Por Priscila Miranda
A Índia é hoje o maior produtor de filmes do mundo em volume anual. A produção nacional detém cerca de 90% de participação no mercado interno — um fenômeno raríssimo no mundo contemporâneo, onde a maioria esmagadora dos mercados nacionais é dominada por produções americanas.
No ecossistema das plataformas, ocupa a terceira posição entre os maiores fornecedores de conteúdo para streaming, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão. Seus filmes circulam em mais de 90 países e suas receitas internacionais seguem em expansão.
Não estamos falando apenas de quantidade. Estamos falando de posição estratégica na disputa global por narrativas.
A pergunta que importa é outra: como um país do Sul Global, mesmo enfrentando desigualdades e desafios estruturais significativos, tornou-se uma potência capaz de disputar valor simbólico em uma era marcada por guerras narrativas, plataformas globais e colonização algorítmica?
Como a Índia construiu essa força? A resposta começa antes da independência.
Hackear o sistema antes de ser independente
Nos anos 1920, a Índia ainda era colônia britânica. E mesmo assim o cinema já começava a se estruturar como sistema.
Não foi um projeto estatal. Não foi uma política cultural planejada. Foi inteligência industrial.
Os exibidores — em contato direto com o público — observaram o modelo americano de produção, distribuição e exibição verticalizada. Entenderam que o poder não estava apenas em exibir filmes, mas em controlar o processo inteiro.
Eles já dominavam a exibição. Passaram a investir na produção. Estruturaram a distribuição. E entenderam algo ainda mais ousado para a época: o conteúdo produzido ali não deveria se limitar às fronteiras da Índia.
Já nos anos 1920, ainda sob domínio colonial, produtores e exibidores indianos começaram a exportar seus filmes para regiões da Ásia e da África, aproveitando circuitos culturais e diásporas existentes. A Índia não apenas copiava Hollywood — ela compreendia a lógica do sistema americano e o adaptava à sua realidade. Hackeava o processo. Transformava um modelo industrial estrangeiro em ferramenta própria.
Aquilo que poderia ter sido apenas consumo colonial começava a se converter em afirmação produtiva.
A força de se mostrar
Mas há um elemento ainda mais profundo nessa história.
A força do cinema indiano está no fato de que ele nunca teve medo de se mostrar como indiano.
Em grande parte das cinematografias do Sul Global, o cinema oscilou entre copiar modelos externos ou suavizar suas próprias referências para se tornar “exportável”. A Índia fez o movimento contrário. Ela consolidou um cinema no qual o público se reconhece.
O público indiano vê o seu próprio país na tela. Vê os rostos, os corpos, os gestos, as paisagens, as cores, os conflitos locais, os códigos culturais próprios. Não há diluição.
Quando o cinema falado chega, no início dos anos 1930, essa dimensão ganha ainda mais força. Apesar da colonização britânica, a maioria da população não falava inglês — e não tinha por que falar. A língua do colonizador não era a língua da vida cotidiana.
O cinema estrangeiro, portanto, perde tração na Índia com a chegada dos filmes falados. Nesse momento a indústria indiana consolida sua própria linguagem.
A música e a dança tornam-se centrais não apenas por tradição estética, mas porque funcionam como elemento de unificação em um país multilíngue. Em vez de se adaptar à língua dominante, o cinema indiano usa suas matrizes culturais para criar um idioma comum a todo o país.
A fala deixa de ser barreira e a performance vira ponte.
Independência tardia e domínio das ferramentas do século XX
A Índia conquista sua independência em 1947, já no século XX do pós-guerra, no tempo da imagem, do som e da circulação de massa.
Diferentemente das independências do século XVIII e XIX — organizadas em torno do papel e da imprensa —, os revolucionários indianos desenvolvem técnicas de luta pela soberania também no campo audiovisual. A independência política encontra uma indústria cultural em funcionamento e já projetada para além das fronteiras nacionais.
Isso ajuda a explicar por que cinema, inovação e tecnologia caminham juntos na história indiana. A apropriação das ferramentas modernas se dá simultaneamente às lutas que fundam a república.
Penetrando a China: o caso Dangal
A força da cinematografia indiana não se limita ao mercado doméstico.
O caso de Dangal é emblemático. O filme arrecadou cerca de US$ 303 milhões mundialmente, sendo aproximadamente US$ 193 milhões apenas na China — mais do que no próprio mercado indiano.
A China é um dos mercados mais fechados do mundo, com rígido controle estatal e limitação de importação de títulos estrangeiros. Penetrar ali não é trivial.
O sucesso de Dangal não foi um acidente. O ator Aamir Khan já havia conquistado o público chinês com 3 Idiots, criando um capital simbólico anterior. Mas isso só funciona porque a matriz cultural indiana permanece intacta.
A Índia exporta identidade — e essa identidade atravessa fronteiras políticas.
Popular e autoral: uma tensão produtiva
A força do mercado doméstico está concentrada principalmente no cinema popular associado a Bollywood e às grandes indústrias regionais. São esses filmes que sustentam economicamente o sistema.
Ao mesmo tempo, existe um cinema autoral indiano, sofisticado e politicamente relevante, com presença constante nos grandes festivais internacionais — Cannes, Berlim, Veneza, Locarno. Esse cinema projeta simbolicamente a Índia no mundo, ainda que não tenha a mesma força interna.
O desafio está na conciliação desses dois polos. Mas essa tensão é estrutural em muitas cinematografias.
Panorama Estrutural do Cinema Indiano
A Índia é o maior produtor de filmes do mundo em volume anual, com cerca de 90% do mercado interno ocupado por produções nacionais e presença em mais de 90 países. As receitas internacionais seguem em crescimento consistente. No fornecimento de conteúdo para plataformas de streaming, ocupa a terceira posição global. Entre os principais exportadores audiovisuais do mundo estão, além dos Estados Unidos, o Reino Unido, o Japão, a Coreia do Sul e a própria Índia — com a França aparecendo em quinto lugar como primeiro país europeu não anglófono.
Por que isso importa para o Brasil
O cinema indiano não é forte por acaso. Ele é forte porque foi pensado, desde o início, como ferramenta de soberania cultural. Antes mesmo da independência formal, a Índia já havia entendido que disputar o imaginário é disputar poder.
E talvez não seja irrelevante que, neste momento, o Brasil volte seus olhos para a Índia em agendas diplomáticas e estratégicas. A viagem presidencial à Índia, marcada para fevereiro, ocorre num ano em que a Índia assume a presidência dos BRICS — e em que ambos os países buscam ampliar trocas comerciais e culturais como forma de construir autonomia diante das crescentes pressões e chantagens vindas dos Estados Unidos.
A aproximação entre dois grandes países do Sul Global não deve ser pensada apenas em termos comerciais ou industriais, mas também culturais. Se o século XXI é marcado por uma disputa feroz por narrativas, plataformas e imaginários, a Índia mostra que é possível combinar identidade cultural, domínio tecnológico e estrutura industrial. Para o Brasil — que ainda luta para consolidar hegemonia audiovisual interna — o diálogo com a experiência indiana não é apenas simbólico: é estratégico.
Soberania não se constrói apenas com acordos comerciais, mas com domínio das ferramentas narrativas do seu tempo.


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