Parlamentares democratas e organizações de direitos aumentaram o tom das criticas ao uso de máscaras faciais por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), afirmando que a prática reduz a transparência das operações e dificulta a responsabilização por abusos. Já o governo dos Estados Unidos defende o uso da vestimenta como medida de proteção à identidade e à segurança pessoal dos servidores.
Empregados pela administração do presidente Donald Trump para localizar e deter imigrantes em situação irregular, os agentes do ICE atuam principalmente em cidades classificadas como “santuário”. Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), a agência está autorizada a prender pessoas suspeitas de estarem em situação migratória irregular mesmo sem mandado judicial, e todos os estrangeiros que violem a legislação de imigração dos EUA estão sujeitos à detenção, independentemente de antecedentes criminais.
O DHS afirma que os agentes podem usar máscaras para evitar reconhecimento por civis e a exposição de dados pessoais, o que, segundo o governo, poderia colocar em risco os próprios servidores e suas famílias. O órgão sustenta ainda que os agentes portam distintivos e credenciais e se identificam quando exigido por lei ou por razões de segurança pública.
Organizações de direitos humanos contestam essa justificativa. Em relatório publicado em dezembro, a Human Rights Watch (HRW) afirma que a falta de identificação visível abre margem para abusos. A entidade entrevistou 18 pessoas que foram presas ou testemunharam prisões realizadas pelo ICE desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. Todas relataram episódios descritos como intimidadores e apontaram sensação de impotência diante de agentes mascarados ou sem identificação clara.
A diretora da Divisão de Crises e Conflitos da HRW, Belkis Wille, afirma que agentes precisam ser identificáveis para que possam ser responsabilizados em casos de conduta ilegal. Segundo a organização, o uso rotineiro de máscaras é incompatível com obrigações internacionais dos Estados Unidos em matéria de direitos humanos e deveria ocorrer apenas em situações excepcionais. A HRW também afirma que o anonimato favorece a impunidade.
O relatório cita ainda casos em que agentes do ICE teriam atuado à paisana, utilizado veículos descaracterizados e ocultado insígnias da agência ao abordar imigrantes em locais como tribunais, escolas e residências.
A polêmica ocorre em meio à expansão acelerada do efetivo do ICE. O governo Trump estabeleceu como meta deportar até 1 milhão de imigrantes por ano e passou a oferecer bônus financeiros e incentivos para atrair novos agentes. Em um ano, o número de servidores da agência passou de cerca de 10 mil para 22 mil, segundo dados oficiais, com mais de 220 mil candidaturas registradas.
A rapidez nas contratações levantou questionamentos sobre critérios de seleção e tempo de treinamento. Episódios recentes de violência durante operações do ICE levaram parlamentares democratas a pressionar por mudanças nas regras de atuação da agência. No fim de janeiro, senadores da oposição condicionaram negociações sobre o orçamento federal à revisão dessas normas, incluindo o fim do uso de máscaras faciais.
A oposição também defende a adoção obrigatória de câmeras corporais e a aplicação das mesmas regras de uso da força seguidas por polícias locais. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, classificou as ações do ICE como “brutalidade sancionada pelo Estado”.
Na segunda-feira (2), o governo anunciou a distribuição de câmeras corporais para agentes do ICE em serviço em Minneapolis, cidade onde duas mortes de cidadãos americanos durante ações da agência, em janeiro, provocaram protestos. Segundo a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, o programa será ampliado para outras regiões conforme houver recursos.
Até o momento, o governo Trump não indicou que pretende proibir o uso de máscaras faciais por agentes de imigração.