O conselho de administração do BRB (Banco de Brasília) aprovou, por unanimidade, a tentativa de aquisição de 58% do capital total do Banco Master mesmo após receber um alerta formal da diretoria jurídica sobre a necessidade de atenção redobrada aos indicadores de liquidez e capitalização da instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. A informação consta em documento interno obtido pela Folha de S.Paulo, revelando que a advertência foi registrada quatro dias antes da deliberação do colegiado e do anúncio oficial ao mercado.
O parecer jurídico é datado de 24 de março de 2025 e foi assinado pelo então diretor jurídico do BRB, Jacques Veloso de Melo. No texto, o executivo destaca que a observância do índice de liquidez e do índice de Basileia — exigência mínima de capital para instituições financeiras — deveria ser considerada como elemento central na avaliação da proposta de aquisição.
“Há que se ressaltar que a observância do índice de liquidez e do índice de Basileia é crucial nas contratações efetuadas pelas instituições financeiras, pois ambos são indicadores essenciais para garantir a solidez e a estabilidade do sistema financeiro”, afirmou o diretor no documento.
Apesar da ressalva, o conselho do BRB aprovou a operação em 28 de março de 2025, autorizando a tentativa de compra de participação majoritária no Banco Master. Àquela altura, as negociações já se estendiam por quase três meses, desde o recebimento, em 3 de janeiro, de uma carta do banco de Vorcaro propondo a “discussão da possibilidade de negócios conjuntos”.
Negociações avançaram mesmo com sinais de fragilidade
Antes mesmo da aprovação formal, o BRB havia instituído um grupo de trabalho interno dedicado a avaliar parcerias com o Banco Master, incluindo cenários que poderiam resultar na aquisição acionária. No parecer, a diretoria jurídica afirmou não identificar ilegalidades jurídico-formais, desde que as recomendações fossem observadas.
“Por todo o exposto, não se vislumbram ilegalidades de ordem jurídico-formal na proposta, observadas as orientações constantes neste opinativo”, registrou o texto.
No fato relevante divulgado ao mercado no mesmo dia da decisão, o BRB sustentou que a operação teria como pilares estratégicos a “solidez, liquidez, capital e rentabilidade do novo conglomerado”. O banco informou ainda que a conclusão do negócio dependeria de diligências satisfatórias sobre ativos e passivos, reorganização societária do Master e autorização das autoridades regulatórias.
Banco Central vetou a operação
A tentativa de aquisição, no entanto, foi vetada pelo Banco Central do Brasil em setembro de 2025. Segundo informações divulgadas à época, um dos fatores decisivos foi o chamado risco de sucessão, ou seja, a possibilidade de o BRB assumir operações desconhecidas do Master sem patrimônio suficiente para absorver eventuais perdas.
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. À época, a instituição privada possuía apenas R$ 4 milhões em caixa, valor considerado incompatível com o porte de um banco de médio porte. Em depoimento prestado em dezembro, o diretor do BC Ailton de Aquino afirmou ter convicção de que o BRB deveria ter identificado, por conta própria, problemas relevantes nas carteiras de crédito adquiridas do Master.
PF apura operações bilionárias consideradas fraudulentas
Paralelamente, a Polícia Federal investiga o repasse de R$ 12,2 bilhões em operações de crédito classificadas como fraudulentas do Banco Master para o BRB. Dados apresentados no inquérito indicam que, na data da liquidação, o banco de Vorcaro mantinha apenas R$ 22,9 milhões em depósitos no Banco Central, menos de 1% dos R$ 2,5 bilhões exigidos para o conglomerado.
O então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comandava a instituição durante as tratativas, foi questionado em depoimento sobre os motivos que levaram o banco a avançar na negociação mesmo diante de processos envolvendo o Master na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da deterioração da reputação da instituição no mercado.
“Passamos a tomar conhecimento disso lendo o inquérito. Nem todas aquelas informações são públicas”, declarou Costa em dezembro.
Parte dos dados, porém, é de acesso público no site da CVM, incluindo processos anteriores nos quais controladores do Master firmaram acordos para evitar julgamentos. Há ainda um processo em curso contra Luiz Antônio Bull, então sócio de Vorcaro, por suspeita de fraude em fundo de investimento — caso ainda não julgado.
Defesa sustenta análises técnicas internas
Questionado se Daniel Vorcaro demonstrou preocupação com a liquidez do banco durante as negociações, Costa respondeu afirmativamente.
“Muitas vezes, em conversas, ele falou que estava preocupado, que era importante que tivesse uma decisão. Mas não era uma decisão nossa, era do Banco Central”, disse.
Apesar do desfecho negativo e do veto regulatório, o ex-presidente do BRB sustentou que a tentativa de aquisição foi respaldada por análises técnicas internas.
“Foram 11 áreas internas no banco que se posicionaram. Existe um rol de documentos produzidos demonstrando viabilidade, estratégia, análise de ativos e passivos”, afirmou, citando diligências contábeis, tecnológicas, trabalhistas e de passivos contingentes.
Procurado para comentar o alerta jurídico feito antes da aprovação, o BRB não respondeu. O caso segue sob investigação e permanece no centro do debate sobre governança, responsabilidade administrativa e falhas de controle no sistema financeiro.