O Carnaval do Rio não nasceu hétero, ordeiro nem “família tradicional brasileira”
Por Rollo — criado na rua, formado na memória, vacinado contra camarote que acha que inventou o samba. Escreve porque lembrar é uma forma de resistência e porque festa sem quem a criou é só cenário bonito com alma terceirizada
Nasceu viado, preto, barulhento e perigoso — exatamente por isso tão vivo. Antes de virar camarote premium com dress code “tropical chic” e pulseira que custa um salário mínimo, era corpo na rua, suor misturado, fantasia improvisada e desejo sem pedir autorização ao síndico da moral. Quem estava ali não desfilava só fantasia: desfilava existência. Ler a história do Carnaval é entender como uma festa criada por quem nunca teve lugar acabou virando palco para quem sempre teve — e por que lembrar disso hoje não é lacração, é memória. Se você já sentiu que essa festa também é sua, mesmo quando tentam te empurrar para fora dela com corda, catraca e olhar torto, vem comigo. Isso aqui não é nostalgia. É pertencimento com glitter crítico.
O Carnaval do Rio não nasceu hétero, ordeiro nem “família tradicional brasileira”. Nasceu viado, preto, barulhento e perigoso — exatamente por isso tão vivo. Antes de virar camarote premium com dress code “tropical chic” e pulseira que custa um salário mínimo, era corpo na rua, suor misturado, fantasia improvisada e desejo sem pedir autorização ao síndico da moral. Quem estava ali não desfilava só fantasia: desfilava existência. Ler a história do Carnaval é entender como uma festa criada por quem nunca teve lugar acabou virando palco para quem sempre teve — e por que lembrar disso hoje não é lacração, é memória. Se você já sentiu que essa festa também é sua, mesmo quando tentam te empurrar para fora dela com corda, catraca e olhar torto, vem comigo. Isso aqui não é nostalgia. É pertencimento com glitter crítico.
Quando sambar era crime e existir era afronta
Antes mesmo de virar escola, enredo ou nota de jurado, o Carnaval já era abrigo — e não para qualquer corpo. Os viados sempre estiveram no centro da festa. Bichas pretas, afeminados, travestis, transformistas e dissidentes encontravam no Carnaval o único período do ano em que podiam existir em volume máximo, exagerado, insolente. A fantasia não era só brincadeira: era escudo, era manifesto, era estratégia de sobrevivência. O deboche, o rebolado, o excesso, o brilho ofensivo à moral sempre foram linguagem política viada, muito antes de virarem “diversidade” em camarote patrocinado. Enquanto a ordem tentava enquadrar o samba, eram os viados que ensinavam à festa o valor do escândalo, da performance e da liberdade radical do corpo. Se hoje o Carnaval é espetáculo, é porque antes foi afronta — e essa afronta tinha salto alto, purpurina e voz fina ecoando no asfalto.
O Carnaval do Rio de Janeiro não nasceu pronto, nem elegante, nem “apresentado por um grande banco”. Ele nasceu confuso, barulhento, às vezes malcheiroso — e perigosamente preto. Antes de virar logomarca, foi problema urbano. Surgiu da colisão entre o samba que brotava nos quintais da Pequena África, nas casas das tias baianas, nos terreiros, nos cortiços do Centro, da Zona Portuária e, principalmente, do Estácio e suas adjacências, e o Carnaval de rua — entrudos, cordões, ranchos e blocos. Como deixa claro Paulo Lins em Desde que o Samba é Samba, aquilo não era lazer: era estratégia de sobrevivência. Quem sambava não estava “se divertindo”; estava dizendo “eu existo” numa cidade que criminalizava corpos negros com a mesma eficiência com que alargava avenidas para expulsar pobres.
No início do século XX, o Rio queria ser Paris. E, como toda elite colonizada, decidiu que para parecer europeu precisava apagar qualquer vestígio de África. O entrudo — aquela farra sem pudor de jogar água, farinha, laranja podre, urina e o que mais estivesse à mão — já incomodava desde o Império. Mas o que realmente apavorava não era a sujeira: era a organização negra. Cordões e ranchos desfilavam com estandartes, cores, cantos, regras internas e liderança própria. Isso, para o poder, era inadmissível. A polícia entrava quebrando instrumentos, prendendo sambistas e usando letras de música como prova de “vadiagem”. Em certos bairros, carregar um pandeiro era praticamente um pedido formal de condução coercitiva. Crime não era o ato. Era o corpo.
É nesse ambiente hostil que surgem as escolas de samba — e o nome não é poesia, é método. “Escola” significava disciplina, proteção e código interno. No Estácio, jovens negros e pobres reinventam o samba, criando uma batida mais forte, mais reta, feita para andar. A tradição — que faz todo sentido — diz que a mudança rítmica tinha uma função prática: desfilar sem perder o compasso enquanto se fugia da polícia. O samba precisava correr, porque a repressão vinha logo atrás. Ali surgem Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide e outros gênios que transformam o samba em linguagem urbana, coletiva, de rua larga — não mais restrita ao quintal.
Essas escolas eram extensões diretas dos terreiros de candomblé e umbanda. A organização em alas lembrava a divisão ritual. O mestre da bateria tinha autoridade de ogã. O desfile seguia uma lógica espiritual, corporal e coletiva. E, quando a repressão apertava, a criatividade fazia hora extra. Instrumentos escondidos em sacos de pão. Ensaios disfarçados de festas de batizado. Rodas de samba que viravam “reunião de família” em segundos quando a polícia dobrava a esquina. Imagens de santos católicos estrategicamente posicionadas para “acalmar” a fiscalização. Sincretismo religioso? Sim. Mas, sobretudo, sincretismo tático. Sobreviver também é uma arte.
Durante décadas, o samba foi tratado como patologia social. Mas o povo insistiu. E venceu — parcialmente. Quando o Estado percebeu que não conseguiria exterminar a festa, resolveu enquadrá-la. A partir dos anos 1930, o samba deixa de ser crime e vira símbolo nacional. Getúlio Vargas descobre que aquele ritmo “suspeito” rendia discurso de brasilidade. O preço da aceitação? Regulamento. Surgem concursos oficiais, jurados, quesitos, notas, tempo cronometrado. A roda vira fila. O improviso vira erro. A escola passa a desfilar menos para a comunidade e mais para agradar avaliadores com prancheta e cara de quem nunca suou numa avenida.
Com o rádio e, depois, a televisão, a transformação acelera. O desfile deixa de ser vivência e vira espetáculo. As escolas crescem, se profissionalizam e passam a depender de patrocínios, verbas públicas e alianças políticas. Sambas-enredo suavizados para não “pegar mal”. Temas históricos desidratados. Alas refeitas porque “não funcionavam na câmera”. O samba começa a ser pensado menos para quem desfila e mais para quem assiste sentado, de longe, com copo cheio e consciência vazia.
Da roda ao regulamento: como a rua virou espetáculo
Nos anos 1980, o Sambódromo sela o pacto definitivo. O Carnaval vira produto internacional. As escolas passam a operar como empresas culturais, com presidentes poderosos, carnavalescos-celebridade, barracões industriais e orçamentos milionários. A comunidade continua sendo o motor — costura, empurra carro, toca bateria, canta até perder a voz —, mas cada vez mais distante das decisões e, curiosamente, do dinheiro. Surgem camarotes vips, áreas exclusivas, ingressos proibitivos. O povo cria. A elite consome. E ainda chama isso de “democratização da cultura”.
Quem criou a festa ainda espera convite para o camarote
Hoje, o Carnaval do Rio é vendido como “o maior espetáculo da Terra”. E é. Mas a pergunta que não cabe no slogan segue ecoando: espetáculo para quem? A estética negra é exaltada. A cultura negra é explorada. A vida negra segue negociável. O dinheiro gira em cifras obscenas, mas sobe pouco o morro. O samba embala propaganda de banco, cerveja e operadora de celular. Todo mundo quer o ritmo. Pouquíssimos querem o ritmista — ou a bicha — no centro da decisão.
Nada disso é acaso. O Carnaval não foi “naturalmente” apropriado pela elite branca. Ele foi capturado, embalado, vendido e revendicado como produto premium. O que nasceu como insurgência virou ativo econômico. O batuque que assustava virou trilha sonora de área vip. E, ainda assim — apesar de todo o esforço para embranquecer, higienizar e heteronormatizar a festa — o samba resiste. Porque tem memória. Porque tem corpo. Porque tem ancestralidade. E porque sempre houve, desde o começo, uma dimensão viada, dissidente, exagerada e indomável que nunca coube no figurino oficial.
Entender essa história não é exercício de nostalgia nem desabafo melancólico — é um chamado à ação. Reverenciar o Carnaval hoje é virar o jogo: é tirar quem o criou da função de figurante exausto e colocá-lo no centro do espetáculo que sempre foi seu. Não dá mais para aceitar que corpos negros, pobres, sigam empurrando alegoria enquanto outros brindam ao som do samba que nunca suaram para inventar.
Se o Carnaval é patrimônio, seus criadores têm direito ao comando, ao lucro, ao conforto e ao brilho — não por concessão, mas por origem. Carnaval justo é aquele em que quem fez a festa ocupa o trono, escreve as regras e dança sem corda, sem catraca e sem pedir licença. O resto é só fantasia cara tentando esconder uma dívida histórica.
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.