Os títulos do governo dos Estados Unidos ampliaram as perdas nesta semana, com alta nas taxas de juros, após informações de que reguladores da China teriam orientado instituições financeiras chinesas a reduzir a exposição aos Treasuries. A movimentação ocorre em meio ao aumento das incertezas geopolíticas e à maior volatilidade dos mercados globais, segundo a Bloomberg.
De acordo com a apuração, a recomendação foi repassada a bancos chineses para limitar novas compras e reduzir posições consideradas elevadas, sem estabelecer metas específicas de volume ou prazo. A diretriz, no entanto, não se aplicaria às reservas estatais chinesas mantidas em títulos do Tesouro norte-americano.
Taxas sobem e dólar recua
Após a divulgação da informação, os rendimentos dos Treasuries de referência subiram até quatro pontos-base, alcançando 4,25%, depois de terem sido negociados em torno de 4,22% mais cedo. Já os papéis com vencimento em 30 anos avançaram dois pontos-base, chegando a 4,87%. No mesmo movimento, o índice Bloomberg Dollar Spot recuou 0,2%, sinalizando enfraquecimento do dólar frente a uma cesta de moedas.
Analistas interpretaram a orientação chinesa como uma tentativa de reduzir riscos e diversificar a exposição a ativos dos Estados Unidos. O gesto também reforçou a percepção de uma tendência gradual de diminuição do peso dos Treasuries em carteiras internacionais.
Diversificação global e tensões geopolíticas
Embora apresentada como uma medida de gestão de risco, a orientação surge em um contexto mais amplo, no qual outros países também vêm reduzindo a participação no maior mercado de renda fixa do mundo. Índia e Brasil são citados entre as nações que diminuíram exposição recentemente, enquanto cresce o debate sobre a atratividade dos ativos americanos diante do cenário internacional.
Além disso, tensões geopolíticas e declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como ameaças envolvendo a Groenlândia, elevaram o desconforto nos mercados e estimularam a busca por ativos alternativos, como o ouro.
Para Gareth Berry, estrategista do Macquarie Group, o movimento reforça a percepção de uma mudança estrutural no posicionamento global em relação ao dólar. Segundo ele, gestores de diferentes regiões estariam “votando com os pés” diante da perspectiva de saídas de longo prazo da moeda americana.
Exposição chinesa no menor nível desde 2008
Dados oficiais dos Estados Unidos mostram que as posições de investidores sediados na China em Treasuries foram reduzidas pela metade nas últimas décadas, somando US$ 682,6 bilhões — o menor patamar desde 2008. O valor está bem abaixo do pico de US$ 1,32 trilhão registrado no fim de 2013.
Em contrapartida, a Bélgica — frequentemente associada a contas de custódia chinesas — viu suas participações em Treasuries quadruplicarem desde o fim de 2017, atingindo US$ 481 bilhões.
Considerando também investimentos chineses em títulos de agências dos EUA e em ações, o volume total aplicado pelo país em ativos americanos permanece relativamente estável desde o fim de 2023. Atualmente, a China ocupa a posição de terceiro maior detentor estrangeiro de Treasuries, atrás de Japão e Reino Unido.
Impacto limitado no mercado
Especialistas avaliam que o efeito direto da orientação chinesa pode ser limitado, já que grande parte da dívida americana detida pelo país está concentrada em instituições oficiais e em papéis de vencimento mais curto. Segundo Martin Whetton, chefe de estratégia de mercados financeiros do Westpac Banking Corp., os bancos chineses têm participação relativamente pequena nesse volume, o que reduz o impacto potencial sobre as ofertas mensais de Treasuries.
Apesar da redução chinesa, o investimento estrangeiro em títulos do governo dos EUA segue elevado. Dados do Departamento do Tesouro indicam que as posições externas cresceram em novembro e atingiram o maior nível da série histórica, impulsionadas por aumentos nas participações de países como Noruega, Canadá e Arábia Saudita, que compensaram mais um recuo mensal da China.
Mesmo sob pressão recente, os Treasuries continuam apresentando desempenho relativamente forte no cenário global. Nos últimos 12 meses, os papéis acumularam ganho de 5,3%, ficando atrás apenas de Singapura e Israel entre os principais mercados de dívida soberana de países desenvolvidos.