Master tinha menos de 1% dos depósitos compulsórios exigidos pelo BC no dia da liquidação

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No dia em que teve sua liquidação extrajudicial decretada, em novembro de 2025, o Banco Master mantinha apenas R$ 22,9 milhões depositados no Banco Central a título de compulsórios. O valor representava menos de 1% do total de R$ 2,537 bilhões exigido pela autoridade monetária ao conglomerado controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, evidenciando um quadro extremo de insuficiência de liquidez no momento da intervenção.

As informações constam de documentos do Banco Central do Brasil encaminhados ao Tribunal de Contas da União (TCU) e foram reveladas inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo. Uma reportagem complementar da Folha de S.Paulo detalhou a sequência de descumprimentos registrados ao longo de 2025 no recolhimento obrigatório exigido das instituições financeiras.

Escalada de irregularidades ao longo de 2025

Segundo os documentos analisados, a deterioração da situação financeira do Banco Master não ocorreu de forma abrupta, mas seguiu uma trajetória progressiva. Desde novembro de 2024, a instituição passou a apresentar episódios recorrentes de insuficiência no recolhimento de depósitos compulsórios, mecanismo fundamental utilizado pelo Banco Central para regular a liquidez do sistema financeiro e reduzir riscos sistêmicos.

Ao longo de 2025, esses descumprimentos se tornaram mais frequentes e envolveram valores cada vez mais elevados. Em maio daquele ano, a situação atingiu um ponto crítico. No dia 8 de maio, o Banco Master formalizou um pedido ao Banco Central para obter dispensa temporária do recolhimento compulsório incidente sobre depósitos à vista e a prazo.

O pleito, no entanto, foi negado. De acordo com o Banco Central, não havia amparo legal ou regulamentar que permitisse conceder tal exceção, mesmo diante da alegação de dificuldades operacionais apresentadas pela instituição.

Alertas formais e risco sistêmico

No mesmo conjunto de documentos enviados ao TCU, o Banco Central afirma que alertou formalmente os dirigentes do Banco Master de que a persistência da irregularidade poderia resultar na adoção de medidas preventivas mais severas. Entre essas medidas, previstas na regulamentação vigente, estão a convocação dos administradores para prestar esclarecimentos por meio de um termo de comparecimento e a exigência de apresentação de um plano corretivo, com prazo de até seis meses para execução.

Segundo um integrante do Banco Central ouvido sob condição de anonimato, a instituição foi alvo de mais de 30 comunicações formais ao longo do período, todas alertando para a necessidade urgente de regularização dos depósitos compulsórios. Apesar dos avisos reiterados, a situação não foi sanada.

Esses alertas reforçam a avaliação de que a autoridade monetária acompanhava de perto a situação do banco e considerava o quadro como potencialmente ameaçador à estabilidade do sistema financeiro, especialmente diante do crescimento acelerado do Master e da complexidade de suas operações.

Liquidação e contexto das investigações

A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada em novembro de 2025, já sob a presidência de Gabriel Galípolo no Banco Central. A medida ocorreu após o agravamento do quadro de liquidez e em meio às investigações conduzidas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras bilionárias envolvendo a instituição.

A tentativa de venda de parte do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), que poderia ter servido como alternativa de mercado para mitigar os problemas, acabou vetada pelo Banco Central meses antes, justamente por preocupações relacionadas à solidez financeira, à qualidade dos ativos e aos riscos envolvidos na operação.

Importância dos depósitos compulsórios

Os depósitos compulsórios representam uma parcela dos recursos captados pelos bancos que deve ser obrigatoriamente mantida no Banco Central. O instrumento é considerado central para a política monetária e para a supervisão prudencial, funcionando como colchão de liquidez e mecanismo de contenção de riscos.

O fato de o Banco Master manter menos de 1% do valor exigido no momento da liquidação é interpretado por técnicos como um sinal inequívoco de colapso operacional. Na prática, a insuficiência compromete a capacidade do banco de honrar obrigações de curto prazo e amplia o risco de efeitos em cadeia sobre outras instituições e sobre o mercado financeiro como um todo.

Debate sobre supervisão e timing da intervenção

A revelação dos dados reacendeu o debate sobre o momento e a forma de atuação do Banco Central diante da crise do Banco Master. Documentos e reportagens indicam que a autoridade monetária tinha conhecimento das fragilidades desde 2024, mas optou inicialmente por intensificar a supervisão e apostar em uma solução de mercado, antes de recorrer à liquidação.

Com a divulgação dos números relativos aos depósitos compulsórios, cresce a pressão por esclarecimentos adicionais no âmbito do TCU e do Congresso Nacional sobre as decisões tomadas, os riscos assumidos e os limites da atuação preventiva do regulador.

O caso do Banco Master passa, assim, a ser visto não apenas como um episódio isolado de colapso bancário, mas como um teste relevante para o modelo de supervisão financeira brasileiro, em um contexto de instituições em rápida expansão, estruturas complexas e elevado grau de interconexão no sistema financeiro.

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