O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, responsável pela articulação do governo com os movimentos sociais, fez um duro desabafo contra setores da esquerda que, segundo ele, preferem “lacrar na internet” a disputar transformações concretas na vida do povo.
A fala foi feita em entrevista recente ao podcast Três Irmãos e ganhou repercussão por expor, de forma direta, uma tensão interna histórica da esquerda brasileira: o conflito entre o purismo ideológico e a política feita a partir das condições reais da sociedade.
Boulos partiu do debate sobre a proposta do governo Lula de acabar com o regime de trabalho 6×1, por meio de um projeto de lei enviado com regime de urgência ao Congresso.
“Sabe o que o Lula vai fazer no Carnaval? Vai botar um projeto de lei com regime de urgência pelo fim do 6×1. Sabe o que isso significa? Projeto de lei com regime de urgência mandado pelo Presidente da República, o Congresso é obrigado a votar em 60 dias, se não tranca a pauta.”
Ele explicou que a proposta estabelece jornada máxima de cinco dias de trabalho por dois de descanso, limite de 40 horas semanais e sem redução salarial.
“Então vai ter que votar 6×1. Máximo de jornada de 5×2, máximo de 40 horas semanais, sem redução de salário.”
Para o ministro, trata-se de uma disputa concreta, que exige mobilização social para pressionar o Legislativo, inclusive enfrentando o empresariado.
“Aí, bicho, nós temos que fazer o que a gente tem condição de fazer, nós estamos fazendo. Inclusive vai precisar da mobilização social para ajudar a pressionar no Congresso.”
Boulos criticou duramente a reação de setores da esquerda que classificam a proposta como insuficiente por não avançar diretamente para um regime 4×3 ou para jornadas ainda menores.
“Aí você ainda vê gente dizendo: ‘Pô, mas então isso é uma traição do governo Lula’. O Lula comprando briga com a CNI, com a CNA, com tudo. ‘Porque tinha que ser o máximo de 4×3 e de 36 horas.’”
Em tom irônico, ele reagiu ao que chamou de purismo desconectado da realidade.
“Aí você olha e fala: ‘Jesus, dai-me luz, Jesus!’”
Segundo o ministro, esse tipo de postura ignora as contradições reais da política e da vida social.
“Fazer política significa enfrentar a contradição e partir da realidade.”
Ele então passou a formular uma crítica mais ampla ao que chamou de um setor “academicista ou lacrador” da esquerda.
“É uma turma que se comporta como se fosse uma consciência crítica da esquerda, um superego da esquerda. O trabalho principal é você ficar falando o que a esquerda não faz, onde a esquerda erra — a esquerda real, a esquerda popular, a esquerda que disputa de verdade.”
Para Boulos, trata-se de uma militância que fala apenas para convertidos, sem capacidade de mobilização social.
“Só que só prega para convertido. É uma vanguarda muito aguerrida, só que sem nenhuma retaguarda. É o general sem exército. Não tem ninguém atrás dele. Não bota 10 pessoas na rua, não convence o vizinho das suas posições.”
Ele afirmou que esse comportamento se sustenta justamente porque não precisa lidar com as dificuldades concretas da vida popular.
“Sabe por quê? Porque não precisa lidar com a vida real.”
Na avaliação do ministro, a política real exige negociação e a recusa do tudo ou nada.
“Na vida real não dá para você ser purista e falar: ‘é tudo ou nada!’”
Boulos argumentou que essa postura acaba abandonando a disputa da consciência dos trabalhadores reais, citando um exemplo eleitoral.
“A manicure lá da Cidade Tiradentes que falou: ‘não vou votar no Boulos não, porque o Boulos é radical demais. Ele defende só pobre, eu não sou pobre’.”
O ministro também defendeu a pluralidade interna da esquerda, mas com diferenças colocadas de forma honesta, e não caricatural.
“A esquerda não tem pensamento único e nem deve ter.”
Ao falar de sua experiência no movimento social, Boulos recorreu a um exemplo concreto de quando organizava ocupações de moradia.
“Quando eu organizava ocupação de terra improdutiva pelo MTST, se eu chegasse na assembleia com 5 mil pessoas que estavam pagando aluguel sem poder ou numa área de risco e dissesse: ‘Ou é socialismo e a desapropriação da especulação imobiliária ou é nada’, eu ia ser linchado.”
Segundo ele, a prática cotidiana exigia negociação em múltiplas frentes.
“A gente tinha que negociar com o proprietário para não ter despejo, a gente tinha que negociar prazo na justiça, a gente tinha que negociar com o governo, às vezes de direita, para poder sair um bolsa-aluguel, para poder sair uma moradia.”
Para Boulos, esse é o divisor entre a política real e o discurso performático.
“Essa é a vida real de quem trabalha com o povo. Não é a vida de quem está propagando e dizendo ‘eu sou o mais revolucionário do mundo e todo mundo está traindo’. Falar isso, bicho, até papagaio fala.”
O ministro concluiu defendendo a construção de uma esquerda com capacidade real de disputar poder, mobilizar o povo e derrotar a extrema direita.
“A questão é quem constrói uma esquerda real que tem capacidade de disputar e derrotar a extrema direita em eleição.”
Ele ainda destacou a atuação internacional do presidente Lula como exemplo de política concreta e efetiva.
“O que o Lula está fazendo na geopolítica mundial… foi o único cara que bateu de frente com o Trump.”
Segundo Boulos, ignorar a correlação de forças, o peso do centrão no Congresso e a consciência real do povo é se refugiar em uma “lista de desejos”, incapaz de produzir mudanças efetivas.
Aqui o link para assistir a entrevista completa:

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