Luiz Estevão negociou patrocínio da Série D com banco ligado a Vorcaro e expôe fair play da CBF

REPRODUÇÃO

O empresário e ex-senador cassado Luiz Estevão, controlador do Grupo OK e do portal Metrópoles, negociou diretamente com o Will Bank, braço digital do Banco Master, então controlado por Daniel Vorcaro, um acordo de patrocínio para a edição de 2025 da Série D do Campeonato Brasileiro. A informação foi revelada em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, que aponta como a operação colocou em xeque o discurso de “fair play financeiro” defendido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O contrato concedeu ao Will Bank os naming rights da competição, que passou a se chamar oficialmente “Brasileirão Série D Will Bank”. Foi a primeira vez que a quarta divisão nacional teve seu nome comercializado. Apesar disso, o patrocínio só entrou em vigor já na última rodada da primeira fase do torneio, cerca de três meses após o início da competição, sem que houvesse ampla divulgação institucional sobre a venda do nome do campeonato. O valor do acordo não foi informado.

Direitos comerciais permitiram a negociação direta

Segundo a reportagem, a negociação foi possível porque Luiz Estevão havia adquirido da CBF os direitos comerciais da Série D. Com essa prerrogativa, passou a explorar o torneio no mercado, incluindo a venda do naming right e a comercialização de patrocínios vinculados às transmissões das partidas realizadas pelo canal do Metrópoles no YouTube.

Ao Estadão, Luiz Estevão defendeu a operação afirmando que o acordo ampliou a visibilidade dos clubes participantes. Segundo ele, o fato de o Metrópoles transmitir os jogos gratuitamente criaria uma vitrine capaz de tornar o torneio mais atrativo para patrocinadores. “O patrocinador está em busca de visibilidade, e o fato de o Metrópoles transmitir dá ao clube a possibilidade de oferecer ao seu patrocinador um grande alcance”, disse.

A CBF confirmou ao jornal que o Metrópoles “realizou, de forma independente, a negociação dos naming rights da competição com o Will Bank” e informou que o contrato foi encerrado ainda em 2025. Para a edição de 2026, segundo a entidade, estão sendo avaliadas novas propostas para os direitos comerciais da Série D.

Marca entrou apenas na reta final da primeira fase

A cronologia do acordo também chamou atenção. A Série D de 2025 começou em 19 de abril. O acordo entre CBF e Metrópoles para transmissão dos jogos foi anunciado apenas nos dias 2 e 3 de julho, e as primeiras partidas exibidas gratuitamente ocorreram na 11ª rodada. Já a marca do Will Bank passou a aparecer nas placas centrais de publicidade somente a partir de 26 de julho, na 14ª rodada, que marcou o encerramento da primeira fase.

De acordo com dados citados na reportagem, o Metrópoles afirmou ter transmitido 140 partidas. No entanto, a listagem do YouTube indicou 126 jogos exibidos, com um total de 12,5 milhões de visualizações e média de cerca de 99,7 mil espectadores por transmissão. A partida mais assistida teria sido o primeiro jogo da final, entre Santa Cruz (PE) e Barra (SC), em 27 de setembro, com aproximadamente 1,1 milhão de visualizações. O título ficou com o Barra, de Balneário Camboriú (SC), após decisão em 4 de outubro.

Fontes do mercado de direitos de transmissão ouvidas pelo Estadão afirmaram que a operação teria valores pouco expressivos, citando a baixa atratividade comercial da Série D, o custo médio de produção — estimado em cerca de R$ 40 mil por partida — e a dificuldade de monetização das transmissões.

Divulgação de gravação e convite ao jornal

Outro ponto sensível relatado pelo Estadão foi a divulgação, pelo Metrópoles, da gravação de uma conversa telefônica entre Luiz Estevão e um repórter do próprio jornal que apurava a negociação. Segundo o relato, a gravação foi publicada antes da reportagem ir ao ar.

Na ligação, Luiz Estevão teria sugerido que o Estadão fosse apresentado como potencial parceiro do Metrópoles nas transmissões da Série D. “Coloca na matéria que o Luiz Estevão convidou o Estadão para ser parceiro do Metrópoles na transmissão da Série D”, disse, segundo a reportagem. O episódio reforçou questionamentos sobre a concentração de controle envolvendo mídia, direitos esportivos e contratos comerciais.

Perfil de Luiz Estevão e atuação no futebol

Cassado do mandato de senador em 2000, Luiz Estevão é apontado como um dos empresários mais influentes de Brasília, com atuação nos setores imobiliário, de eventos e comunicação. No futebol, tornou-se um dos principais operadores de eventos na capital federal, organizando desde 2023 a Supercopa após adquirir da CBF os direitos de operação do torneio.

Sua trajetória inclui condenação a 31 anos de prisão, em 2006, por irregularidades em obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP). Ele começou a cumprir a pena em 2016 e, em 2020, obteve autorização para prisão domiciliar durante a pandemia de covid-19. Atualmente, segundo o Estadão, responde a ação civil pública do Ministério Público do Distrito Federal, no âmbito da Operação Al Capone, que apura suspeitas de organização criminosa, fraudes imobiliárias e inadimplência fiscal.

Will Bank, Banco Master e investigações

O Will Bank adotou estratégia agressiva de marketing após ser adquirido por Daniel Vorcaro em fevereiro de 2024. Fundada com foco em públicos desbancarizados, a fintech passou a se expandir nacionalmente. Em novembro de 2025, no entanto, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, citando crise de liquidez e indícios de irregularidades. O Will Bank entrou em Regime de Administração Especial Temporária (Raet) e, em janeiro, também teve sua liquidação decretada.

O caso expõe uma engrenagem que envolve futebol, mídia, bancos e eventos patrocinados, levantando dúvidas sobre transparência e governança. A negociação dos naming rights da Série D com uma instituição ligada a um banco posteriormente liquidado reforçou críticas sobre a coerência entre o discurso de integridade financeira da CBF e a prática de terceirizar ativos estratégicos a agentes privados com forte concentração de poder econômico e midiático.

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