Plano da Comissão Europeia exige semicondutores confiáveis em drones
Enquanto cenas de drones modificados para guerra dominam as notícias internacionais, uma batalha diferente, mas igualmente crucial, começa a se desenhar nos corredores de Bruxelas. Trata-se de uma corrida pela soberania tecnológica, onde a peça mais valiosa não é o drone em si, mas o minúsculo cérebro que o comanda: o semicondutor. A União Europeia prepara um movimento ousado para reconquistar o controle sobre seus céus e sua cadeia produtiva, propondo o uso obrigatório de “semicondutores confiáveis” em todos os sistemas de drones civis e de defesa fabricados no bloco.
A medida é o núcleo de uma nova estratégia abrangente que a Comissão Europeia deve revelar nos próximos dias. O plano não surge do vácuo. Ele é, acima de tudo, uma resposta direta a uma realidade geopolítica cada vez mais tensa e fragmentada. A dependência de componentes eletrônicos fabricados fora do continente, especialmente em regiões de instabilidade ou sob influência de rivais estratégicos, tornou-se um calcanhar de Aquiles inaceitável.
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O gatilho para a aceleração deste projeto foi sonoro e incontestável. Em setembro do ano passado, o silêncio da noite sobre a Polônia foi rompido pelo rastro de caças da OTAN em missão de interceptação. O alvo: 19 drones russos que violaram o espaço aéreo do país membro da aliança. O episódio não foi apenas mais uma incursão; marcou a primeira vez, desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, que um país da OTAN abateu uma aeronave militar em seu próprio território.
Esse evento funcionou como um choque de realidade. Ele mostrou, de forma dramática, que a ameaça dos drones transcende os campos de batalha convencionais e pode penetrar diretamente no coração da Europa. A vulnerabilidade ficou exposta. Mais do que aviões não-tripulados, o que cruzou a fronteira foi uma mensagem clara sobre a facilidade com que a segurança coletiva pode ser testada por tecnologias acessíveis e ubíquas.
Diante desse cenário, a estratégia europeia de drones deixa de ser um documento técnico para se tornar uma questão de segurança nacional coletiva e de preservação do modelo social europeu. O viés, portanto, é claro: fortalecer a indústria interna, gerar empregos de alta qualidade em solo europeu e reduzir a dependência de potências externas. É uma postura de esquerda pragmática, que enxerga a autonomia estratégica não como um projeto belicista, mas como um imperativo para a paz e a estabilidade social.
Mas o que define, afinal, um “semicondutor confiável”? A proposta vai muito além da simples qualidade do componente. O foco está em três pilares fundamentais: segurança, resistência e rastreabilidade. Esses chips precisarão ser projetados e fabricados sob padrões que garantam sua imunidade a ataques cibernéticos, adulteração física ou a inclusão de “backdoors” – falhas intencionais que poderiam permitir o controle remoto por agentes hostis.
A ideia é que, do drone de entrega de encomendas ao veículo de vigilância de fronteira, cada circuito integrado tenha uma espécie de “certificado de origem” digital e à prova de violações. Isso implica em um investimento massivo não apenas em fábricas (as chamadas “foundries”), mas em todo o ecossistema de pesquisa, design e certificação. A Europa pretende criar um padrão próprio, um selo de garantia que será condição para operar em seu mercado interno.
Este movimento é complementado por outras iniciativas práticas que a estratégia deve detalhar. Entre elas, destaca-se a aceleração da aliança antidrones com a Ucrânia, uma parceria que, anunciada há tempos, agora ganha urgência máxima. A experiência de guerra em tempo real dos ucranianos no combate a drones russos é um laboratório inestimável, e a UE quer integrar esse conhecimento à sua indústria de defesa.
Para transformar o plano em realidade, Bruxelas aposta em uma mobilização sem precedentes do setor privado. Antes do verão, a Comissão convocará um fórum industrial reunindo gigantes da eletrônica, startups de drones, centros de pesquisa e representantes dos Estados-membros. O objetivo é claro: mapear capacidades, identificar gargalos e alinhar investimentos para escalar a produção em velocidade de guerra.
O cronograma é ambicioso e reflete a urgência percebida. A meta é estabelecer um centro de pesquisa e desenvolvimento dedicado exclusivamente à defesa antidrone até o início de 2027. Paralelamente, ainda neste outono, o bloco pretende criar equipes de resposta rápida a emergências envolvendo drones. Essas unidades, compostas por especialistas de vários países, estarão prontas para se deslocar a qualquer ponto do território europeu onde uma ameaça do gênero seja identificada, reforçando a cooperação operacional.
A coordenação interna também será fortalecida. Cada país membro será instado a nomear um coordenador nacional para a segurança de drones. Esses oficiais serão os elos entre as políticas de Bruxelas e a implementação em nível nacional, monitorando o plano de ação e garantindo a troca fluida de informações. Significativamente, o plano permanecerá aberto a parceiros próximos, como o Reino Unido e a Noruega, reconhecendo que a segurança tecnológica é um desafio transnacional.
A estratégia, contudo, não nasce sob consenso total. A ideia de uma “barreira antidrones” – um conceito de escudo eletrônico contínuo nas fronteiras – já havia sido levantada no ano passado e recebida com reservas por alguns governos, que questionaram seu custo, viabilidade técnica e impacto ambiental. O novo plano parece adotar uma abordagem mais pragmática, focada em resiliência e resposta, mas os debates sobre orçamento e soberania compartilhada prometem ser acalorados.
Além disso, o adiantamento de 6 mil milhões de euros de um empréstimo do G7 para a aliança com a Ucrânia sinaliza a prioridade do tema, mas também evidencia a pressão sobre os cofres públicos em um momento de múltiplas crises. Os defensores do plano, no entanto, argumentam que o custo da inação é infinitamente maior. Eles enxergam cada drone não-confiavél nos céus europeus não apenas como um risco à segurança, mas como um emprego de alta tecnologia que deixou de ser criado em solo europeu.
A aposta da União Europeia, em resumo, é uma só: reconectar seu destino tecnológico ao seu projeto político. Ao priorizar os “semicondutores confiáveis”, o bloco não está apenas protegendo seu espaço aéreo; está deliberadamente construindo os alicerces para uma indústria soberana, capaz de sustentar seu modelo de bem-estar social em um mundo cada vez mais disputado. A batalha pelo futuro, demonstram os planejadores em Bruxelas, já não se trava apenas no campo ou no mar, mas nas linhas de código e nas nanométricas arquiteturas de silício que passam a comandar, literalmente, os céus.