“O mundo entrou numa nova era de grandes potências, construída sobre poder, força e coerção, e não é um lugar confortável”, afirmou o primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, ao alertar que a Europa não pode aceitar essa realidade como destino nem se submeter passivamente a ela.
“A história mostra que um mundo onde apenas o poder importa é um lugar perigoso, primeiro para os pequenos Estados, depois para as potências médias e, por fim, para as grandes”, disse Merz, evocando explicitamente a experiência alemã do século XX como advertência contra a normalização da política da força.
A declaração foi feita no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na terça-feira (21), num momento em que a ordem internacional atravessa uma fase de instabilidade acelerada, impulsionada pela volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e pela reemergência aberta da lógica de coerção entre grandes potências.
Há, no entanto, um limite evidente nesses discursos europeus. Merz, assim como praticamente todas as lideranças do continente que passaram por Davos nos últimos dias, fala com dureza contra o uso da força e contra a política de intimidação entre potências, mas evita apontar com clareza o principal responsável por esse cenário. Nenhum deles diz explicitamente que a única potência que hoje ameaça aliados, parceiros e territórios em diferentes regiões do planeta são os Estados Unidos. A Rússia enfrenta um conflito localizado na Ucrânia, ligado a uma longa disputa geopolítica marcada pela expansão da OTAN. A China, por sua vez, não ameaça anexar territórios nem impõe coerção militar direta a outros países. Falta às lideranças europeias coragem política para nomear o agente central da instabilidade global que elas próprias descrevem.
Esse silêncio ajuda a explicar o desconforto estratégico alemão. A Alemanha, maior economia da Europa e seu país mais industrializado, passou décadas apoiada em energia barata, integração produtiva e previsibilidade geopolítica. Aceitou, sem resistência efetiva, a transformação da guerra da Ucrânia numa guerra por procuração dos Estados Unidos contra a Rússia e também a destruição dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, infraestrutura estratégica que garantia gás russo barato à indústria e aos consumidores alemães. Desde então, convive com custos energéticos elevados, perda de competitividade e desaceleração industrial.
Ainda assim, Berlim permanece presa a um discurso de alinhamento estratégico com Washington, mesmo quando esse alinhamento significa aceitar ameaças abertas à soberania europeia. Nos dias que antecederam Davos, Trump voltou a falar em ampliar o controle americano sobre a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca, tratando a questão como um problema de segurança dos Estados Unidos.
O tema dominou os bastidores do fórum e provocou reações cautelosas. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que valores, sozinhos, já não bastam e que democracias precisam reconhecer também o valor do poder. O presidente francês, Emmanuel Macron, voltou a defender a chamada autonomia estratégica europeia e a necessidade de o continente deixar de agir como um apêndice militar dos Estados Unidos.
É nesse ambiente que se insere o discurso de Merz. “A Europa não está à mercê dessa nova ordem mundial. Nós temos uma escolha”, afirmou. Segundo ele, essa escolha se apoia em três pilares: segurança, competitividade econômica e unidade política. O premiê anunciou aumento expressivo dos gastos militares alemães, prometeu acelerar investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia e defendeu uma redução drástica da burocracia europeia como condição para recuperar o dinamismo industrial.
Merz também defendeu acordos comerciais, citando explicitamente o tratado entre União Europeia e Mercosul, e criticou o protecionismo. “Tarifas precisam ser substituídas por regras, e essas regras devem ser respeitadas”, disse. Ao tratar da Groenlândia, foi mais direto: “Qualquer ameaça de aquisição de território europeu pela força é inaceitável”, afirmou, reafirmando os princípios de soberania e integridade territorial.
O discurso não rompe com o eixo atlântico, mas deixa transparecer uma transição incômoda. A dependência de energia barata russa, a proteção militar americana e a crença numa ordem liberal estável deixaram de ser garantias. Entre a fidelidade à OTAN e a percepção crescente de que os Estados Unidos já não operam como parceiro previsível, a Alemanha tenta redesenhar seu lugar no mundo — ainda sem coragem de nomear, em voz alta, o principal fator de instabilidade que enfrenta.
“Nosso destino está em nossas mãos”, disse Merz ao encerrar sua fala. A frase soa menos como convicção e mais como alerta.
Assista ao vídeo legendado com exclusividade pelo Cafezinho abaixo.