A amargura de Aldo Rebelo

Aldo Rebelo na entrevista a Breno Altman, 2 de fevereiro de 2026

O Aldo Rebelo que vemos na entrevista a Breno Altman revela um político hoje mobilizado mais por afetos do que por um projeto para o Brasil.

Ciro Gomes entrou numa trilha parecida.

Ambos colocaram o sentimento acima da objetividade.

Tanto Aldo quanto Ciro exploram um prestígio acumulado no passado, construído em momentos de protagonismo, mas que hoje serve apenas como forma de se manterem em evidência.

O que os move é, fundamentalmente, a mesma coisa: amargura contra o PT e contra a esquerda que seguiu em frente sem eles.

Há uma diferença em favor de Aldo, contudo. Ele não perdeu a civilidade.

Aldo ainda conversa, ainda dialoga com tudo mundo — inclusive com jornalistas de esquerda, como demonstra a própria entrevista a Breno Altman. Ciro, ao contrário, se isolou. Não concede entrevistas fora de ambientes absolutamente controlados, não se expõe ao contraditório. Quando se manifesta, invariavelmente explode em agressões generalizadas. A maior parte do tempo permanece fechado numa bolha de rancor.

Aldo jamais faria o que Ciro vem fazendo: chamar uma senadora de prostituta, e distribuir acusações de corrupção. Sua civilidade impecável, virtude imprescindível à democracia, permite a Aldo circular amplamente no debate público.

Aldo Rebelo é um político com visibilidade há décadas, mas que nos últimos anos caminha numa penumbra esquisita, sempre flertando com setores reacionários. Isso lhe rende dividendos políticos duvidosos, como a presença de Jair Bolsonaro no lançamento de seus livros.

O preço que ele paga para se manter no jogo político é a manifestação esporádica de um antipetismo forçado e oportunista. Aldo é um profissional que domina certas técnicas de oratória política, baseadas num conhecimento do Brasil que soa às vezes, no entanto, livresco, enviesado, arrogante. Ele confunde conhecimento histórico com decorar fatos, datas, nomes de personagens, anedotas.

A defesa de “um projeto nacional de desenvolvimento” soa como fórmula vazia . Todo governo brasileiro teve um projeto de desenvolvimento. A questão sempre foi, qual projeto, com que instrumentos, com que base social, com que alianças, em favor ou contra quais interesses.

Além disso, um projeto nacional de desenvolvimento que não seja ancorado, antes de qualquer coisa, num projeto político de poder, ou seja, que não ofereça soluções para mobilizarmos as grandes massas e uma parte importante da classe média, que não seja capaz de ganhar eleições, construir maioria parlamentar, e manter estabilidade no país, então não é um projeto sério, e não tem compromisso real com nenhuma transformação social. É apenas uma retórica oportunista, tentando capitalizar cinicamente junto às esperanças e frustrações da sociedade.

Quando pressionado pelo entrevistador a indicar a origem dos recursos para o projeto que defende, Aldo menciona apenas o “investimento privado”, como se existisse algum grupo econômico disposto a financiar, do próprio bolso, um projeto de modernização do Brasil. Isso é uma piada. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época da história, apenas o Estado foi capaz de mobilizar recursos suficientes para transformar a infra-estrutura de países. 

Nos momentos em que é cobrado a assumir posição sobre uma reforma tributária progressiva que permita a recuperação da capacidade de investimento do Estado, cobrando dos mais ricos, Aldo refugia-se na ideia de uma suposta “correlação de forças” desfavorável. Ora, correlação de forças é um dado objetivo para quem governa; em campanha, todavia, o papel do representante político é disputar essa correlação, não se esconder atrás dela.

No tema do agronegócio, Aldo acerta ao provocar o senso comum de parte da esquerda, que ainda o trata como se fosse uma atividade primária atrasada, ignorando sua dimensão industrial. A agricultura brasileira é, hoje, uma agroindústria altamente intensiva em capital, ciência e tecnologia. O agronegócio brasileiro é mais moderno, agrega mais valor, do que muitos setores industriais. Isso não quer dizer que seja justo, que aponte um caminho de emancipação social, que não ofereça desafios ambientais, que não concentre renda. Mas assim também é a indústria.

Mas Aldo não traz esses pontos. Ao invés de atualizar o debate sobre o tema, ele acaba falando como porta-voz dos setores mais atrasados do próprio agronegócio. Sua defesa frequentemente legitima o uso de queimadas, o garimpo ilegal e a devastação florestal, ignorando que os setores mais modernos do agro dependem de certificação ambiental, equilíbrio ecológico e preservação da natureza.

Quando trata de reforma agrária, Aldo cai na armadilha de bater no Movimento Sem Terra, a joia da coroa dos nossos movimentos sociais.

Ao classificar o MST como um movimento essencialmente partidário, ele escorrega na antipolítica, como se fosse possível fazer política no Brasil sem exercer pressão e influência sobre as grandes agremiações. Ou pior, como se fazer política partidária fosse algo negativo.

Reforma agrária hoje não é apenas terra, mas sobretudo logística, crédito, tecnologia, acesso a mercado. Uma política séria nessa área passa, necessariamente, por infraestrutura, especialmente a construição de ferrovias para escoamento da produção. Sem isso, pequenos produtores seguem condenados à inviabilidade econômica.

É exatamente nesse sentido que devemos enaltecer o papel do MST, movimento pioneiro na produção de arroz orgânico certificado, e um dos articuladores da construção, no Brasil, de um polo industrial de fabricação de tratores voltados à agricultura familiar.

O que me parece ainda mais frustrante é que Aldo Rebelo não fala de transporte sobre trilhos, a única solução objetiva tanto para desenvolver economica e socialmente as áreas rurais, como para integrar de fato o país.

No plano internacional, Aldo está perdendo a chance de se colocar como um candidato do anti-imperialismo. O que é mais um peso, aliás, que ele arrasta a seus pés para não melindrar seus novos amigos do bolsonarismo, capachos dos EUA até a raiz dos cabelos.

Aldo evita sistematicamente qualquer crítica direta ao imperialismo norte-americano, sempre desviando o assunto para críticas a Lula. Sua posição sobre Gaza é profundamente decepcionante para quem conheceu o Aldo do Antigo Testamento, o Aldo comunista. Hoje ele se recusa a chamar a carnificina em curso na Palestina de genocídio, escondendo-se atrás de malabarismos retóricos e burocráticos sobre a posição oficial de organismos internacionais, como se um líder político não tivesse responsabilidade moral diante de crimes evidentes, documentados online, contra a humanidade.

O mesmo padrão se repete na Venezuela. Aldo ecoa críticas genéricas ao processo eleitoral do país, sem apresentar dados concretos, enquanto silencia sobre o roubo explícito do petróleo venezuelano e as agressões diretas dos Estados Unidos. O tema surge, sobretudo, como mais um pretexto para atacar Lula. É um deslocamento calculado do foco, típico de quem já ajustou seu discurso a novos patronos.

A abordagem de Aldo Rebelo ao acordo Mercosul–União Europeia é muito diferente da crítica formulada pelos desenvolvimentistas. Ele sugere que a Europa deixou de ser um mercado relevante para o Brasil, como se a pauta exportadora brasileira se resumisse à soja vendida à China. Isso não é verdade. A União Europeia é, por exemplo, o principal mercado do café brasileiro, muito mais importante do que a China, além de ter peso expressivo em carnes, produtos florestais e alimentos processados.

Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e União Europeia foi de 100 bilhões de dólares, um crescimento de quase 70% em 10 anos! É uma corrente bem maior do que com os EUA, que foi de 83 bilhões de dólares. Considerando apenas a exportação brasileira, a comparação é ainda mais vantajosa para a União Europeia, que importou 50 bilhões de dólares do Brasil no ano passado, contra 38 bilhões de dólares dos EUA.

No momento em que o Brasil, assim como outros países, vem sendo ameaçado pelos Estados Unidos, é lógico que um acordo comercial com a Europa nos ajuda a caminhar com mais segurança no mundo.

A minha avaliação é um pouco diferente do senso comum desenvolvimentista, que me parece ficar numa postura excessivamente defensiva, ou mesmo protecionista. Eu levo em conta o que pensam os próprios industriais brasileiros, que, em sua maioria e por meio de suas associações, apoiam o acordo Mercosul–União Europeia, mesmo reconhecendo os riscos envolvidos. Esses setores avaliam que a maior concorrência europeia pode funcionar como estímulo à modernização da manufatura nacional, ao aumento da sua produtividade e à sua capacidade de competir em padrões tecnológicos mais elevados, sobretudo porque o catch-up (equalização concorrencial) com a indústria europeia é um desafio mais viável hoje do que com a indústria chinesa.

Por fim, o ataque de Aldo ao “identitarismo” funciona como cortina de fumaça. Há exageros da esquerda nesse campo, sem dúvida. Mas a política de identidades não é uma invenção artificial da esquerda contemporânea; ela é constitutiva da história da democracia. As lutas pelos direitos de mulheres, negros, povos indígenas e pessoas LGBT, inscrevem-se no rol das grandes lutas democráticas. Transformar os exageros identitários como um problema estrutural do Brasil é uma caricatura conveniente para atacar a esquerda, ao mesmo tempo em que abre espaço para os verdadeiros ultraidentitários: os reacionários e fascistas, obcecados com a restauração de um passado de dominação branca e patriarcal. Ademais, a própria esquerda, tanto no Brasil como nos EUA (de onde, se diz, teriam vindo os principais conceitos dos movimentos identitários), vem fazendo uma autocrítica profunda sobre os exageros e erros nesse debate.

Aldo Rebelo poderia contribuir para desenvolvermos um conceito de nacionalismo sofisticado, conectado ao mundo multipolar, ao anti-imperialismo e à cooperação entre povos. Poderia ajudar a construir uma esquerda madura, capaz de disputar a soberania brasileira sem recair em nostalgias autoritárias. Mas ele escolheu um caminho mais confortável, que é um nacionalismo romântico, reacionário, puramente retórico. Muito parecido com o nacionalismo vazio do bolsonarismo. Talvez com um verniz erudito, um broche com a efígie de Joaquim Nabuco pregado na camisa da CBF.

Aldo Rebelo teria muito a oferecer ao Brasil, mas preferiu se tornar um nacionalista de almanaque, cioso de suas leituras de Euclides da Cunha, mas distante do Brasil jovem, cosmopolita, progressista, que estamos tentando construir.

 

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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