A chamada “superquarta” marca, nesta quarta-feira (28), as primeiras decisões de política monetária de 2026 no Brasil e nos Estados Unidos. Ao longo do dia, os dois principais bancos centrais do continente americano divulgam seus vereditos sobre as taxas de juros, em um ambiente no qual a expectativa majoritária do mercado é de estabilidade tanto da Selic quanto dos juros básicos norte-americanos.
Nos Estados Unidos, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) anuncia às 16h (horário de Brasília) a decisão sobre a taxa básica de juros. Na sequência, às 16h30, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, concede entrevista coletiva para detalhar os argumentos que embasaram a deliberação. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve divulgar sua decisão por volta das 18h30.
Analistas de mercado projetam que não haverá mudanças nas taxas nos dois países. No caso brasileiro, a Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025, após uma sequência de elevações que levou a taxa ao maior patamar desde 2016. Nos Estados Unidos, os juros permanecem na faixa entre 3,5% e 3,75%, após o corte promovido pelo Fed em dezembro do ano passado.
As expectativas estão refletidas nos indicadores de mercado. O Sistema Expectativas de Mercado, levantamento semanal do Banco Central do Brasil, mostra que a mediana das projeções aponta para a manutenção da Selic nesta reunião. Já nos Estados Unidos, a ferramenta CME FedWatch indica que 96,1% dos agentes precificam a estabilidade dos juros, enquanto apenas 3,9% ainda apostam em um novo corte.
Cenário brasileiro indica cautela do Copom
No Brasil, a leitura predominante é de continuidade da política monetária restritiva. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem reiterado em declarações públicas que eventuais mudanças na taxa básica dependerão da evolução dos dados econômicos, especialmente inflação, atividade e mercado de trabalho.
Indicadores recentes apontam que a economia segue operando com grau elevado de aquecimento. A taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos, sinalizando um mercado de trabalho resiliente. Ao mesmo tempo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresenta trajetória gradual de convergência em direção ao centro da meta de inflação, ainda que com núcleos pressionados em alguns segmentos.
Outro fator considerado pelos analistas é o comportamento do câmbio. Após períodos de volatilidade ao longo de 2025, o dólar mostra sinais de acomodação no mercado doméstico, reduzindo parte das pressões inflacionárias importadas.
Em relatório, economistas do Santander avaliam que o quadro atual é semelhante ao observado em dezembro de 2025, quando o Copom manteve a Selic em 15% pela quarta reunião consecutiva. Segundo a instituição, a combinação de sinais mistos da economia reforça a tendência de manutenção da taxa básica nesta superquarta, à espera de evidências mais claras que justifiquem uma mudança de rumo.
Fed decide juros em meio a ambiente político sensível
Nos Estados Unidos, a decisão do Fed ocorre em um contexto de maior ruído institucional. O processo é acompanhado por uma investigação criminal aberta pelo governo do presidente Donald Trump envolvendo o presidente do banco central, Jerome Powell. Além disso, há especulações sobre a possível saída da diretora Lisa Cook e sobre a proximidade da indicação de um sucessor para Powell, cujo mandato termina em maio.
Na terça-feira, primeiro dia das reuniões do Fomc, Trump voltou a afirmar que pretende anunciar em breve o nome que indicará para a presidência do Fed. As declarações reacenderam debates sobre a independência da autoridade monetária norte-americana, tema que tem sido acompanhado de perto por investidores e analistas internacionais.
Apesar do ambiente político conturbado, o mercado financeiro não tem demonstrado sinais claros de perda de confiança. As expectativas de inflação extraídas de ativos financeiros permanecem relativamente ancoradas, e os rendimentos dos títulos de longo prazo do Tesouro dos Estados Unidos não indicam temor generalizado sobre mudanças abruptas na condução da política monetária.
Para Tim Duy, economista-chefe para os Estados Unidos da SGH Macro Advisors, o contexto institucional é um elemento relevante na análise dos próximos passos do Fed. “Não é possível considerar as ações do próximo presidente do Fed como algo separado do ambiente econômico ou da capacidade de influenciar outros participantes do Fomc”, afirmou.
Olhar do mercado segue atento aos sinais futuros
Embora a expectativa seja de manutenção das taxas nesta superquarta, investidores acompanham com atenção o tom dos comunicados e, no caso dos Estados Unidos, as declarações de Jerome Powell. No Brasil, o texto do comunicado do Copom será analisado em busca de sinais sobre o balanço de riscos e eventuais mudanças na avaliação do cenário inflacionário.
Nos dois países, a política monetária segue condicionada à evolução dos dados ao longo de 2026. No curto prazo, a superquarta tende a confirmar a estratégia de cautela adotada pelos bancos centrais, em um ambiente marcado por incertezas econômicas, desafios institucionais e necessidade de preservação da credibilidade das autoridades monetárias.