Documentos analisados pelo Estado de S. Paulo indicam que o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tinha conhecimento dos graves problemas financeiros enfrentados pelo Banco Master enquanto esteve à frente da autoridade monetária, mas optou por não intervir de forma direta na instituição naquele momento. A estratégia adotada foi buscar uma solução de mercado, baseada na separação entre ativos considerados saudáveis e aqueles classificados como problemáticos, mesmo diante de sinais persistentes de fragilidade.
Ao longo de 2024, o Banco Master passou a apresentar um quadro crescente de deterioração financeira. Relatórios internos e documentos de supervisão do Banco Central apontaram problemas recorrentes de liquidez, inconsistências contábeis e falhas relevantes nos mecanismos de gerenciamento de risco. A instituição também enfrentava dificuldades para honrar compromissos de curto prazo, o que acendeu alertas no sistema de monitoramento do regulador.
Diante desse cenário, o Banco Central intensificou a supervisão sobre o Master, elevando o nível de acompanhamento e exigindo informações adicionais da administração do banco. Ainda assim, segundo os registros analisados pelo Estadão, Campos Neto teria atuado em ao menos duas ocasiões para evitar a decretação da liquidação da instituição durante sua gestão.
A avaliação predominante à época era de que uma intervenção imediata poderia gerar efeitos colaterais indesejados sobre o sistema financeiro, especialmente em um contexto de mercado ainda sensível. A aposta do então presidente do Banco Central foi em uma solução negociada, conduzida pelo próprio mercado, que permitisse isolar os ativos problemáticos e preservar a parte considerada viável do banco.
Estratégia buscava minimizar impactos sistêmicos
A ideia central da estratégia era evitar um processo abrupto de liquidação, considerado a medida mais extrema no arsenal regulatório. Em seu lugar, o Banco Central estimulou alternativas que envolviam reestruturação, reorganização societária e possíveis negociações com outras instituições financeiras interessadas em assumir parte das operações do Banco Master.
Esse tipo de abordagem, segundo técnicos ouvidos pelo jornal, costuma ser adotado quando há avaliação de que o banco ainda possui ativos capazes de sustentar uma reorganização e quando se busca reduzir riscos de contágio para o sistema financeiro. No entanto, no caso do Master, os sinais de deterioração continuaram a se acumular.
Mesmo com o monitoramento reforçado, as medidas não foram suficientes para estancar a perda de liquidez nem corrigir as falhas estruturais identificadas. O banco continuou apresentando dificuldades operacionais, o que aumentou a preocupação de técnicos do Banco Central ao longo do tempo.
Deterioração avançou apesar do acompanhamento
Documentos internos mostram que, ao longo de 2024, o Banco Central estava ciente de irregularidades contábeis e de problemas no controle de riscos da instituição. Esses fatores, somados à baixa capacidade de geração de caixa, indicavam um quadro de fragilidade que se mantinha, apesar das tentativas de solução negociada.
Ainda assim, a decisão foi manter a aposta em uma saída de mercado, postergando a adoção de medidas mais duras. A avaliação interna era de que havia espaço para uma solução menos traumática, desde que o banco conseguisse avançar na reorganização de seus ativos e passivos.
Esse cenário começou a mudar ao longo de 2025, quando a situação financeira do Banco Master se tornou ainda mais crítica. As alternativas de mercado perderam viabilidade, e os riscos associados à continuidade das operações passaram a ser considerados elevados demais.
Liquidação ocorreu sob nova gestão no BC
A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada apenas em novembro de 2025, já sob a presidência de Gabriel Galípolo no Banco Central. A decisão marcou o desfecho de um processo que se arrastava havia meses e colocou em evidência as escolhas feitas durante a gestão anterior.
Com a liquidação, o Banco Central assumiu o controle da instituição, interrompeu suas atividades e deu início ao processo de apuração de responsabilidades, proteção de credores e organização dos ativos remanescentes. O episódio reacendeu o debate sobre o momento adequado para a intervenção do regulador em crises bancárias e sobre os limites da aposta em soluções de mercado.
Especialistas em regulação financeira avaliam que a experiência do Banco Master ilustra o dilema enfrentado por autoridades monetárias: agir cedo demais pode gerar custos desnecessários e instabilidade, enquanto agir tarde demais pode ampliar prejuízos e comprometer a confiança no sistema.
Debate sobre atuação do regulador ganha força
O caso também trouxe à tona discussões sobre a governança do sistema financeiro e o papel do Banco Central na prevenção de crises. A postergação da liquidação, mesmo diante de sinais claros de fragilidade, passou a ser analisada sob a ótica da responsabilidade regulatória e da transparência das decisões.
Embora a estratégia de buscar uma solução de mercado seja reconhecida como uma ferramenta legítima, o desfecho do Banco Master levanta questionamentos sobre sua eficácia em situações de deterioração prolongada. A diferença de abordagem entre a gestão de Roberto Campos Neto e a de Gabriel Galípolo tende a ser examinada com atenção por analistas, parlamentares e órgãos de controle.
À medida que investigações e análises avançam, o episódio do Banco Master deve seguir como referência no debate sobre regulação bancária no Brasil, especialmente no que diz respeito ao equilíbrio entre prudência, intervenção tempestiva e preservação da estabilidade do sistema financeiro.


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