Trump critica Bad Bunny e reage à presença latina no palco do Super Bowl

Imagem: Kevin C. Cox/Getty Images

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou publicamente a apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, realizada na noite deste domingo (8), e classificou o show como uma “afronta à grandeza da América”. As críticas foram publicadas em suas redes sociais poucas horas após a performance, sem que o cantor porto-riquenho fosse citado nominalmente.

“Absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”, escreveu Trump. Em seguida, afirmou que “ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo” e chamou a dança de “repugnante”. Para o presidente, o show seria “um tapa na cara do nosso país”.

A reação de Trump contrastou com a repercussão do espetáculo, exibido durante a final da liga de futebol americano no Levi’s Stadium, na Califórnia, entre New England Patriots e Seattle Seahawks. O Super Bowl é o programa de maior audiência da televisão norte-americana, com mais de 100 milhões de espectadores apenas nos Estados Unidos, e o show do intervalo costuma ser planejado como entretenimento de grande apelo popular.

Antes mesmo de subir ao palco, a escolha de Bad Bunny já havia provocado reação negativa de aliados do presidente, que organizaram protestos simbólicos e tentativas de boicote. A irritação se intensificou após a apresentação, vista por críticos de Trump como uma celebração explícita da cultura latina em um momento de endurecimento das políticas anti-imigração do governo.

Bad Bunny, um dos artistas mais populares do mundo, construiu sua carreira sem abrir mão da identidade porto-riquenha e do uso do espanhol em suas músicas, mesmo no mercado norte-americano. Seu repertório, ancorado no reggaeton e no trap latino, dialoga diretamente com a história e a cultura de Porto Rico, frequentemente marginalizadas no debate político dos Estados Unidos — o país colonizou a ilha em 1898, mas ainda não reconhece o território como estado da federação, limitando os direitos de seus habitantes. Ao longo dos últimos anos, o cantor também se envolveu de forma aberta em causas políticas, como em 2019, quando abandonou uma turnê para participar de protestos contra o então governador Ricardo Rosselló, ao lado de outros artistas porto-riquenhos.

A crítica de Trump ocorre em um contexto de forte tensão interna no país. O Super Bowl foi realizado em meio a protestos contra operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após mortes registradas durante ações da agência em Minnesota. Embora a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, tenha afirmado anteriormente que o ICE estaria “em todo lugar” durante o evento, a NFL informou nos dias que antecederam a final que agentes da imigração não participariam da segurança do jogo.

Historicamente, o show do intervalo evita posicionamentos políticos diretos, mas já registrou episódios pontuais de controvérsia, como a apresentação de Beyoncé em 2016, com referências aos Panteras Negras, e o caso de um dançarino de Kendrick Lamar que exibiu uma bandeira da Palestina e do Sudão em 2025 e acabou preso. A apresentação de Bad Bunny, no entanto, foi percebida por críticos do governo como politizada não por gestos explícitos, mas por sua própria existência: um artista latino, cantando em espanhol, ocupando o centro do maior palco da cultura pop americana.

Lucas Allabi: Jornalista formado pela PUC-SP e apaixonado pelo Sul Global. Escreve principalmente sobre política e economia. Instagram: @lu.allab
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.