Esqueça a divisão entre ricos e pobres: o livro “Brasil no Espelho” revela que o eleitorado se organiza em nove tribos identitárias — e que a aritmética de 2026 é muito mais complexa do que parece
O cientista político Felipe Nunes concluiu que a divisão clássica do eleitorado por renda não dá conta de explicar as complexidades sociológicas, as sutilezas políticas, que levam os brasileiros a suas determinadas escolhas eleitorais, à esquerda e à direita.
Em Brasil no Espelho (Globo Livros), publicado com base em quase 10 mil entrevistas, ele propõe uma nova cartografia do eleitorado brasileiro que substitui a clássica divisão por classes sociais (A, B, C, D/E) por nove segmentos identitários definidos a partir de 197 variáveis de comportamento, valores e estilo de vida.
O resultado é um retrato incômodo para ambos os lados da polarização: o Brasil não é nem a revolução progressista sonhada pela esquerda, nem a cruzada liberal-conservadora vendida pela direita.
Para entender quem decide as eleições de outubro, é preciso primeiro saber quem são essas nove tribos — e a qual campo elas pertencem. A coalizão que elegeu Lula em 2022 reuniu cinco grupos: os Militantes de Esquerda (7% do eleitorado), que votaram integralmente no petista; os Dependentes do Estado/Classe DE (23%), concentrados no Nordeste, que deram 73% de seus votos a Lula por pragmatismo de sobrevivência; os Progressistas (11%), jovens e escolarizados que formam a chamada esquerda identitária; os Liberais Sociais (5%), a elite de centro que votou em Lula para defender a democracia; e os Empreendedores Individuais (5%), trabalhadores precarizados que Lula conquistou por margem estreita de 52%.
Do lado oposto, a base bolsonarista se sustenta em quatro pilares: os Conservadores Cristãos (27%), maior segmento do país, formado por evangélicos e católicos tradicionais que votam pela pauta moral; o Agro (13%), que vai muito além dos produtores rurais e abrange toda a cultura sertaneja do interior paulista, mineiro e do Centro-Oeste; os Empresários (6%), elite econômica do Sul e Sudeste movida por meritocracia e rejeição a impostos; e a Extrema Direita (3%), grupo minúsculo mas barulhento cuja marca única é a rejeição à democracia — 100% deles admitem que uma ditadura pode ser preferível em certas circunstâncias.
A aritmética revela o paradoxo central de 2026. A soma dos grupos ideologicamente de esquerda — Militantes e Progressistas — alcança apenas 18% do eleitorado, enquanto a soma dos grupos de direita — Conservadores, Agro, Empresários e Extrema Direita — chega a 49%.
Isso significa que Lula não pode governar apenas para sua base ideológica e esperar vitória. Ele precisa manter a coalizão heterogênea de 2022, o que equivale a unir numa mesma mesa o sindicalista, o motorista de aplicativo que odeia sindicato, a jovem feminista e o evangélico que acredita que o homem deve ser o provedor da casa. Os números do livro mostram a dimensão do desafio: entre os Dependentes do Estado — base popular do lulismo — 73% acham que programas sociais desestimulam o trabalho, posição que poderia figurar no programa de qualquer partido de centro-direita.
O primeiro desafio de Lula para outubro é não perder os Liberais Sociais, o fiel da balança. Em 2018, esse grupo votou contra o PT; em 2022, migrou para Lula. A razão não foi adesão à esquerda, mas rejeição ao autoritarismo bolsonarista. São eleitores que defendem privatização (89% aprovam privatizar saúde e educação), redução de impostos e liberdades individuais, mas que também valorizam a democracia e a imagem internacional do Brasil. Se o governo for percebido como fiscalmente irresponsável, leniente com a corrupção ou excessivamente estatista, esse grupo volta para a oposição sem olhar para trás.
O segundo desafio é a segurança pública, tema que une o país numa unanimidade impressionante. O livro revela que 94% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal para 16 anos e 77% são favoráveis à pena de morte para crimes hediondos. As mulheres pobres e negras — base histórica de Lula — são as que mais se sentem inseguras. Quem ignorar o clamor por ordem será punido nas urnas. Há, porém, uma nuance que Nunes registra: o brasileiro quer polícia eficiente e justiça dura, mas não é armamentista — 72% rejeitam a facilitação da posse de armas. O eleitor quer que o Estado resolva o problema, não que transfira a responsabilidade para o cidadão armado.
O terceiro desafio é disputar os Empreendedores Individuais, grupo que encarna a nova precariedade do trabalho brasileiro. São motoristas de aplicativo, autônomos e pequenos prestadores de serviço que pensam como liberais apesar de viverem como pobres. Rejeitam sindicatos, valorizam o mérito individual e acham que o Estado só atrapalha. Lula os conquistou em 2022 por margem mínima, e esse voto é volátil: eles se sentem desprotegidos e atraídos pelo discurso de empreendedorismo da direita.
O quarto desafio, talvez o mais sutil, é não confundir o Brasil com o Twitter. A base progressista — jovem, escolarizada, feminista e ambientalista — soma apenas 11% do eleitorado. Governar priorizando pautas identitárias pode gerar aprovação nas redes sociais, mas afasta os 27% de Conservadores Cristãos e os 23% da Classe DE, que são moralmente tradicionais. Como registra Nunes, o Brasil “voltou no tempo” em matéria de costumes: em valores, o país de 2025 está mais próximo do Brasil de 1997 do que do Brasil imaginado pelas bolhas urbanas progressistas.
Para a direita, o cenário não é de conforto automático apesar da vantagem demográfica. A base ideológica é robusta, mas precisa de um líder capaz de atrair os moderados sem retórica golpista — tarefa que a inelegibilidade de Bolsonaro torna ainda mais complexa. Se o candidato da oposição acenar para a Extrema Direita, perde os Liberais Sociais; se ignorar os Conservadores Cristãos, perde o maior segmento do país.
Brasil no Espelho sugere que a fórmula vencedora de 2026 não está na ideologia, mas na capacidade de alinhar ordem moral com proteção estatal. O brasileiro médio quer um Estado forte que garanta saúde e educação (98% apoiam isso), que puna criminosos com rigor, mas que respeite a família e a fé. Como escreveu Nunes, quem conseguir prometer “paz nas ruas e comida na mesa” sem afrontar os valores tradicionais do eleitorado levará as chaves do Planalto.
Para usar a linguagem do próprio livro: para uma maioria que adotou costumes conservadores, mas que ainda depende do Estado, tem mais chance de ganhar eleições quem ofereça um projeto de segurança pública exuberante (ou seja, midiático, porém autêntico) e ao mesmo tempo garanta uma ampla rede de proteção social. Polícia forte e assistência social generosa: quem equilibrar essa balança governa o Brasil.