As indiretas de Xi ao Tio Sam

Pela primeira vez, Pequim tratou Washington de igual para igual, forçando o recuo americano em uma guerra comercial que já dura quase uma década / Reprodução

Xi Jinping e Donald Trump conversaram por telefone na noite de 4 de fevereiro. Como de praxe, Pequim e Washington divulgaram relatos próprios sobre o conteúdo da conversa. A leitura paralela desses comunicados permite observar não apenas os temas destacados por cada lado, mas o modo como China e Estados Unidos constroem publicamente sua narrativa sobre a relação bilateral.

No comunicado divulgado por Trump, a conversa aparece organizada como um inventário de temas e transações. O presidente americano enumera comércio, compras de soja, petróleo e gás, motores de avião e conflitos internacionais, sempre com ênfase em volumes, prazos e resultados. A ligação é descrita como “longa e completa”, com “muitos assuntos importantes” e um saldo “muito positivo”.

Já o texto divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da China adota outro registro. Xi Jinping enquadra o diálogo como parte da condução política de uma relação estrutural entre duas grandes potências. A conversa é situada dentro de um horizonte mais amplo, com referências ao planejamento de longo prazo chinês, a marcos políticos futuros e à necessidade de administrar divergências com estabilidade.

Essa diferença aparece de forma clara quando se observam os trechos destacados por cada lado. Trump escreve que discutiu, entre outros pontos, “a consideração, por parte da China, da compra de produtos agrícolas adicionais, incluindo elevar o volume de soja para 20 milhões de toneladas nesta temporada”. Xi, por sua vez, afirma que os dois países devem “fazer progresso passo a passo para construir confiança mútua” e avançar “em direção ao respeito mútuo, à coexistência pacífica e à cooperação de benefício mútuo”.

Entre os trechos do comunicado chinês, um em especial chama a atenção dos analistas: “É sempre certo fazer uma coisa boa, por menor que seja, e sempre errado fazer uma coisa má, por menor que seja.” A formulação surge no contexto de uma reflexão sobre conduta, confiança e responsabilidade. Trata-se de uma maneira recorrente da diplomacia chinesa de transmitir mensagens sensíveis por meio de referências morais e históricas, sem recorrer a linguagem confrontacional.

O comentarista Arnaud Bertrand observou que essa frase remete a um episódio conhecido da história chinesa: as palavras finais de Liu Bei, fundador do reino de Shu Han, dirigidas a seu filho e sucessor. No imaginário político chinês, esse episódio está associado à fragilidade de regimes que sobrevivem sem disciplina, autocontenção e senso de responsabilidade histórica. O ensinamento não fala de genialidade, mas de padrões mínimos de conduta necessários para sustentar o poder em contextos de pressão interna e externa.

Ao empregar essa referência numa conversa com o presidente dos Estados Unidos, Xi Jinping fala num registro que ultrapassa o curto prazo. A mensagem dialoga com a ideia de que decisões aparentemente pequenas acumulam efeitos estruturais e que a estabilidade entre grandes potências depende de previsibilidade, consistência e respeito a linhas sensíveis.

A questão de Taiwan aparece como o ponto mais delicado desse enquadramento. Xi afirma de forma direta que Taiwan é “a questão mais importante nas relações China-EUA” e que a China “jamais permitirá” qualquer forma de separação. Trump, por sua vez, limita-se a dizer que “entende como a China se sente sobre a questão de Taiwan” e que deseja manter o diálogo.

A leitura conjunta dos dois comunicados ajuda a iluminar um aspecto central da disputa geopolítica atual. Enquanto um lado organiza sua narrativa em torno de transações, volumes e anúncios imediatos, o outro mobiliza história, moral política e linguagem simbólica como instrumentos de sinalização estratégica. As indiretas de Xi funcionam como método: um modo de falar com o presente usando o vocabulário do tempo longo.


Comunicado de Donald Trump (íntegra – tradução)

Acabo de concluir uma excelente conversa telefônica com o presidente Xi, da China. Foi uma ligação longa e completa, na qual muitos assuntos importantes foram discutidos, incluindo comércio, questões militares, a viagem que farei à China em abril (pela qual estou muito ansioso), Taiwan, a guerra entre Rússia e Ucrânia, a situação atual com o Irã, a compra de petróleo e gás pela China dos Estados Unidos, a consideração, por parte da China, da compra de produtos agrícolas adicionais, incluindo elevar o volume de soja para 20 milhões de toneladas nesta temporada (eles se comprometeram com 25 milhões de toneladas para a próxima temporada), entregas de motores de avião e muitos outros assuntos, todos muito positivos.

A relação com a China, e minha relação pessoal com o presidente Xi, é extremamente boa, e ambos reconhecemos o quanto é importante mantê-la dessa forma. Acredito que muitos resultados positivos serão alcançados ao longo dos próximos três anos da minha presidência em relação ao presidente Xi e à República Popular da China.

PRESIDENTE DONALD J. TRUMP


Comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China (íntegra – tradução)

Na noite de 4 de fevereiro de 2026, o presidente Xi Jinping conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump.

O presidente Xi observou que, ao longo do último ano, os dois lados mantiveram uma boa comunicação e realizaram uma reunião bem-sucedida em Busan, traçando a direção e o curso das relações China-EUA. Isso foi bem recebido pelos povos dos dois países e pela comunidade internacional em geral. Dou grande importância a esse relacionamento. No novo ano, espero trabalhar com você para conduzir com firmeza o grande navio das relações China-EUA através de ventos e tempestades e realizar mais coisas grandes e boas.

Assim como os Estados Unidos têm suas preocupações, a China também tem as suas. A China sempre diz o que pensa e corresponde às palavras com ações e resultados. Se os dois lados trabalharem na mesma direção, com espírito de igualdade, respeito e benefício mútuo, certamente poderão encontrar maneiras de lidar com as preocupações de cada um.

Tanto a China quanto os Estados Unidos têm itens importantes em suas agendas neste ano. A China dará início ao seu 15º Plano Quinquenal, e os Estados Unidos celebrarão o 250º aniversário de sua independência. A China sediará a Reunião de Líderes Econômicos da APEC, e os Estados Unidos, a Cúpula do G20.

Os dois lados devem seguir os entendimentos comuns já alcançados, fortalecer o diálogo e a comunicação, administrar adequadamente as diferenças e expandir a cooperação prática. É sempre certo fazer uma coisa boa, por menor que seja, e sempre errado fazer uma coisa má, por menor que seja. Devemos avançar passo a passo para construir confiança mútua, encontrar a maneira correta de convivência e fazer de 2026 um ano em que nossos dois grandes países avancem rumo ao respeito mútuo, à coexistência pacífica e à cooperação de benefício mútuo.

O presidente Xi enfatizou que a questão de Taiwan é a mais importante nas relações China-EUA. Taiwan é território da China. A China deve salvaguardar sua soberania e integridade territorial e jamais permitirá que Taiwan seja separada.

O presidente Trump afirmou que os Estados Unidos e a China são grandes países e que a relação entre os dois é a mais importante do mundo. Disse ter grande respeito pelo presidente Xi e afirmou que deseja que a China tenha sucesso. Declarou ainda que entende a posição da China sobre Taiwan e que os dois lados devem continuar dialogando durante seu mandato.


Comentário de Arnaud Bertrand (íntegra – tradução, com trechos em chinês)

É sempre engraçado ler as transcrições chinesas das conversas entre Trump e Xi, porque nelas sempre aparecem referências clássicas chinesas extremamente sofisticadas, com camadas de significado implícito que você sabe que passaram completamente por cima da cabeça de Trump.

É como se Xi estivesse falando com Trump como se estivesse se dirigindo a um estudioso da arte clássica de governar, enquanto o outro responde algo do tipo: “então vamos fazer 25 milhões de toneladas de soja na próxima temporada, é muita soja, pessoal!”

Desta vez isso ficou particularmente curioso porque a transcrição chinesa traz Xi dizendo a Trump: “É sempre certo fazer uma coisa boa, por menor que seja, e sempre errado fazer uma coisa má, por menor que seja.”

Esse provérbio pode não parecer grande coisa à primeira vista, mas ele é extremamente significativo quando se entende a referência.

Essas são, na verdade, as palavras finais de Liu Bei, o lendário imperador de Shu Han, no período dos Três Reinos, dirigidas a seu filho e herdeiro Liu Shan, pouco antes de morrer. O texto original é o seguinte:

勿以恶小而为之,勿以善小而不为。惟贤惟德,能服于人
(Wù yǐ è xiǎo ér wéi zhī, wù yǐ shàn xiǎo ér bù wéi. Wéi xián wéi dé, néng fú yú rén)

O sentido é:
“Não faça o mal por ele ser pequeno; não deixe de fazer o bem por ele ser pequeno. Apenas por meio da sabedoria e da virtude é possível conquistar a lealdade dos outros.”

Por que Liu Bei disse isso? Por duas razões.

A primeira é que seu filho Liu Shan era notoriamente medíocre em habilidade e fraco de caráter. O sentido básico da advertência é: não espero que você seja brilhante, mas ao menos mantenha padrões morais básicos, porque o que está em jogo é alto demais.

A segunda é que o reino de Shu Han tinha bases extremamente instáveis, cercado por ameaças internas e externas. Internamente, a força nacional estava severamente desgastada e a confiança popular havia sido abalada por derrotas militares. Externamente, os poderosos reinos de Wei e Wu se impunham. Liu Bei, que havia ascendido do nada apoiado em benevolência e autoridade moral, sabia que, se seu herdeiro não conseguisse ao menos sustentar um padrão mínimo de decência, toda a estrutura ruiria.

O resultado foi que o conselho do pai passou completamente por cima da cabeça de Liu Shan. O reino de Shu Han acabou ruindo.

Liu Shan ficou conhecido pelo apelido “Adou” (阿斗) e, até hoje, seu nome é sinônimo de incompetência irremediável, expresso no famoso ditado “扶不起的阿斗” — literalmente, “um Adou que não se consegue sustentar”.

Para ser justo, mesmo muitos chineses não captariam essa referência apenas lendo a transcrição. Para a maioria, a frase funciona como um simples provérbio usado no dia a dia para lembrar alguém de manter padrões básicos de decência.

Mas para quem reconhece a referência histórica, a precisão é impressionante.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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