A maioria dos americanos está em estado de choque com o que está acontecendo em Mineápolis.
Agentes federais estão executando civis a sangue frio, em plena luz do dia, diante de várias câmeras, e a administração federal depois vem contar mentiras sobre os casos, como se fosse possível convencer a população a não acreditar nos próprios olhos.
O próprio presidente da República, Donald Trump, voltou a agir da mesma forma que já havia feito no caso de Renee Good, americana assassinada há poucas semanas na mesma cidade.
Mais uma vez, Trump foi a público culpar a vítima, alimentar a narrativa de que Alex Pretti seria um “terrorista doméstico” e que teria atacado agentes federais. Para sustentar essa versão, o presidente chegou a postar a foto de uma arma sobre o banco de um carro, apresentada como “prova”. O vice-presidente, J.D.Vance, e outros altos oficiais do governo também passaram a repetir essa história.
Mas não foi isso que o país inteiro viu.
O que as imagens mostram é exatamente o contrário: um assassinato completamente desnecessário, a sangue frio, de um civil que apenas filmava a ação dos agentes e tentava ajudar outras duas pessoas que estavam sendo atacadas. Alex Pretti era enfermeiro, não tinha antecedentes criminais e possuía porte legal de arma.
Esse último ponto, inclusive, tem causado ainda mais indignação. Durante décadas, políticos republicanos e setores conservadores incentivaram os americanos a andarem armados como forma de resistência a governos tirânicos.
Agora, tentam usar o simples fato de um cidadão portar legalmente uma arma em seu coldre — algo permitido pela lei de Mineápolis — como justificativa para sua execução.
Diante dessa avalanche de versões oficiais contraditas pelas imagens, o New York Times publicou uma reportagem minuciosa, quadro a quadro, reconstruindo a cena e estabelecendo os fatos. A conclusão é inequívoca: a vítima, o enfermeiro Alex Pretti, foi assassinada.
Linha do tempo: um olhar momento a momento sobre o assassinato de Alex Pretti
Por Bora Erden, Devon Lum, Helmuth Rosales, Elena Shao, Haley Willis e Ashley Wu, para o NY Times
Atualizado em 25 de janeiro de 2026, às 17h50 (horário da Costa Leste dos EUA)
Agentes federais atiraram e mataram um morador de Minneapolis de 37 anos, Alex Jeffrey Pretti, por volta das 9h da manhã de sábado, no horário central. Um vídeo compartilhado com o New York Times por uma testemunha e sua advogada, assim como outras gravações publicadas nas redes sociais, documentam a cena violenta, na qual os agentes parecem disparar ao menos 10 tiros em um intervalo de cinco segundos.
As imagens parecem contradizer a versão do Departamento de Segurança Interna (D.H.S., na sigla em inglês), que afirmou que o confronto começou depois que um indivíduo armado com uma pistola se aproximou dos agentes federais com a intenção de “massacrá-los”.
48 segundos antes dos tiros
Vídeos mostram um pequeno grupo de civis parado no meio da rua, onde uma pessoa estava detida no chão; os civis conversam com agentes federais. Pretti parece estar filmando a cena e caminha em direção aos agentes enquanto segura o celular.
Em seguida, um agente empurra dois civis de um lado da rua para o outro, jogando-os em direção a um SUV branco.
28 segundos antes
Pela segunda vez, o agente empurra o civil com a mochila laranja. O civil cai no chão perto do SUV branco.
25 segundos antes
Pretti tenta se colocar entre o agente do D.H.S. e os dois civis. As imagens mostram o mesmo agente borrifando spray de pimenta na direção do rosto de Pretti. (Esse agente mais tarde dispararia contra Pretti.)
Pretti segura o celular com uma das mãos e levanta a outra para se proteger do spray.
23 segundos antes
Pretti parece tentar ajudar o civil com a mochila laranja a se levantar enquanto o agente continua usando spray de pimenta contra o grupo.
17 segundos antes
Vários agentes agarram Pretti, que continua segurando o celular. Outros agentes se aproximam e tentam imobilizá-lo no chão.
11 segundos antes
Pretti está cercado por um grupo de sete agentes, alguns dos quais o derrubaram no chão. Um dos agentes, que usa um casaco cinza, se aproxima de Pretti. As mãos do agente estão vazias enquanto ele se inclina em direção a Pretti, enquanto outros agentes o mantêm ajoelhado. Ao mesmo tempo, outro agente atinge Pretti repetidamente com um frasco de spray de pimenta.
1 segundo antes
Um oitavo agente se junta ao grupo. O agente de casaco cinza parece puxar uma arma próxima ao quadril direito de Pretti. Em seguida, ele começa a se afastar do confronto com a arma.
Ao mesmo tempo, outro agente saca sua arma de fogo e a aponta para as costas de Pretti.
Primeiro tiro
O agente de casaco cinza remove a arma do local. Ela corresponde ao perfil de uma pistola que o D.H.S. afirma pertencer a Pretti. Em seguida, enquanto Pretti está ajoelhado e contido, o agente posicionado diretamente acima dele parece disparar um tiro à queima-roupa. Imediatamente, ele dispara mais três vezes.
O diagrama abaixo mostra a posição dos agentes, de Pretti e de outros civis nesse momento.
Tiros adicionais
Vários agentes se afastaram de Pretti, que desaba no chão. Outro agente — o mesmo que empurrou os civis para a rua e borrifou spray de pimenta em Pretti — saca sua arma e dispara contra Pretti. O primeiro agente também efetua novos disparos. Juntos, eles disparam mais seis tiros contra Pretti enquanto ele permanece imóvel no chão.
Ao menos 10 tiros parecem ter sido disparados em cinco segundos. No momento do décimo tiro, o agente que se afastou levando a arma já havia atravessado a rua.
Pretti é a segunda pessoa a ser baleada e morta por um agente federal em Minnesota nas últimas semanas. As imagens da morte de Pretti em Minneapolis foram publicadas nas redes sociais quase imediatamente após o tiroteio.
O Departamento de Segurança Interna afirmou que o episódio começou depois que um homem se aproximou de agentes da Patrulha de Fronteira portando uma pistola, e que um agente disparou “tiros defensivos”. Outro episódio ocorrido neste mês em Minneapolis, no qual um homem venezuelano foi baleado na perna por um agente federal, também foi caracterizado como “defensivo” pelo departamento.
O governador de Minnesota, Tim Walz, democrata, contestou as alegações dos autoridades federais de que Pretti teria representado uma ameaça. Ele acusou “as pessoas mais poderosas do governo federal” de “distorcer histórias e divulgar imagens”.
O chefe do Departamento de Polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou que Pretti era um cidadão americano sem antecedentes criminais e que possuía uma autorização válida para porte de arma. Pela lei de Minnesota, cidadãos podem portar legalmente uma pistola em público, sem ocultação, desde que tenham permissão.
Assim como no caso do assassinato de Renee Good, autoridades locais e estaduais de Minnesota afirmam que foram impedidas pelo D.H.S. de investigar a morte de Pretti e que tiveram o acesso a provas e informações cruciais bloqueado.
Grandes multidões de manifestantes se reuniram ao longo do sábado no local onde Pretti foi morto. No domingo à tarde, cerca de mil pessoas lotaram a Government Plaza, no centro de Minneapolis, para protestar contra a presença de agentes federais na cidade e exigir justiça para Good e Pretti.
Essa reportagem foi publicada originalmente no NY Times.
Thomas Gibbons-Neff e Jazmine Ulloa contribuíram com a reportagem.