Além do possível acordo entre Canadá e China, o presidente também afirmou que refinarias americanas processarão o petróleo venezuelano apreendido, dizendo: “Nós ficamos com o petróleo”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou novas tempestades diplomáticas neste fim de semana, direcionando sua política agressiva d “América First” simultaneamente para o norte e para o sul.
Em uma série de declarações e entrevistas, Trump ameaçou o aliado Canadá com tarifas punitivas de 100% sobre suas exportações para os EUA e reivindicou abertamente a posse de petróleo venezuelano confiscado, elevando as tensões em múltiplas frentes.
Ameaça ao Canadá
Em uma publicação em sua plataforma Truth Social, Trump atacou diretamente o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em meio a tensões bilaterais que vinham se intensificando há meses.
A provocação ocorreu após Carney ter anunciado na semana passada um acordo preliminar com a China para reduzir tarifas sobre veículos elétricos chineses em troca de melhor acesso ao mercado daquele país para produtos agrícolas canadenses.
Trump acusou o Canadá de tentar se tornar um “porto de desembarque” para produtos chineses entrarem no mercado americano e prometeu uma resposta drástica.
“Se o Canadá fizer um acordo com a China, será imediatamente atingido por uma tarifa de 100% sobre todos os bens e produtos canadenses que entrarem nos [EUA]”.
Em sua mensagem, o presidente foi além, afirmando que “a China vai devorar o Canadá vivo, vai destruí-lo completamente, incluindo seus negócios, tecido social e modo de vida em geral”.
A relação entre os dois líderes, já conturbada, atingiu um novo pico de atrito durante o Fórum Econômico Mundial em Davos.
Trump provocou o vizinho ao declarar que “o Canadá vive por causa dos Estados Unidos”, ao que Carney rebateu dizendo que seu país serve de exemplo de que o mundo não precisa se curvar a tendências autocráticas. Como retaliação direta, Trump revogou o convite para o Canadá integrar seu recém-criado “Conselho da Paz”.
Apropriação do petróleo venezuelano
Paralelamente, em uma entrevista ao New York Post, Trump abordou de forma direta e provocativa a questão do petróleo venezuelano. O governo americano tem conduzido há um mês uma campanha para controlar o fluxo de petróleo do país, resultando na apreensão de sete petroleiros.
“Vamos colocar desta forma: eles não têm petróleo. Nós ficamos com o petróleo”, afirmou Trump ao jornal. Ele detalhou que o petróleo confiscado, estimado em 50 milhões de barris, está sendo refinado em “vários locais”, incluindo Houston, e parte está sendo vendida no mercado aberto.
Essas declarações consolidam uma política externa para a América Latina que tem a Venezuela como foco central. Após falhar em derrubar o presidente Nicolás Maduro por meio de sanções e pressão diplomática, Trump autorizou uma operação militar em 3 de janeiro que resultou no sequestro de Maduro e de sua esposa, que agora aguardam julgamento em Nova York por acusações relacionadas ao narcotráfico.
Trump ainda se gabou ao Post de que uma nova arma não-letal, descrita como “desconcertante” e que emite uma “onda sonora muito intensa”, foi fundamental para o sucesso da missão.
Um padrão de coerção e instabilidade
Analistas apontam que a dupla ameaça segue um padrão recorrente da administração Trump: o uso de medidas econômicas extremas e ações unilaterais para coagir outros países a se alinharem aos interesses americanos. Trump já havia imposto aumentos unilaterais de tarifas em abril do ano passado, em uma ação que chamou de “Dia da Libertação”, apenas para revertê-las ou criar exceções posteriormente, incluindo para a própria China.
A escalada contra o Canadá, no entanto, é vista como particularmente agressiva, dada a profunda integração econômica e a histórica aliança entre os dois países. Enquanto isso, a apropriação declarada de recursos naturais de um país soberano – a Venezuela – estabelece um precedente perigoso no cenário internacional.
A política de Trump, que combina retórica inflamada, sanções econômicas e ações militares, continua a redefinir as relações dos Estados Unidos com o mundo, priorizando a demonstração de força e a vantagem comercial imediata sobre a diplomacia tradicional e as alianças de longa data.
Com informações do The Guardian e Reuters em 24/01/2026