O Departamento de Defesa dos Estados Unidos divulgou neste sábado uma versão atualizada da Estratégia Nacional de Defesa, documento que estabelece as diretrizes militares e geopolíticas do país para os próximos anos. O texto traz mudanças relevantes na forma como Washington enxerga a Europa, o Hemisfério Ocidental e a região Indo-Pacífico, além de reafirmar a China como principal prioridade estratégica. As principais passagens foram destacadas pela agência russa TASS.
O documento classifica a Rússia como uma ameaça “persistente” ao flanco leste da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mantendo Moscou como fator de risco contínuo à segurança europeia. Ao mesmo tempo, a estratégia indica que a condução e a solução do conflito na Ucrânia devem recair “em grande medida” sobre os países europeus, sinalizando uma expectativa de maior protagonismo do continente no enfrentamento da guerra.
Essa formulação marca uma mudança de ênfase na política de defesa americana. Segundo o texto, a prioridade das Forças Armadas dos Estados Unidos passa a ser a dissuasão da China e a proteção do próprio território, reduzindo o foco direto na defesa do continente europeu. A leitura implícita é de que Washington espera que governos europeus ampliem investimentos em defesa e reduzam a dependência do poder militar americano.
A estratégia reforça essa linha ao afirmar que a tolerância histórica em relação a baixos gastos militares de aliados ficou no passado. Países aliados na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana são chamados a assumir a “responsabilidade primária” por sua própria segurança. O documento indica que os Estados Unidos buscam redistribuir custos e compromissos, preservando capacidade militar para temas considerados centrais no longo prazo.
No Hemisfério Ocidental, a linguagem do texto chama atenção. A estratégia afirma que os Estados Unidos “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região, “do Ártico à América do Sul”, com o objetivo declarado de “garantir que a Doutrina Monroe seja mantida em nosso tempo”. A referência explícita à doutrina histórica sugere uma orientação de maior assertividade para limitar a presença e a influência de atores externos no continente americano.
A formulação indica que Washington pretende reafirmar sua primazia estratégica no Hemisfério Ocidental, tratando a região como área sensível em um contexto de competição global. O texto não menciona países específicos, mas o enquadramento aponta para disputas de influência em áreas consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.
No campo da modernização militar, a estratégia prevê uma ampla atualização do complexo industrial de defesa, descrita como um esforço que exigirá “mobilização do esforço de toda a nação americana”. O documento também anuncia um programa abrangente de modernização das forças nucleares. A justificativa é apresentada de forma direta: “Os Estados Unidos nunca — jamais — ficarão vulneráveis à chantagem nuclear”.
Além da dimensão nuclear, o texto indica prioridade ao desenvolvimento de sistemas para conter veículos aéreos não tripulados e outras ameaças aéreas contemporâneas. A ênfase reflete a crescente importância de drones e tecnologias de baixo custo em conflitos recentes e no planejamento militar futuro.
A região Indo-Pacífica aparece no topo das prioridades estratégicas. O documento afirma que a dissuasão da China é a principal missão de longo prazo das Forças Armadas dos Estados Unidos, refletindo a avaliação de que a competição com Pequim define o cenário geopolítico das próximas décadas. Ao mesmo tempo, a estratégia declara que a política americana em relação à China não inclui tentativas de mudança de regime nem outras formas de conflito direto, buscando estabelecer limites formais para o confronto.
Essa combinação de mensagens aponta para uma tentativa de calibragem: endurecimento militar no plano estratégico, acompanhado de uma sinalização política de contenção quanto a escaladas abertas.
Em relação ao Irã, o documento reafirma que os Estados Unidos “não permitirão” que o país obtenha armas nucleares, mantendo uma linha dura sobre o tema. Sobre a Coreia do Norte, o Pentágono avalia que Pyongyang continua a expandir seu potencial nuclear e identifica o país como “um perigo claro e presente de ataque nuclear ao território americano”, reforçando a centralidade da dissuasão no eixo asiático.
No combate ao terrorismo, a estratégia aponta para uma abordagem “sustentável em recursos”, focada em organizações que tenham capacidade e intenção de atacar o território dos Estados Unidos. A diretriz sugere redução de operações extensivas e concentração em ameaças consideradas diretamente operacionais contra o país.
De forma geral, a nova Estratégia Nacional de Defesa sinaliza um reordenamento de prioridades. O documento coloca a China como foco central, pressiona aliados a assumirem mais custos e responsabilidades e reafirma o Hemisfério Ocidental como espaço de primazia estratégica americana. Ao mesmo tempo, aposta na modernização industrial e nuclear e na adaptação a novas ameaças tecnológicas, indicando um planejamento voltado para uma competição de longo prazo em um ambiente internacional mais instável.