A prisão de Rodrigo Bacellar desmontou abruptamente a articulação bolsonarista para a sucessão do governador Cláudio Castro e reorganizou o tabuleiro político do Rio de Janeiro.
Bacellar, deputado estadual pelo União Brasil, era uma das figuras mais poderosas da política fluminense. No comando da Assembleia Legislativa (Alerj), concentrava capacidade de articulação com deputados, prefeitos e lideranças regionais, e era tratado como peça-chave na sucessão do governador.
Apesar de Bacellar não ter sido cassado eleitoralmente, e de sua prisão não ter sido autorizada pela Alerj, o dano político o deixou fora do jogo.
O episódio foi digno da tradição carioca de misturar as altas esferas da política com as altas esferas do crime. Segundo as investigações, o então presidente da Alerj é acusado de repassar informações sigilosas de uma operação policial a integrantes do Comando Vermelho, alertando alvos e interferindo nas apurações.
Com Bacellar fora de cena, a presidência da Alerj passou a ser exercida interinamente por Guilherme Delaroli, deputado do PL e irmão do prefeito de Itaboraí, Marcelo Delaroli. Ao assumir o comando da Casa, Delaroli passou a concentrar o chamado “poder da caneta” num momento decisivo, em que definições administrativas e regimentais interferem diretamente no processo sucessório.
Reportagens recentes do jornal O Dia descrevem um ambiente de pauta esvaziada e foco quase exclusivo nas articulações políticas ligadas à sucessão estadual.
Esse rearranjo ocorre no momento em que o governador Cláudio Castro se prepara para deixar o cargo a fim de disputar o Senado. O estado não tem vice-governador — Thiago Pampolha foi indicado ao Tribunal de Contas —, o que coloca na mesa a possibilidade de uma eleição indireta para o chamado mandato-tampão. A condução desse processo passa pela Alerj, o que explica a centralidade adquirida pela Assembleia no jogo político fluminense.
Com a vacância do governo e a inexistência de vice-governador, a Constituição determina que o chefe do Executivo seja escolhido por votação indireta da Assembleia Legislativa. Qualquer cidadão com domicílio eleitoral no estado pode, em tese, ser candidato ao cargo. Nos bastidores da Alerj, cresce a movimentação para eleger o deputado estadual André Ceciliano (PT) como governador do mandato-tampão.
Secretário de Assuntos Parlamentares e um dos políticos mais próximos do presidente Lula no Rio de Janeiro, Ceciliano tem chances reais de vencer a eleição indireta, segundo analistas experientes: ex-presidente da Alerj, é muito respeitado entre os deputados estaduais.
Caso isso aconteça, seria mais uma reviravolta na política fluminense — e mais uma derrota para o bolsonarismo, já que Ceciliano passaria a controlar a máquina do governo estadual às vésperas da eleição de 2026. Informação exclusiva do Cafezinho indica que ele tem dito a pessoas próximas que, caso venha a ser eleito, pretende disputar o governo pelo voto popular, enfrentando Eduardo Paes.
Minha avaliação, porém, é de que essas declarações funcionam mais como um blefe político — uma forma de pressionar Eduardo Paes para dar mais espaço ao presidente Lula em sua campanha, já que a situação política no estado indica que Lula vai precisar mais de Paes do que Paes vai precisar de Lula.
É a partir desse cenário meio caótico que se iniciam as articulações pela conquista do Palácio Guanabara.
Um artigo do cientista político carioca Teófilo Rodrigues, publicado em fevereiro de 2026 no Guia Lappcom – Eleições Gerais de 2026, oferece uma leitura organizada do tabuleiro. O Guia Lappcom é uma publicação do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, coordenado pela cientista política Mayra Goulart, e tem se consolidado como referência na análise da política fluminense.
De um lado, há um conjunto de prefeitos e lideranças locais com forte enraizamento regional: Washington Reis (Duque de Caxias), Dr. Luizinho (Nova Iguaçu), Wladimir Garotinho (Campos dos Goytacazes), Marcio Canella (Belford Roxo) e os irmãos Delaroli (Itaboraí).
Nesse grupo também se insere Douglas Ruas, secretário estadual das Cidades, deputado estadual licenciado e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson. Ruas combina força territorial, capilaridade administrativa e proximidade com o bolsonarismo, o que o torna um nome relevante nas articulações do grupo político de Cláudio Castro.
São lideranças com alta capacidade de mobilização local, mas que operam de forma dispersa, funcionando mais como forças de negociação do que como um comando unificado capaz de sustentar uma candidatura estadual dominante.
O Rio de Janeiro segue como o principal reduto eleitoral da extrema direita no país. Em 2018, Jair Bolsonaro obteve 67,95% dos votos válidos no segundo turno no estado. Em 2022, manteve a liderança, com 56,53%, contra 43,47% de Lula. A redução da vantagem bolsonarista foi puxada principalmente pela capital.
Na cidade do Rio, esse movimento ficou evidente. Em 2018, Fernando Haddad obteve cerca de 32% dos votos válidos no segundo turno. Em 2022, Lula alcançou 47,34%, reduzindo a derrota para o bolsonarismo para cerca de cinco pontos percentuais. Trata-se de um deslocamento relevante no maior colégio eleitoral do estado, que concentra aproximadamente 38% do eleitorado fluminense.
O bolsonarismo tentou reagir na eleição municipal de 2024, lançando como principal aposta na capital o deputado federal Alexandre Ramagem (PL), ex-diretor da Abin no governo Bolsonaro. O resultado foi uma derrota expressiva: Eduardo Paes (PSD) foi reeleito prefeito com cerca de 60% dos votos válidos, enquanto Ramagem ficou em torno de 31%. Atualmente, Ramagem se encontra fora do país após condenação pelo Supremo Tribunal Federal, tornando-se mais um símbolo das dificuldades do bolsonarismo em construir uma alternativa competitiva ao governo do Rio.
Em meio a esse cenário fragmentado, Eduardo Paes ocupa uma posição singular. Prefeito do Rio, Paes concentra os votos do maior colégio eleitoral do estado, mantém capacidade de diálogo com o centro, relações consolidadas com a esquerda institucional e canais abertos com setores da direita pragmática.
Esse lugar central impõe a Paes um dilema estratégico diante do bolsonarismo. Uma possibilidade passa por acomodar parte desse eleitorado com acenos conservadores. A outra passa por preservar seu perfil político: liberal mas não conservador, com boas relações com o PT e a esquerda em geral, ainda que com maior distância do PSOL (que lhe faz oposição na Câmara dos Vereadores). A nomeação de Elias Jabbour, membro do Comitê Central do PCdoB, para a presidência do Instituto Pereira Passos exemplifica o caráter ideologicamente eclético da administração Paes.
Antes da prisão de Bacellar, Cláudio Castro administrava uma disputa interna pelo controle da máquina do Estado e pela chefia do grupo político. O embate envolvia o próprio governador, o então vice-governador Thiago Pampolha e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Pampolha foi neutralizado politicamente com a indicação ao Tribunal de Contas do Estado — um movimento clássico de “cair para cima”, já que o cargo no TCE combina estabilidade, prestígio e remuneração elevada.
Em seguida, Castro passou a sinalizar Bacellar como seu candidato à sucessão no Palácio Guanabara, encerrando aquela disputa interna.
Agora, o jogo zerou.
A direita fluminense, que não deve ser subestimada, ainda não bateu o martelo em relação à sua estratégia eleitoral. A cada dia que passa, porém, crescem as chances de Eduardo Paes vencer a disputa — inclusive no primeiro turno.
Levantamento do instituto Real Time Big Data, realizado no início de dezembro de 2025, apontou Paes com 55% das intenções de voto, contra 14% de Rodrigo Bacellar — números colhidos antes da prisão do então presidente da Alerj.