Projetos em desenvolvimento devem aumentar a capacidade global em quase 50%, em meio à crescente preocupação com o impacto no planeta
Os Estados Unidos estão liderando um crescimento recorde global na geração de energia a gás natural, movimento impulsionado pela explosão da demanda por inteligência artificial e que pode elevar a capacidade mundial do combustível fóssil em quase 50%. O avanço, porém, tem um alto preço para o clima, ameaçando intensificar a crise climática.
De acordo com um novo relatório da organização Global Energy Monitor (GEM), os projetos em desenvolvimento devem bater o recorde anual de novas instalações a gás em 2026. Somente nos EUA, a capacidade planejada triplicou em 2025, com o país sendo responsável por quase um quarto de toda a expansão global, à frente de China, Vietnã, Iraque e Brasil.
O motor principal desse boom é a insaciável demanda por eletricidade dos data centers de IA. Um terço dos 252 gigawatts (GW) de capacidade a gás em desenvolvimento no mundo está previsto para alimentar essas instalações. O Texas é o epicentro nos EUA, com 57,9 GW em construção no ano passado.
Impacto climático e custos elevados
Se todos os projetos em desenvolvimento nos EUA forem concluídos, eles emitirão 12,1 bilhões de toneladas de CO₂ ao longo de sua vida útil — o dobro das emissões anuais atuais do país. Globalmente, o impacto pode chegar a 53,2 bilhões de toneladas.
“Investir em novas usinas a gás para atender à demanda incerta de energia da IA significa incorporar décadas de poluição”, alertou Jenny Martos, da GEM.
O crescimento desenfreado também pressiona os custos. Apesar da promessa do presidente Donald Trump de reduzir as contas de luz, a demanda elevou os preços da energia para muitas famílias. Especialistas apontam que a política de bloquear projetos de energia limpa e expandir exportações de gás natural liquefeito contribui para esse cenário.
Reação pública e contradições
A expansão enfrenta resistência local devido aos custos energéticos e ao alto consumo de água dos data centers, criando um dilema político. Recentemente, Trump declarou em Davos que a demanda por IA exigiria “mais que o dobro da energia” atual do país, e prometeu que grandes empresas de tecnologia “pagarão do próprio bolso” pela infraestrutura, sem detalhar o plano.
Enquanto isso, projetos controversos avançam. No oeste da Pensilvânia, uma antiga usina a carvão deve ser reativada como a maior instalação a gás do país para suprir um campus de data centers, dividindo a comunidade local entre a nostalgia dos empregos do passado e o temor de novos impactos ambientais.
“Não há como isso não afetar os preços da energia. Existe uma enorme preocupação pública”, disse Tom Pike, do Clean Air Council.
Enquanto o mundo busca acelerar a transição para energias renováveis, os EUA, sob a retórica de liderança em IA, estão apostando em um futuro que pode prender o país — e o planeta — a décadas de emissões de combustíveis fósseis.
Com informações do The Guardian em 29/01/2026