O principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o embaixador Celso Amorim, afirmou que o Brasil não teme retaliações caso decida não aderir ao Conselho da Paz proposto pelos Estados Unidos, mas reforçou que o país mantém aberta a avaliação da iniciativa a partir do seu conteúdo e dos princípios diplomáticos envolvidos. Em entrevista a órgãos de imprensa, Amorim questionou a clareza e os objetivos do novo conselho concebido pelo presidente americano, e disse que a forma como o documento foi apresentado impede uma aceitação automática sem entendimento prévio de todos os seus termos.
O Conselho da Paz, proposto por Donald Trump no Fórum Econômico Mundial em Davos, foi apresentado como uma nova estrutura internacional destinada inicialmente a supervisionar esforços de paz na Faixa de Gaza, mas tem sido criticado por analistas e diplomatas por seu estatuto amplo e pela forma de governança estabelecida, que, segundo críticos, poderia deslocar funções tradicionais da Organização das Nações Unidas (ONU) para um organismo cujo controle central estaria nas mãos de um único país.
Amorim ressaltou que o texto que acompanha o convite brasileiro não limita o alcance do conselho apenas à questão palestina, mencionando que ele pode abranger qualquer conflito internacional sem critérios claros de atuação. Para ele, essa amplitude cria dúvidas sobre os propósitos reais do órgão e sobre a relação entre o novo conselho e a ONU, cuja reforma, na visão do governo brasileiro, deve ser conduzida por meio de negociações multilaterais e não por iniciativas unilaterais de um único Estado.
O assessor destacou que a falta de espaço para negociação do texto do Conselho — considerado um “contrato de adesão”, sem possibilidade de emendas, conforme sua avaliação — reforça a necessidade de cautela antes de qualquer decisão de adesão por parte do Brasil. Ele observou ainda que outros países, especialmente membros europeus, também não aceitaram formalmente integrar o conselho, o que, segundo ele, indica uma visão crítica compartilhada por diversos governos sobre a proposta americana.
Amorim afirmou que a posição do Brasil não é motivada por temores específicos de retaliação por parte dos Estados Unidos, e que a decisão sobre participação ou não no novo organismo será tomada considerando os princípios diplomáticos do país, sua tradição de apoio ao multilateralismo e ao papel das instituições internacionais como a ONU na resolução de conflitos e na promoção da paz global.