PT aposta em Zé de Abreu como rosto da campanha no Rio

Ator aceita desafio político, retoma militância iniciada na juventude e vira principal rosto do partido na campanha fluminense

O desejo de ocupar um cargo eletivo nunca desapareceu completamente da vida de José de Abreu. Ele apenas ficou adormecido. A semente foi plantada ainda em 1968, em meio ao clima efervescente da resistência à ditadura militar. Naquele período, o então estudante de Direito da PUC-SP participou ativamente de protestos e mobilizações pelas ruas de São Paulo.

Com o passar do tempo, no entanto, a carreira artística falou mais alto. O teatro, o cinema e, sobretudo, a televisão se tornaram prioridades. Décadas depois, aos 80 anos, o ator decidiu retomar aquele sonho interrompido. Agora, ele entra oficialmente na disputa eleitoral como candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro.

O convite partiu de Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT e prefeito de Maricá. Além da relação política, a amizade entre os dois pesou na decisão. O movimento também se encaixa na estratégia do partido de fortalecer sua nominata com nomes de grande reconhecimento público.

A decisão de trocar os palcos pelo Parlamento não veio de forma impulsiva. Antes de aceitar o desafio, José de Abreu buscou ouvir figuras centrais da história recente do PT. Entre elas, o ex-ministro José Dirceu teve papel relevante no processo.

Amigos de longa data, os dois dividiram não apenas afinidades políticas, mas também experiências duras durante o período da repressão militar. Dirceu, visto por muitos como um estrategista experiente da legenda, funcionou como uma espécie de conselheiro informal.

Somente após esse circuito de conversas, o ator deu resposta positiva a Quaquá. O dirigente petista, por sua vez, não escondeu o entusiasmo com a adesão do artista ao projeto eleitoral do partido no estado.

— Zé é um grande nome da arte e da cultura nacional. Na Câmara, qualificará o debate e dará uma enorme contribuição ao Brasil — resumiu.

Protagonismo na campanha e presença constante na mídia

A candidatura de José de Abreu não seguirá um formato convencional. Por decisão estratégica do comando estadual do PT, ele assumirá um papel central na comunicação da legenda. A ideia é utilizá-lo como âncora dos programas eleitorais no rádio e na televisão no Rio de Janeiro.

Na prática, isso significa uma presença quase permanente nos espaços de propaganda partidária. A aposta é clara: associar a imagem de um artista popular, conhecido por posições firmes, ao discurso político do partido no estado.

Essa estratégia dialoga com a trajetória do ator, acostumado a ocupar posições de destaque em produções audiovisuais. Ao longo da carreira, ele protagonizou dezenas de novelas e se consolidou como um rosto familiar para milhões de brasileiros.

O contexto profissional também facilitou a decisão. Atualmente, José de Abreu não mantém contrato fixo com a TV Globo, emissora onde construiu boa parte de sua trajetória. Essa liberdade contratual ampliou sua margem de atuação pública e política.

Hoje, o ator se dedica a projetos no teatro e a produções para plataformas de streaming, como a Netflix. Essa agenda mais flexível permite conciliar compromissos artísticos com a intensa rotina de uma campanha eleitoral.

Além disso, sua atuação nas redes sociais ampliou sua projeção no debate político nacional. Mesmo sem filiação partidária ativa até agora, Abreu se tornou uma voz frequente contra o bolsonarismo, o que o aproximou de setores da militância de esquerda.

A presença digital combativa também trouxe consequências. O ator acumula ações judiciais movidas por adversários políticos, em sua maioria ligados ao campo conservador. As acusações, em geral, envolvem supostos crimes de calúnia e difamação.

Entre os autores das ações estão nomes conhecidos do bolsonarismo, como Michelle Bolsonaro e o ex-procurador Deltan Dallagnol. Longe de recuar, José de Abreu costuma tratar o tema com ironia e bom humor.

— Diga-me quem te processa que direi quem tu és — comenta, ao relembrar os processos.

Agora, essa postura combativa migra do ambiente virtual para o terreno institucional. Com a candidatura, o ator transforma sua militância difusa em um projeto político formal, alinhado ao PT e ao campo progressista, em uma tentativa de fortalecer o debate público e ampliar a representação da esquerda no Congresso Nacional.

Com informações de Agênda do Poder*

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