Um desentendimento público entre PT e PDT evidenciou as dificuldades de coordenação entre aliados históricos às vésperas das articulações para as eleições de 2026. A crise ganhou forma após declarações do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, sobre supostos acordos para a formação de palanques estaduais, versão que foi rapidamente rebatida pela direção nacional do Partido dos Trabalhadores, segundo relato do jornal O Globo.
O episódio teve início quando Lupi divulgou, em suas redes sociais, um encontro com o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Na publicação, o dirigente pedetista afirmou que a reunião teria servido para “reafirmar a aliança do PDT para reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva” e avançar em entendimentos regionais. Segundo Lupi, o PT teria confirmado apoio a candidaturas do PDT ao governo estadual em três estados considerados estratégicos.
De acordo com a versão apresentada por Lupi, o PT teria se comprometido a apoiar Juliana Brizola no Rio Grande do Sul, Alexandre Kalil em Minas Gerais e Requião Filho no Paraná. O dirigente acrescentou que, com a “formalização interna do PT nos próximos dias”, as siglas avançariam para “vencer nesses estados estratégicos”.
A repercussão da postagem foi imediata. Poucas horas depois, a direção nacional do PT divulgou uma nota oficial desmentindo a narrativa apresentada por Lupi. No comunicado, o partido afirmou que o encontro teve como foco exclusivo “um diálogo de alto nível sobre a reeleição do presidente Lula” e que “não teve como objetivo a definição dos palanques eleitorais nos estados”. A legenda destacou ainda que as discussões sobre candidaturas regionais seguem em aberto e serão conduzidas em articulação com os diretórios estaduais.
“A reunião não tratou de apoio formal a candidaturas estaduais. As definições sobre os palanques seguem em debate e serão construídas em acordo com as instâncias partidárias nos estados”, afirmou o PT na nota, sinalizando incômodo com a tentativa de antecipar anúncios que, internamente, ainda não foram consensuados.
O desencontro de versões expôs fragilidades na relação entre os dois partidos, que historicamente caminharam juntos em disputas presidenciais, mas frequentemente enfrentam disputas locais. O caso também evidencia a tensão entre a estratégia nacional, centrada na reeleição de Lula, e as dinâmicas regionais, marcadas por interesses distintos e pela disputa por protagonismo.
Em Minas Gerais, a controvérsia provocou reação imediata de Alexandre Kalil. O ex-prefeito de Belo Horizonte, que se coloca como pré-candidato ao governo estadual pelo PDT, publicou uma mensagem curta e irônica nas redes sociais: “Eleição é um saco”. Em seguida, completou: “No meu palanque só sobe quem eu quiser”. A declaração foi interpretada como um recado tanto ao PT quanto à própria direção nacional do PDT, indicando desconforto com negociações conduzidas sem alinhamento prévio com os atores locais.
O cenário mineiro permanece indefinido. Dentro do PT, há divergências sobre a melhor estratégia para 2026. Uma ala defende o apoio a Kalil como forma de unificar o campo progressista, enquanto outra sustenta a necessidade de uma candidatura própria. Há ainda um terceiro caminho em discussão: o apoio ao senador Rodrigo Pacheco (PSD), apontado por interlocutores como o nome preferido de Lula para a disputa estadual, o que adiciona mais um elemento de complexidade às negociações.
No Rio Grande do Sul, o impasse segue semelhante. De um lado, o PDT trabalha a pré-candidatura de Juliana Brizola; de outro, o PT aposta em Edegar Pretto, atual presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ambos têm sinalizado disposição para o diálogo e para a construção de uma frente ampla no campo progressista, mas, até o momento, nenhum dos dois demonstrou intenção de abrir mão da cabeça de chapa. O resultado é a manutenção de dois projetos paralelos, que podem levar à fragmentação do eleitorado aliado.
No Paraná, a menção ao nome de Requião Filho também não resolve automaticamente o quadro. O PT estadual ainda debate sua estratégia e avalia o peso de alianças locais, além da necessidade de acomodar interesses de outras legendas que orbitam a base do governo federal.
Para analistas políticos, o episódio revela um padrão recorrente em anos pré-eleitorais: enquanto as direções nacionais buscam sinalizar unidade e antecipar acordos para fortalecer narrativas, os diretórios estaduais resistem a decisões tomadas de cima para baixo. A reação do PT à fala de Lupi indica preocupação em evitar compromissos públicos antes da consolidação interna, sobretudo em estados onde o partido ainda avalia múltiplas alternativas.
A crise também expõe o desafio de conciliar a estratégia presidencial com disputas regionais competitivas. Embora PT e PDT compartilhem o objetivo de reeleger Lula, a formação dos palanques estaduais tende a ser marcada por negociações longas e, possivelmente, por novos atritos. O episódio envolvendo Carlos Lupi e a resposta do PT sinalizam que, apesar da aliança nacional, o caminho até 2026 deverá ser permeado por disputas públicas e ajustes delicados entre aliados.