O senador Ciro Nogueira (PP-PI) reduziu drasticamente o tom de confronto com o governo federal e passou a adotar uma postura mais cautelosa em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento, observado desde o fim de 2025, é interpretado por aliados e adversários como uma tentativa de reaproximação política com vistas às eleições de outubro, especialmente no plano regional. As informações foram publicadas pelo jornal O Globo.
Levantamento feito por assessores do próprio partido aponta que Ciro Nogueira havia feito ao menos 94 postagens críticas ao Planalto ao longo de 2025. A última ocorreu em 18 de novembro, quando o senador afirmou que “a conta do governo estava no vermelho”. Desde então, cessaram os ataques públicos, num gesto descrito nos bastidores como um “pacto de não agressão” entre o presidente do PP e Lula.
Reunião com PT sinaliza mudança de estratégia
O sinal mais explícito da inflexão ocorreu em janeiro, quando Ciro Nogueira se reuniu com o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e com o presidente nacional do PT, Edinho Silva. O encontro teve como foco a avaliação de cenários eleitorais estaduais e a discussão de possíveis alianças locais, em meio a um processo de reaproximação entre partidos do Centrão e a legenda do presidente da República.
Do ponto de vista do Palácio do Planalto, a estratégia é clara: garantir, no mínimo, a neutralidade de PP e União Brasil na disputa presidencial, afastando essas siglas de um eventual alinhamento com Flávio Bolsonaro, apontado como principal pré-candidato da direita em 2026. A avaliação interna é que a simples neutralidade desses partidos já representaria um ganho político relevante para o PT.
Trégua pública, mas tensões permanecem
Apesar da mudança de tom, Ciro Nogueira mantém fixado em suas redes sociais um vídeo em que acusa o governo de ter acionado um “gabinete de ódio” contra ele. A publicação remete ao período em que a Polícia Federal avançou em investigações sobre um esquema de fraude fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, caso que gerou desgaste político ao senador.
No mesmo contexto, vieram à tona apurações envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, empresário apontado como próximo a Ciro. Esses episódios ajudaram a acirrar a tensão entre o senador e o governo ao longo de 2025, tornando ainda mais significativa a atual mudança de postura.
Federação entre PP e União Brasil entra no cálculo
PP e União Brasil negociam a formação de uma federação partidária, que, se formalizada, reunirá 108 deputados federais e 13 senadores. A aliança ainda depende de aval do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas já se tornou peça central nas articulações políticas tanto do campo governista quanto da oposição.
Segundo interlocutores das duas siglas, a tendência predominante é de neutralidade no plano nacional, com ampla liberdade para alianças regionais. Essa flexibilidade é vista como essencial para maximizar resultados eleitorais nos estados, independentemente de quem vença a disputa presidencial.
Nordeste no centro das negociações
A conversa entre Ciro Nogueira e Edinho Silva concentrou-se especialmente em estados do Nordeste onde o PT mantém forte capacidade de articulação política, como Pernambuco, Ceará e Maranhão. Esses colégios eleitorais são considerados estratégicos tanto para o partido de Lula quanto para o projeto de sobrevivência e expansão do Centrão no Congresso.
No Ceará, por exemplo, as negociações envolvem também o União Brasil. Um jantar recente em Brasília reuniu o ex-presidenciável Ciro Gomes, Ciro Nogueira, Antonio Rueda e lideranças locais para discutir um eventual apoio da federação à candidatura de Ciro Gomes ao governo estadual. O cenário, no entanto, permanece indefinido.
Segundo aliados de Rueda, o PT sinalizou a possibilidade de oferecer espaço ao União Brasil na chapa do governador Elmano de Freitas (PT), que deve buscar a reeleição. A proposta é vista como uma tentativa de atrair a federação e, ao mesmo tempo, enfraquecer a oposição local.
Cautela e pragmatismo marcam novo momento
Aliados de Ciro Nogueira minimizam o peso político da reunião com Edinho Silva, afirmando que os dois mantêm uma relação pessoal antiga e conversas frequentes. Ainda assim, o movimento é acompanhado com atenção no meio político, sobretudo porque o senador foi ministro-chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro e segue como um dos principais articuladores da centro-direita no Congresso.
Lideranças da federação PP-União Brasil avaliam que qualquer definição sobre apoio nacional deve ficar para mais perto das convenções partidárias, quando o cenário eleitoral estará mais consolidado. Até lá, a palavra de ordem é evitar confrontos diretos e manter canais de diálogo abertos com todos os polos de poder.
Estratégia do Planalto é reduzir isolamento
No PT, dirigentes avaliam que essa rodada de conversas integra um esforço mais amplo para evitar o isolamento do governo em colégios eleitorais estratégicos e reduzir a adesão antecipada de partidos de centro ao campo bolsonarista. A orientação interna é preservar a interlocução com líderes do Centrão e ampliar espaços de negociação regional.
A expectativa, segundo petistas, é que encontros desse tipo se tornem mais frequentes à medida que o calendário eleitoral avance. Para o governo, o objetivo não é necessariamente construir uma aliança formal com Ciro Nogueira, mas garantir que o senador e seu partido não atuem de forma hostil durante o processo eleitoral — um cálculo pragmático que reflete a complexidade do xadrez político brasileiro às vésperas das eleições.