Deputado democrata afirma que decisão de associado de Epstein de invocar a Quinta Emenda aponta para “acobertamento da Casa Branca”
Em um testemunho altamente esperado e mantido a portas fechadas no Congresso norte-americano nesta segunda-feira, Ghislaine Maxwell, condenada por crimes de tráfico sexual, recusou-se a responder a qualquer pergunta, invocando sistematicamente sua proteção constitucional contra a autoincriminação, garantida pela Quinta Emenda.
A atitude gerou indignação imediata entre legisladores que investigam o caso Jeffrey Epstein e frustrou a expectativa de novos esclarecimentos sobre a extensa rede de abusos.
A recusa em falar foi anunciada logo no início da sessão perante o Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara pelo seu advogado, David Oscar Markus, que justificou o silêncio devido a um pedido de habeas corpus pendente, que alega ter sido realizada uma condenação injusta.
No entanto, Markus vinculou a possibilidade de Maxwell falar abertamente a uma condição específica: “A Sra. Maxwell está preparada para falar de forma completa e honesta, caso receba indulto do Presidente Trump”, afirmou ele em comunicado. O advogado ainda acrescentou que apenas ela poderia isentar figuras públicas como os ex-presidentes Donald Trump e Bill Clinton de qualquer irregularidade, prometendo uma verdade que “alguns podem não gostar de ouvir”.
A postura adotada no Congresso foi considerada inconsistente pelos parlamentares.
Apenas seis meses antes, em julho, Maxwell havia concedido uma longa entrevista de dois dias a Todd Blanche, vice-procurador-geral de Donald Trump, sem invocar qualquer privilégio. Na ocasião, segundo seu próprio advogado, ela “respondeu a todas as perguntas honestamente, sinceramente e da melhor maneira possível”.
O deputado democrata Ro Khanna, um dos que convocaram a audiência, destacou essa contradição, questionando por que ela se recusaria a falar ao Congresso sobre “assuntos substancialmente semelhantes”.
A frustração foi expressa de forma contundente pelo deputado Robert Garcia, membro sênior do comitê. “Após meses desafiando nossa intimação, Ghislaine Maxwell finalmente compareceu e não disse nada”, declarou Garcia. “Ela não respondeu a nenhuma pergunta e não forneceu nenhuma informação sobre os homens que estupraram e traficavam mulheres e meninas.”
Garcia direcionou suas críticas também ao governo Trump, perguntando: “Quem ela está protegendo? E precisamos saber por que ela recebeu tratamento especial em uma prisão de segurança mínima pelo governo Trump. Vamos acabar com esse acobertamento da Casa Branca.”
A audiência deixou sem resposta as perguntas centrais que os legisladores esperavam fazer. Ro Khanna havia preparado uma lista de questionamentos específicos, buscando identificar os “quatro co-conspiradores nomeados” e os supostos “25 homens” que Maxwell mencionou em documentos judiciais anteriores como intermediários de acordos secretos ou participantes dos abusos na ilha de Epstein.
“Quem são esses homens, além de Jeffrey Epstein, que abusaram sexualmente de menores?”, era a pergunta-chave que permanece sem resposta. Khanna também planejava questioná-la sobre a existência de listas de clientes ou registros contendo os nomes de associados de Epstein, uma alegação que o Departamento de Justiça nega, mas que persiste em processos judiciais e testemunhos.
Com Maxwell cumprindo pena de 20 anos e invocando silêncio, e com as declarações de seu advogado atrelando qualquer revelação futura a um indulto presidencial, a busca por responsabilidades além da figura central de Jeffrey Epstein e de sua principal cúmplice enfrenta mais um obstáculo significativo.
O episódio transforma a audiência congressual, antes vista como uma oportunidade de avanço, em um novo capítulo de impasse e questionamentos sobre quem mais está sendo protegido pelo silêncio da condenada.
Com informações do The Guardian em 09/02/2026