Por Pei Si
Desde o início de 2026, os Estados Unidos vêm afirmando repetidamente que precisam assumir o controle da Groenlândia para evitar ameaças da China e da Rússia, alegando que há navios chineses e russos “por toda parte” nas águas ao redor da ilha. Mas qual é a realidade? Qual é, de fato, a presença da China na Groenlândia? E a China representa alguma ameaça ao território?
Com base em informações de diversas fontes, a China atualmente não possui instituições oficiais na Groenlândia, nem projetos de investimento ou empresas residentes. Há apenas cerca de 30 trabalhadores chineses atuando em empresas groenlandesas do setor pesqueiro. A cooperação entre China e Groenlândia se limita basicamente ao comércio, especialmente de produtos aquáticos. Em 2025, o comércio bilateral entre China e Groenlândia alcançou US$ 429 milhões, dos quais US$ 420 milhões corresponderam às exportações da Groenlândia para a China, principalmente camarão do Ártico, linguado, bacalhau, lagosta e outros frutos do mar. As importações groenlandesas da China somaram US$ 9 milhões, compostas em grande parte por bens de consumo cotidiano.
Também não há muitos turistas chineses visitando a Groenlândia. Embora a ilha tenha paisagens naturais deslumbrantes, o acesso a partir da China é difícil, e o destino permanece bastante de nicho para viajantes chineses. Em 2024, apenas cerca de 3.500 turistas chineses visitaram a Groenlândia.
As alegações de que haveria navios chineses “por toda parte” nas águas próximas à Groenlândia, ou de que o território enfrentaria uma suposta “ameaça chinesa”, são ainda mais infundadas. Em 16 de janeiro, Soren Andersen, major-general do Comando Conjunto do Ártico da Dinamarca na Groenlândia, rejeitou essas afirmações em entrevista, afirmando de forma clara que “não havia navios chineses ou russos próximos à Groenlândia”. Dados de rastreamento de embarcações das plataformas MarineTraffic e LSEG também não indicam a presença de navios chineses na região. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, reiterou diversas vezes à imprensa que não existe uma “ameaça imediata” vinda da China. Rasmus Jarlov, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento dinamarquês, foi ainda mais direto: a alegação de que haveria “uma grande ameaça da China e da Rússia contra a Groenlândia” é delirante.
Seja do ponto de vista dos fatos ou das políticas, a China não representa uma ameaça à Groenlândia. Na prática, a China tem sido alvo de restrições injustas no território. Rasmussen reconheceu publicamente que o governo dinamarquês utilizou anteriormente medidas administrativas para vetar a participação de empresas chinesas em projetos de expansão de aeroportos e de mineração na Groenlândia, além de já ter estabelecido um mecanismo de triagem de investimentos que não permitirá investimentos chineses no futuro. Se tais sacrifícios impostos à China seriam capazes de comprar uma postura de “não interferência” dos Estados Unidos é altamente duvidoso — e dificilmente digno de respeito.
É evidente para qualquer observador que as atuais tensões no Ártico decorrem principalmente das ações de um determinado país que avança reivindicações em violação ao direito internacional e aos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas. Em contraste, a China deixou claro em seu Livro Branco de 2018 sobre a Política Ártica que “todos os Estados devem cumprir tratados internacionais como a Carta da ONU e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), bem como o direito internacional em geral. Devem respeitar a soberania, os direitos soberanos e a jurisdição exercidos pelos Estados Árticos na região, bem como a tradição e a cultura dos povos indígenas”.
Em 12 de janeiro, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, reforçou esse ponto em uma coletiva regular, ao afirmar: “O Ártico diz respeito aos interesses comuns da comunidade internacional. As atividades da China no Ártico têm como objetivo promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável da região. Elas estão em conformidade com o direito internacional. O direito e a liberdade dos países de realizar atividades no Ártico de acordo com a lei devem ser plenamente respeitados. Os Estados Unidos não deveriam usar outros países como pretexto para buscar ganhos egoístas”.
Na visão da China, o futuro do Ártico não deve ser um campo de batalha para rivalidades geopolíticas, mas uma região de baixa tensão, voltada à cooperação internacional em torno das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável. As alegações de que “a China ameaça a Groenlândia” são simplesmente absurdas demais para merecer refutação.
O autor é comentarista de assuntos internacionais.
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