo alertam que os governos do Mercosul estão perdendo a paciência com a União Europeia após 20 anos de negociações.

E argumentam que esse é o momento propício para efetivar a parceria, em função da política comercial errática de Donald Trump, com potencial de prejudicar os países da UE.

O que o tribunal vai analisar?

Um grupo de mais de 140 deputados apresentou uma ação pedindo que o TJUE avalie se o acordo é compatível com as leis e tratados vigentes antes de ser ratificado em plenário pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros.

Os proponentes criticam a divisão do acordo em duas partes: ele consiste, por um lado, em um acordo de parceria que, como componente político abrangente, também precisa ser ratificado pelos Estados-membros da UE e, por outro lado, em um componente comercial que requer apenas a aprovação do Parlamento Europeu, permitindo assim que ele seja ratificado sem o consentimento dos parlamentos nacionais.

Além disso, os críticos veem um problema num mecanismo pelo qual os países do Mercosul podem exigir medidas compensatórias e indenizações.

A ação questiona ainda se cláusulas do tratado limitam a capacidade da UE de definir políticas ambientais, bem-estar animal e proteção ao consumidor.

A análise pela corte deve atrasar até mesmo a efetivação do instrumento provisório do acordo, além de colocar em dúvida os termos do Acordo de Parceria UE-Mercosul, que engloba a cooperação política e setorial, além de comércio e investimentos.

Se o parecer do tribunal for negativo, o acordo de livre comércio não poderá entrar em vigor, a menos que seja alterado.

O Parlamento Europeu informou que continuará a sua análise dos textos, enquanto aguarda o parecer do tribunal. Só então poderá votar para dar, ou não, seu consentimento ao acordo.

Comissão Europeia lamenta decisão

A Comissão Europeia lamentou que o Parlamento Europeu tenha decidido remeter o acordo comercial assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul ao Tribunal de Justiça da UE e defendeu que o pacto é de importância vital para o bloco comunitário.

“Segundo nossa análise, as questões levantadas pelo Parlamento Europeu nesta moção não são justificadas porque a Comissão Europeia já as abordou de maneira muito profunda com o Parlamento”, disse o porta-voz do órgão executivo do bloco, Olof Gill.

Ele acrescentou que, além disso, essas questões já foram abordadas em outros tratados comerciais, em particular no acordo com o Chile.

Questionado sobre se o órgão cogita aplicar provisoriamente o acordo antes de um pronunciamento do TJUE, o porta-voz explicou que a Comissão continuará focada em manter o diálogo com os eurodeputados.

Moção de censura

Na quinta-feira, os eurodeputados votarão ainda uma nova moção de censura à Comissão Europeia contra o acordo comercial.

Para ser aprovada, a moção deve obter uma maioria de dois terços dos votos expressos, representando a maioria dos membros que compõem o Parlamento.

O que é o acordo UE-Mercosul?

O tratado de livre comércio visa facilitar o trânsito de mercadorias e serviços entre os 27 Estados-membros da UE e os quatro países do bloco econômico sul-americano.

Ele começou a ser negociado em 1999, mas só alcançou um entendimento entre as partes em 2019. Desde então, a parceria formal vem sendo costurada política e juridicamente, apesar das resistências principalmente por parte de agricultores franceses, que temem perder mercado para os produtos do Mercosul.

Uma vez ratificado, o acordo vai criar um mercado comum que abrange cerca de 720 milhões de pessoas e representará um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 22,4 trilhões de dólares (cerca de R$ 118 trilhões).

Com informações do DW e Reuters em 21/01/2026

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