BRB negocia venda de carteiras do Master a bancos privados para recuperar liquidez

Fachadas do Banco Master e do BRB (Banco de Brasília) • WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO e REUTERS/Adriano Machado

O Banco de Brasília (BRB) iniciou negociações com grandes instituições financeiras privadas para vender carteiras de crédito adquiridas do Banco Master, em uma tentativa de recompor perdas relevantes e preservar sua liquidez. Entre os potenciais interessados está o BTG Pactual, controlado pelo banqueiro André Esteves, além de outros bancos de grande porte. As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo.

A estratégia integra um plano apresentado pelo BRB ao Banco Central do Brasil na sexta-feira (6) e é considerada a principal aposta do banco do Distrito Federal para enfrentar os prejuízos decorrentes das operações com o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. Segundo fontes envolvidas nas tratativas, ao menos quatro instituições financeiras demonstraram interesse nos ativos, e uma delas já sinalizou disposição concreta para avançar no negócio.

Procurado, o BTG informou que não comentaria o tema. A instituição avalia atualmente todas as carteiras do BRB, tanto as originadas no Banco Master quanto aquelas concedidas diretamente pelo banco público do DF. Recentemente, o grupo de André Esteves adquiriu ativos considerados de boa qualidade do próprio BRB.

As negociações ocorrem em meio a forte pressão sobre o caixa da instituição brasiliense. Para atender à demanda diária de saques, o BRB realizou uma série de operações com bancos privados, movimentando valores superiores a R$ 5 bilhões. As carteiras provenientes do Banco Master, no entanto, apresentam um obstáculo adicional: a dificuldade de precificação. Em uma avaliação preliminar, o BTG teria considerado que os valores pedidos estão distantes dos preços efetivamente praticados no mercado.

Nem o próprio BRB dispõe, neste momento, de números definitivos sobre o valor real desses créditos. O cenário é considerado sensível também do ponto de vista político. Caso se confirme que as carteiras valem bem menos do que o montante inicialmente assumido, o impacto contábil seria elevado, criando um problema direto para o governo do Distrito Federal, comandado por Ibaneis Rocha (MDB).

Em 2025, André Esteves chegou a discutir com Daniel Vorcaro uma possível participação do BTG em operações envolvendo a carteira de precatórios do Banco Master. As conversas não avançaram diante da resistência de outros grandes bancos privados quanto ao uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em eventuais problemas de lastro. Meses depois, em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, após o fracasso de soluções de mercado, incluindo o plano de aquisição da instituição pelo BRB.

Além do BTG, Itaú Unibanco e Bradesco também avaliam a compra de carteiras de crédito do BRB. Esses ativos, que somam cerca de R$ 750 milhões, foram originados pelo próprio banco do DF e não têm ligação com o Banco Master. Uma eventual venda desses créditos reforçaria a liquidez da instituição. Procurados, Itaú e Bradesco não se manifestaram.

A ausência de bancos públicos nas negociações de compra de ativos tem gerado desconforto entre executivos do setor privado. A Caixa Econômica Federal, por sua vez, pode integrar um eventual consórcio de bancos disposto a conceder empréstimos ao BRB, caso a operação se mostre necessária. A proposta de solução de mercado apresentada pelo banco do DF é incentivada pelo Banco Central.

Se a estratégia for bem-sucedida, o BRB poderá evitar um aporte direto do governo do Distrito Federal para cobrir o rombo estimado em cerca de R$ 5 bilhões. Segundo um analista envolvido nas negociações, o momento ainda é de análise detalhada dos dados e de definição de parâmetros de preço, que indicarão se os ativos têm valor suficiente para compensar as perdas nas operações com o banco de Vorcaro.

O plano do BRB também prevê alternativas adicionais, como a contratação de um empréstimo junto ao FGC e a criação de um fundo imobiliário com ativos pertencentes ao acionista controlador, o governo do Distrito Federal. Os recursos obtidos seriam destinados à capitalização do banco. A hipótese de uso de recursos do FGC, no entanto, enfrenta resistência, já que bancos privados avaliam que o BRB ainda não reconheceu plenamente a gravidade da crise, em parte por fatores políticos.

A situação ganhou contornos eleitorais no Distrito Federal, com governo e oposição trocando acusações sobre as responsabilidades pela crise e sobre quem deve arcar com os custos da solução. A possibilidade de um aporte estatal, que reduziria recursos disponíveis para políticas públicas, passou a ser explorada pela oposição como crítica à gestão de Ibaneis Rocha. Aliados do governador, por sua vez, acusam adversários de disseminar boatos, como o de que o BRB poderia quebrar ainda neste ano, hipótese negada de forma categórica pelo atual presidente do banco, Nelson Antônio de Souza.

Após reunião no Banco Central, o BRB divulgou nota afirmando ter apresentado “um conjunto de ações preventivas de recomposição de capital a serem implementadas nos próximos 180 dias, caso seja comprovada a necessidade de aporte financeiro”. Segundo o banco, eventuais valores só serão definidos após a conclusão das investigações em andamento.

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