Clientes que mantiveram relacionamento com o Banco Master e o Will Bank afirmam ter identificado dívidas registradas em seus nomes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), do Banco Central do Brasil, mesmo após quitação ou sem jamais terem contratado os débitos. Os casos foram descobertos por meio do Registrato, ferramenta que consolida dados financeiros enviados pelas instituições ao regulador, e passaram a constar como pendências atribuídas ao Banco de Brasília (BRB), segundo reportagem do g1.
O problema surgiu após a liquidação extrajudicial do Banco Master e do Will Bank, em meio a investigações da Polícia Federal sobre um suposto esquema de fraudes bilionárias envolvendo a venda de carteiras de crédito consideradas de baixa qualidade. Conforme apurações, o BRB teria adquirido cerca de R$ 12 bilhões dessas carteiras, pertencentes ao banco controlado por Daniel Vorcaro, o que teria provocado o repasse de dados de clientes que agora recebem notificações de cobrança.
Procurado, o BRB informou que deixou de receber do liquidante as informações necessárias para atualizar a situação das operações após o encerramento das atividades do Will Bank. Em nota, o banco explicou que, pelas regras contratuais, a instituição que originou o crédito é responsável por acompanhar os pagamentos e repassar os valores. “Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante, de modo que o BRB não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no SCR, mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”, afirmou.
O g1 tentou contato com o liquidante nomeado pelo Banco Central para o Will Bank e o Banco Master, mas não obteve resposta até a última atualização.
Especialistas ouvidos destacam que a cessão de carteiras de crédito é prática comum no sistema financeiro, mas exige responsabilidades claras. Para Fabio Braga, sócio da área bancária do escritório Demarest, o processo deve definir quem fica responsável pela gestão dos pagamentos. Já o professor Pedro Ramunno, do Mackenzie, ressalta que a legislação exige notificação formal ao consumidor quando há transferência de créditos. “Sem essa comunicação, a cessão não produz todos os seus efeitos”, disse.
Há divergência sobre a responsabilidade final pelos registros incorretos. Para Bruno Balduccini, do Pinheiro Neto Advogados, o banco comprador deve classificar corretamente os clientes e atualizar imediatamente os registros. Na mesma linha, Gustavo Kloh, da FGV Direito Rio, afirma que o BRB não pode transferir a responsabilidade: “Mesmo que não tenha culpa, o banco é responsável por apresentar uma solução”.
Os impactos já atingem consumidores. Um cliente relatou ter financiamento imobiliário negado devido a uma dívida vencida registrada em seu nome; outro afirmou que, mesmo após acordo com o Will Bank, o débito continuou aparecendo como pendente no Registrato em nome do BRB. Plataformas de reclamação também registraram alta nas queixas: em janeiro, foram cerca de 100 relatos; entre agosto e dezembro de 2025, 324 reclamações — alta de 326% na comparação anual.
Especialistas orientam que consumidores solicitem, por escrito, informações detalhadas sobre a origem do débito e formalizem reclamações com protocolo. Persistindo o problema, a via judicial pode ser necessária.
Em nota, o BRB disse ter solicitado ao liquidante a retomada do envio de informações e afirmou estar preparado para corrigir imediatamente os dados assim que houver retorno, reiterando que acompanha o processo para normalizar a situação.