As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master avançaram e passaram a envolver um novo e sensível elemento: indícios de vínculos entre o esquema sob apuração e políticos com foro por prerrogativa de função. Com isso, parte do inquérito deverá permanecer no Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto outros desdobramentos podem seguir na primeira instância da Justiça Federal, segundo informações da Folha de S.Paulo.
Os novos achados surgiram a partir da análise de provas reunidas na primeira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro do ano passado, que teve como principal alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. De acordo com investigadores, a quebra de sigilos, a apreensão de documentos e o acesso ao telefone celular de Vorcaro revelaram menções recorrentes a lideranças partidárias e autoridades de alto escalão, o que acendeu o alerta na Polícia Federal.
Menções políticas não integram núcleo central da fraude
Segundo a avaliação inicial dos investigadores, essas referências a políticos não estariam diretamente ligadas ao núcleo principal do inquérito, que apura a fabricação de carteiras fraudulentas de crédito consignado, a captação irregular de recursos por meio de CDBs e a tentativa de venda do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília).
Foi justamente esse conjunto de suspeitas que embasou a decisão da Justiça Federal do Distrito Federal de autorizar a operação em 18 de novembro, data em que também foi decretada a liquidação do Banco Master. Ainda assim, a presença de nomes do meio político nos materiais apreendidos levou a PF a ampliar o escopo das análises para verificar se houve participação, favorecimento ou omissão por parte de autoridades.
Rede de relações políticas em Brasília
Daniel Vorcaro tornou-se uma figura conhecida nos bastidores de Brasília nos últimos anos. Segundo investigadores e relatos colhidos durante a apuração, o ex-banqueiro mantinha uma extensa rede de relações políticas, promovendo encontros frequentes em uma mansão na capital federal, onde circulavam empresários, parlamentares e operadores do mercado financeiro.
Desde que Vorcaro passou a ser investigado, essas conexões têm provocado desconforto entre autoridades e alimentado receios na classe política quanto à exposição de vínculos pessoais e financeiros mantidos com o ex-controlador do banco. Nos bastidores da Polícia Federal, o alcance potencial dessas relações chegou a ser comparado, em termos de impacto político, ao de grandes investigações do passado, como a Operação Lava Jato, que atingiu diversos partidos e desencadeou movimentos para tentar conter o avanço das apurações.
Segunda fase já tramita no STF
Os novos indícios se somam às informações coletadas na segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro deste ano. Essa etapa apura o suposto uso de fundos de investimento administrados pela gestora Reag para desviar recursos captados pelo Banco Master por meio da venda de CDBs a investidores.
Essa fase da investigação passou a tramitar sob a supervisão do STF, por determinação do ministro Dias Toffoli, após a defesa de Vorcaro alegar a existência de menções ao deputado João Bacelar (PL-BA), que possui foro especial. Investigadores, contudo, ressaltam que Bacelar não é foco central das apurações neste momento, embora seu nome conste nos materiais analisados.
Além dele, há referências a outros parlamentares do Congresso Nacional, cujas situações ainda estão sendo avaliadas individualmente para verificar se há elementos que justifiquem a abertura de procedimentos específicos.
Defesa tenta minimizar peso das conexões
Em depoimento prestado à Polícia Federal no fim de dezembro, Daniel Vorcaro tentou minimizar a relevância de suas relações com autoridades. Segundo ele, as dificuldades enfrentadas nos últimos meses demonstrariam que não houve interferência política a seu favor.
“Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”, afirmou.
Possível desmembramento do inquérito
Diante do surgimento de autoridades com foro especial, a Polícia Federal trabalha com a possibilidade de desmembramento do caso. A tendência é que a investigação sobre a estrutura fraudulenta do Banco Master, considerada mais avançada, seja enviada à primeira instância, enquanto os trechos que envolvem políticos com prerrogativa de foro permaneçam no STF.
Nas últimas semanas, ministros da Suprema Corte iniciaram discussões internas sobre a conveniência de transferir parte do processo para instâncias inferiores, como forma de reduzir a pressão institucional sobre o tribunal. Esse debate ganhou força após a divulgação de informações sobre conexões comerciais envolvendo familiares de ministros e negócios ligados ao Banco Master, o que ampliou o desgaste público.
Pressão sobre o STF e questionamentos ao sigilo
O relator do caso, ministro Dias Toffoli, tem sido alvo de questionamentos pelo elevado grau de sigilo imposto às investigações. O debate se intensificou após vir a público a relação comercial de dois irmãos do ministro com um fundo controlado pelo cunhado de Vorcaro, ligado ao resort Tayayá, no Paraná.
Em meio ao desgaste, o presidente do STF, Edson Fachin, chegou a afirmar ao G1 que havia “uma tendência, pelo que se verifica até agora”, de que o caso deixasse a Corte. A identificação de indícios envolvendo políticos, porém, tende a reconfigurar essa estratégia, mantendo ao menos parte do inquérito sob a supervisão do Supremo.
Próximos passos
A investigação que pode ser remetida ao primeiro grau, focada na fabricação de carteiras fraudulentas e em crimes financeiros atribuídos ao Banco Master, encontra-se em estágio avançado e deve ser concluída em breve. A Polícia Federal prepara um relatório final detalhando os indícios e responsabilidades dos principais investigados.
Já a frente que envolve políticos com foro especial permanece como uma incógnita institucional, cercada de expectativa e apreensão. Entre pessoas próximas ao caso, persiste o temor de que pressões políticas acabem freando o avanço das apurações no STF, mantendo o Banco Master no centro de um dos debates mais delicados do cenário político e jurídico atual.


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