Por Theófilo Rodrigues, cientista político.
No momento em que este artigo é escrito, faltam menos de dez meses para as eleições de outubro de 2026. A essa altura do calendário eleitoral, seria razoável supor que ao menos as duas candidaturas mais competitivas ao governo do estado do Rio de Janeiro já estivessem claramente dispostas no tabuleiro. No Rio de Janeiro, contudo, a política raramente segue roteiros previsíveis.
Em uma análise de conjuntura produzida em outubro de 2024, sustentávamos que os indícios disponíveis até então apontavam para uma disputa entre três grandes campos políticos nas eleições estaduais de 2026: (1) o campo lulista, que gostaria de lançar como candidato o prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD); (2) o campo do governador Cláudio Castro (PL), que poderia ter como candidato o deputado federal Dr. Luizinho (PP); e (3) o campo liderado pelo presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil).
O que não se podia antever naquele momento era que uma grave denúncia envolvendo o sistema de saúde do estado retiraria a pré-candidatura de Dr. Luizinho da disputa ainda no fim de 2024. Com isso, ao longo de 2025, Bacellar recompôs sua relação com Cláudio Castro, enquanto o PP de Dr. Luizinho passou a integrar uma federação com o União Brasil, partido de Bacellar. Assim, de um cenário inicial de três grandes campos, a tendência passou a ser a consolidação de apenas dois polos competitivos: o lulista, em torno de Eduardo Paes, e o bolsonarista, com Bacellar como principal nome.
A história, porém, não se encerrou aí. O mês de dezembro de 2025 teve início com a prisão de Bacellar, suspeito de ter vazado informações segundo as quais o deputado estadual TH Joias, ligado ao Comando Vermelho, seria alvo de investigação da Polícia Federal. Tal como ocorrera com Dr. Luizinho no fim de 2024, a pré-candidatura de Bacellar foi atingida em pleno voo. Ainda que a maioria da Alerj tenha votado por sua saída da prisão, é pouco provável que Bacellar reúna condições políticas para disputar o governo do estado em 2026. Resta, então, a pergunta central: quem estará do outro lado do tabuleiro?
O campo do governador Cláudio Castro precisa, necessariamente, apresentar uma candidatura competitiva. No entanto, os flertes se dão em várias direções: Washington Reis (MDB), cuja família domina a política na cidade de Duque de Caxias; Douglas Ruas (PL), que é filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson; Marcio Canella (União Brasil), que é o prefeito de Belford Roxo; e o atual secretário de Polícia Civil, Felipe Cury. Esses são apenas alguns dos nomes que figuram entre os mais mencionados, embora ainda não exista consenso em torno de nenhum deles.
A federação PSOL–Rede, por sua vez, tende a lançar candidatura própria. O PSOL, entretanto, ainda não definiu quem será seu postulante. Em pesquisas eleitorais realizadas até o momento, ao menos três nomes do partido já apareceram como possíveis candidatos: a vereadora Monica Benício, o vereador William Siri e o deputado federal Glauber Braga.
Além disso, começam a surgir nas pesquisas nomes considerados outsiders à direita do espectro político, como o psiquiatra e discípulo de Olavo de Carvalho, Ítalo Marsili, pelo Partido Novo; o bombeiro Rafa Luz, do Missão; e o ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel, ainda sem filiação partidária. Hoje, esses outsiders são desconhecidos do eleitorado fluminense; mas é bom recordar – e Paes lembra bem – que em setembro de 2018 Wilson Witzel também era um ilustre desconhecido.
Enquanto seus potenciais adversários enfrentam incertezas, Eduardo Paes – alheio aos problemas que os outros campos criam para si mesmos – avança na costura de alianças que percorrem praticamente todo o espectro político. Pela direita, além do seu próprio PSD, Paes conta com o Cidadania, presidido no estado pelo prefeito de Macaé, Welberth Rezende. Vale lembrar que, na eleição de 2018, Paes também teve o partido em sua chapa – então ainda com o nome de PPS –, com Comte Bittencourt como candidato a vice-governador. Integram ainda essa aliança o PSDB, do secretário municipal de Administração, Marcelo Queiroz, e o Podemos, liderado no estado pelo pastor Everaldo.
À esquerda, poucas dúvidas restam de que a federação Brasil da Esperança, composta por PT, PCdoB e PV, estará ao lado de Paes. O mesmo vale para outros partidos de centro esquerda, como o PSB e o PDT. Na prática, isso significa contar com o apoio já consolidado de prefeitos influentes, como Rodrigo Neves (PDT), de Niterói, e Washington Quaquá (PT), de Maricá.
Até mesmo na extrema direita Eduardo Paes tem buscado pontes. Em setembro de 2025, durante o culto de celebração do aniversário do pastor Silas Malafaia, Paes declarou publicamente: “Mexeu com o Silas Malafaia, mexeu comigo”. Liderança evangélica de projeção nacional e conselheiro do ex-presidente Jair Bolsonaro, Malafaia é um antigo aliado de Paes no Rio de Janeiro.
Todo esse arco de apoios partidários, somado à sua elevada popularidade – Paes foi reeleito prefeito da capital em 2024 com cerca de 60% dos votos –, faz com que ele apareça como favorito em todas as pesquisas realizadas ao longo de 2025. O conjunto desses levantamentos sugere inclusive a possibilidade concreta de que Eduardo Paes vença a eleição para o governo do estado já no primeiro turno em 2026. Nas seis pesquisas de opinião observadas – de quatro institutos diferentes – nenhum adversário ultrapassou a linha dos 15%. Já Paes aparece em três ocasiões acima do corte de 50%.
Gráfico 1 – Agregador de Pesquisas – Governo do Rio 2026. Fonte: Elaboração do autor.
Já tive a oportunidade de argumentar em outra ocasião que a crise da hegemonia do MDB abriu as portas para um realinhamento partidário no estado a partir de 2016. Naquele momento sugeri que esse novo sistema partidário seria protagonizado “por uma base partidária localizada entre a direita e a extrema-direita do espectro político, em forte diálogo com a política evangélica”. De fato, aquela hipótese se confirmou. O Rio de Janeiro elegeu como governador Wilson Witzel (PSC) em 2018 e Claudio Castro (PL) em 2022, ambos políticos conservadores com forte apoio evangélico – não obstante Castro seja da Renovação Carismática Católica. Dois anos depois sugeri que esse realinhamento poderia ser, na verdade, “um interregno instável, uma crise de hegemonia”. Paes, em 2026, tem a chance de encerrar esse momento da história do Rio de Janeiro e iniciar um novo ciclo.
Neste cenário descrito até aqui, poderíamos dizer que faria sentido Paes considerar ao menos três metas para esse período pré-eleitoral. Em primeiro lugar, conquistar o apoio do MDB de Washington Reis, do PP de Rogerio Lisboa – ex-prefeito de Nova Iguaçu – e de Wladimir Garotinho, prefeito de Campos dos Goytacazes. Em segundo lugar, evitar qualquer tipo de denúncia na Justiça ou na imprensa que o leve ao mesmo destino de Dr. Luizinho e Bacellar. E, em terceiro lugar, seguir o velho conselho de Napoleão Bonaparte: nunca interromper seu adversário enquanto ele estiver cometendo um erro.
À luz desse quadro, a eleição para o governo do estado do Rio de Janeiro em 2026 tende a ser menos definida pela força de um adversário específico e mais pela dificuldade estrutural dos demais campos em se organizarem de forma competitiva. Enquanto o campo bolsonarista busca, sem sucesso até aqui, um nome capaz de herdar o capital político de Cláudio Castro, e a esquerda à esquerda do lulismo mantém candidaturas com potencial limitado de crescimento, Eduardo Paes avança como o polo de estabilidade em um cenário marcado por crises, judicializações e improviso. Se nada alterar substancialmente o tabuleiro nos próximos meses, a principal incógnita da eleição fluminense pode não ser quem enfrentará Paes, mas se haverá, de fato, uma disputa capaz de levá-lo a um segundo turno.
Artigo originalmente publicado no Guia Lappcom Eleições Gerais 2026 Volume 1: A estrutura da disputa e as clivagens territoriais. Coordenação geral: Mayra Goulart.